CV firma domínio na Amazônia e supera PCC no controle de rotas do tráfico

"O grupo consolidou formas de governança criminal em nível local nos principais polos das rotas de drogas pela Amazônia. Sua posição dominante permite ao CV continuar desenvolvendo relações comerciais com compradores europeus e fortalece sua capacidade de se expandir internacionalmente, aproveitando as oportunidades de lucro ilícito e as fronteiras internacionais porosas da região amazônica."
O levantamento cita que a estratégia de expansão do grupo criminoso foi apoiada em uma estrutura organizacional que se adaptou melhor à geografia e à dinâmica social amazônica, do que a burocracia centralizada do rival paulista —o que também é visto como potencial problema.
Pesquisadores e integrantes das forças de segurança locais na Amazônia observam que a cultura organizacional mais indisciplinada do CV pode tornar o grupo, no longo prazo, mais vulnerável ao avanço de concorrentes na região. Ainda assim, está claro que o CV desenvolveu amplos vínculos com traficantes locais, diversificou consideravelmente suas atividades para o comércio de ouro e estabeleceu esquemas de corrupção com autoridades e instituições locais.
Trecho do estudo

O modelo de negócios que venceu
Funari conta que a ascensão do CV na região ocorreu após um ciclo de confrontos violentos entre 2010 e 2020. Para conter o avanço do PCC em Manaus, chefes criminosos locais uniram-se sob a marca da FDN (Família do Norte).
Após guerras e massacres no sistema prisional, a FDN perdeu força e fragmentou-se. As lideranças sobreviventes optaram por se integrar ao CV, consolidando a vitória do grupo em 2020. A data de 10 de fevereiro é celebrada anualmente pela facção com queimas de fogos simultâneas pela capital amazonense por disso.
A preferência local pelo CV decorre da diferença entre os modelos de gestão das duas maiores facções do país.
A facção opera como uma franquia descentralizada, em que a cúpula no Rio tem baixa supervisão e concede autonomia aos afiliados locais sobre seus territórios e negócios.
Já o PCC mantém uma estrutura mais autocrática e hierárquica. Ela exige, por exemplo, autorização centralizada de São Paulo para ações operacionais e impõe regulamentos estritos aos integrantes.
Essa diferença, diz o estudo, fica clara na rotina das facções e até na forma como as drogas são embaladas para envio.
"O PCC exige que os integrantes peçam autorização para fazer qualquer coisa. Até os grupos de WhatsApp do PCC seguem diretrizes rígidas. Os integrantes só podem discutir assuntos relacionados a negócios envolvendo drogas. Todos precisam se apresentar e informar quem é seu padrinho na organização", detalha o estudo, citando uma fonte da segurança pública do Amapá.
"Já os grupos de conversa do CV costumam ser uma bagunça. Acontece de tudo: envio de vídeos, ofertas para transportar drogas, convites para festas, alertas sobre patrulhas policiais circulando em territórios do CV."
A diferença também é visível nas apreensões policiais: o PCC utiliza tijolos de cocaína padronizados de exatamente 1 kg, envoltos em fitas azuis, cinzas, brancas ou prateadas —evitando estritamente a cor vermelha. Já o CV utiliza embalagens pretas ou vermelhas, preparadas com menor precisão de peso e padronização.
Impacto nas populações tradicionais
A atuação do CV Amazônia transcende o narcotráfico, e a facção está reinvestindo o dinheiro das drogas na extração ilegal de ouro na bacia amazônica e na Guiana Francesa, cita o estudo.
"As plantações de coca controladas pelo CV estão se expandindo no Vale do Javari (AM), na fronteira entre o Brasil e o Peru. Algumas chegam até as margens do rio Javari, afluente do Amazonas que marca a fronteira entre os dois países."

O ouro funciona como commodity não rastreável e moeda direta para a aquisição de cocaína junto a fornecedores internacionais, eliminando a necessidade de transações bancárias.
A infraestrutura logística do garimpo, como pistas clandestinas e pequenas aeronaves, é compartilhada para o transporte de cargas mistas.
A infiltração de grupos transnacionais do tráfico de cocaína no comércio ilegal de ouro está se expandindo em ritmo alarmante em toda a Amazônia, inclusive na região da fronteira entre Brasil e Guiana Francesa. A persistente demanda elevada por cocaína na Europa está cada vez mais interligada aos preços internacionais recordes do ouro.
Trecho do estudo
Nas regiões produtoras, como a província de Ucayali (Peru) e o Vale do Javari, a facção instalou plantações de coca e laboratórios de refino.
Para reduzir custos, o CV realiza o pagamento de trabalhadores e jovens indígenas em pasta-base de cocaína, provocando assim a dependência química e desestruturação social em comunidades tradicionais.
"Grupos locais em cidades como Macapá e Manaus conseguem se beneficiar da entrada de recursos e do acesso às drogas que o CV é capaz de obter, ao mesmo tempo que preservam sua capacidade de governar seus territórios como considerarem adequado, sem a longa lista de regras e códigos de conduta impostos por grupos como o PCC", cita o estudo.
"Essa promessa de enriquecimento ilícito, com poucas restrições, permitiu ao CV consolidar sua presença nas rotas do tráfico de drogas na Amazônia", aponta Funari.
Reportagem
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