"Revejo-me em coisas da direita e da esquerda"

Henrique Araújo, 72 anos, ex-presidente do Supremo Tribunal de Justiça entre 2021 e 2024, marcou várias vezes a agenda noticiosa com afirmações corajosas em favor de uma reforma da Justiça. Apesar de ter tido a particularidade de se ter feito ouvir em alturas-chave do seu mandato, falava pouco (geria bem o silêncio) e deu apenas duas entrevistas, sem nunca revelar muito sobre o seu percurso de vida.
Minhoto de Arcos de Valdevez, filho de um comerciante e de uma costureira, teve uma educação tradicional mas fugiu aos canônes de quem nasceu nos anos 50. Com o salário de trabalhos de verão, conseguiu comprar os bilhetes para o 1.º Festival de Vilar de Mouros, em 1971. A experiência marcou-o de tal forma que tentou uma carreira profissional na música e fundou várias bandas rock que animava as festas do distrito de Viana do Castelo. Ainda hoje os Led Zeppelin são uma das sua bandas favoritas.
O seu pai, a sua grande influência, tinha uma ligação aos movimentos de oposição a Salazar e o próprio Henrique Araújo foi um dos fundadores do PS na sua terra e militou na Juventude Socialista. Ainda antes do 25 de Abril, teve o primeiro contacto com a censura porque quis publicar um artigo de opinião no qual criticava uma figura salazarista de Arcos de Valdevezque tinha desconsiderado o movimento hippie.
O também ex-presidente da Relação do Porto hesitou entre História e o Direito mas o pragmatismo do seu pai ajudou-o a ir para Coimbra aprender tudo sobre as leis. Numa das suas primeiras decisões como juiz, numa vila nortenha católica, afrontou a Igreja ao silenciar um sino que perturbava o funcionamento de uma clínica médica. Este é um breve resumo mas há muito mais para conhecer deste juiz conselheiro corajoso na última entrevista de vida do “Justiça Cega — Especial Verão” — que também dá o seu contributo para a reforma penal que se avizinha.
Nasceu em 1954 em Arcos de Valdevez, distrito de Viana do Castelo, Alto Minho. Uma zona com muito orgulho nas suas tradições. Como é que foi a sua infância?
Foi uma infância muito, muito feliz. Passada em tempos e em espaços em que não se ponham problemas de segurança. As crianças brincavam na rua. Iam para a escola sem acompanhamento. E brincávamos todo o dia, depois de fazermos os deveres de casa, na rua, no lado da igreja. Jogávamos futebol, até chegar o primeiro polícia que nos confiscava a bola. Mas foi uma infância realmente muito feliz, com banhos no Rio Vez. O meu pai era um adepto valoroso do Rio Vez, um defensor valoroso daquelas águas, daquelas águas límpidas. Do Rio Vez, que ainda hoje se mantém assim. E, portanto, foi muito bom. Gostaria muito que os jovens de hoje, com a idade que eu tinha na altura, da escola primária, pudessem ter tão felizes como eu fui. Gostava muito.
Como é que eram os seus pais? O que é que faziam?
O meu pai era comerciante. Tinha um estabelecimento de pronto-a-vestir. Era um comerciante modesto. A minha mãe era costureira. Portanto, éramos uma família modesta. Tinha dois irmãos.
Havia uma agência de câmbios e bancária junto à loja do meu pai. E o meu pai colocava-me lá e eu fazia troca de divisas. Na altura, ainda não havia o euro, trocavam-se florins holandeses, marcos alemães, francos (suíço e francês) por escudos. Também fazia cobrança de letras a comerciantes quando chegava o prazo de vencimento e eu, com 13/14 anos, ia fazer essa cobrança. Outras vezes, o meu pai colocava-me no estabelecimento do meu padrinho que tinha um estabelecimento de eletrodomésticos e eu ajudava também nas férias. Portanto, estava sempre ocupado nas férias.
Noventa e tal por cento da população portuguesa tem precisamente origens sociais iguais. Era o comum na altura.
Sim, nunca faltou, felizmente, nada. Mas era uma família modesta. O meu pai nunca teve carro. Nunca fizemos férias no Algarve ou em qualquer outro sítio. O meu pai fazia questão de, nas férias escolares, me pôr ocupado a trabalhar em várias situações.
Ajudava ou na loja?
Nem tanto. Ajudava quando era preciso. Mas, por exemplo, eu tive uma experiência que foi fantástica. Havia uma agência de câmbios e bancária junto à loja do meu pai. E o meu pai colocava-me lá e eu fazia troca de divisas. Na altura, ainda não havia o euro, trocavam-se florins holandeses, marcos alemães, francos (suíço e francês) por escudos.
Historicamente, o Alto Minho é uma terra de emigração. Já havia muita nessa altura?
Sim. Também fazia cobrança de letras a comerciantes quando chegava o prazo de vencimento e eu, com 13/14 anos, ia fazer essa cobrança.
Uma letra é uma coisa que um jovem hoje em dia não sabe nem o que é. Uma letra é uma espécie de cheque, ou seja, adiantava o dinheiro e depois tinha que pagar a data de vencimento.
Sim. Outras vezes, o meu pai colocava-me no estabelecimento do meu padrinho que tinha um estabelecimento de eletrodomésticos e eu ajudava também nas férias. Portanto, estava sempre ocupado nas férias. Já numa fase mais avançada, quando eu tinha talvez 16 anos, recordo-me que fui trabalhar para a Câmara Municipal para o serviço das águas e foi aí que eu juntei o meu primeiro dinheiro para poder ir ver o primeiro festival de Vilar de Mouros.
Já foi nos anos setenta?
Em 1971, salvo erro. Teria 16 ou 17 anos.
"O 1.º Festival de Vilar de Mouros marcou-me muito. O cartaz tinha o Elton John e também o Manfred Mann, que era uma banda muito conhecida naquela época. E outras bandas portuguesas como o Psico e o Objetivo. Tive o primeiro contacto com o movimento hippie. Foi uma experiência única e que deixou marcas. A partir daí o meu interesse pela música cresceu — e cresceu a tal ponto que tive carteira de músico profissional e uma banda de rock."
O 1.º Festival de Vilar de Mouros chegou a ser classificado como o Woodstock português. Teve uma afluência de 20 mil a 30 mil jovens.
Sim, foi o festival que realmente me marcou muito. Fui com o meu primo. O cartaz tinha o Elton John e também o Manfred Mann, que era uma banda muito conhecida naquela época. E outras bandas portuguesas como o Psico e o Objetivo, que eram bandas muito conceituadas aqui em Portugal.
O que achou daquele ambiente do festival? Era um ambiente muito diferente do seu quotidiano.
Sim, claro. Tive o primeiro contacto com o movimento hippie. Foi uma experiência única e que deixou marcas. Porque a partir daí o meu interesse pela música cresceu e cresceu a tal ponto depois de ter, inclusivamente, obtido a carteira de músico profissional para poder fazer uma carreira na música durante algum tempo — uma carreira modesta.
O que fez durante essa sua passagem pela música? Tocava ou cantava?
Era guitarrista. Criei com amigos uma banca na minha vila — a banda chamava-se Os Dogma. Era uma banda que tinha algum prestígio no distrito de Viana do Castelo porque tocavamos só rock — o que, na altura, não era muito comum. Depois, já como profissional, toquei numa banca de Melgaço.
Deve ter sido o primeiro presidente do Supremo Tribunal de Justiça que criou uma banda rock. (risos)
Se calhar, não… se calhar, não…
Há pouco estávamos a falar da sua terra natal, Arcos de Valdevez — que tem uma pequena parte do seu território que faz fronteira com a Galiza. Há efetivamente uma forte ligação entre a sua vila, e um pouco por todo o Alto Minho, e a Galiza. Recordo-me de ter visitado uma vez Arcos de Valdevez e ter constatado que o galaico, que é um dialeto que deriva do português, continua a ser muito falado naquela zona e do outro lado da fronteira. Quando é que teve uma noção clara da ligação entre o Alto Minho e a Galiza?
Tínhamos um contacto muito frequente com as populações da Galiza. O meu padrinho, o que tinha uma loja de electrodoméstivos, tinha um Vauxhall e, então, íamos de 15 em 15 dias — ou, pelo menos, uma vez por mês. Íamos umas oito pessoas naquele carro…
Hoje em dia não respeitaria as regras de segurança rodoviária (risos).
Na altura era assim que funcionava e nem havia cintos de segurança. Eram quatro adultos e quator crianças no Vauxhall e seguíamos em direção a Tui, a Vigo e a Pontevedra. Fazíamos aquelas compras habituais de rebuçados, de brinquedos e de outras coisas. Já sabíamos que tinhamos de parar em Valença para a fiscalização da Guarda Fiscal. Mas íamos com muita frequência à Galiza.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
No Natal, os brinquedos eram todos espanhóis, não?
Sim, sim. Na algura, já havia o Corte Inglês em Vigo e comprávamos novidades absolutas, um mundo de coisas novas que não havia cá. Naquela altura, havia uma grande diferença entre Portugal e Espanha — o desenvolvimento económico em Espanha era muitíssimo superior.
“O meu pai chegou a fazer parte movimentos de oposição ao Estado Novo”
Nasceu em 1954, em plena ditadura e após o salazarismo ter conseguido resistir à onda de democratização e descolonização do pós-II Guerra Mundial. Quando é que ganhou consciência que vivíamos em ditadura?
Foi na altura em que frequentei o liceu. O meu pai era uma pessoa muito liberal, era da oposição, embora a oposição não se pudesse manifestar muito em meios pequenos, como era o nosso. As conversas à mesa, muito reservadas ao espaço familiar, tinham sempre essa marca. Falava-se abertamente sobre o que era o país, o que era a política, o que era a censura. Fui crescendo, mesmo no liceu, com a consciência de que estávamos oprimidos por um regime.
O seu pai era um crítico do regime?
Chegou a fazer parte de movimentos oposicionistas anti-regime.
Apoiou a candidatura do general Norton Matos ou do general Humberto Delgado?
Não. Mais tarde, apoiou um movimento da oposiçao — não me recordo do nome — que se candidatou nas eleições organizados no tempo de Marcelo Caetano.
"Um professor de História da nossa terra, conotado com o regime salazarista, foi a Londres. No regresso, escreveu um artigo, retratando especificamente um indivíduo, com cabelo muito comprido, mal vestido, sujo e, em jeito de remate final, dizia que aquilo não era uma pessoa nem era nada. Na realidade, era um hippie. Eu e um amigo escrevemos um artigo de resposta. Ficámos surpreendidos quando fomos chamados pela direção do jornal. O nosso artigo tinha sido censurado."
Havia dois movimentos da oposição: a Comissão Democrática Eleitoral (dominada pelo PCP) e a Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (liderada por Mário Soares e que representava o campo não comunista).
Essa consciência política foi crescendo e sedimentou-se quando fui para Coimbra. Evidentemente que a partir daí as coisas foram diferentes
Houve um episódio em que o doutor teve um confronto direto com a censura. Já como jovem, com os seus 16 anos. Conte-me um bocadinho o que aconteceu.
Houve uma altura em que um professor de História da nossa terra, conotado com o regime salazarista, teve uma viagem a Londres. No regresso escreveu um artigo num jornal local de Arcos Valdevez, retratando que o que tinha visto o tinha impressionado muito negativamente. E sinalizou especificamente um indivíduo, com cabelo muito comprido, com aspeto andrajoso, mal vez vestido, todo sujo e, em jeito de remate final, dizia que aquilo não era uma pessoa nem era nada. Na realidade, era um hippie.
Hippies como muitos dos que foram assistir ao 1.º Festival de Vila de Mouros.
Esse professor com certeza não sabia ainda o que era o movimento hippie, mas já existia e Londres era o habitat natural dos hippies. Eu e um amigo meu lemos aquilo e resolvemos fazer uma resposta. Esse meu amigo chamava-se Fernando Norton de Matos, viria a seguir uma carreira jornalística brilhante e foi um dos melhores jornalistas do Comércio do Porto. Então, resolvemos escrever um artigo de resposta e enviamos. Ficámos surpreendidos quando fomos chamados pela direção do jornal.
Como correu a conversa?
O diretor era uma pessoa muito estimável ainda hoje guardo boas recordações mas provavelmente estaria envolvido no sistema de censura prévia do regime.
Os jornais estavam sujeitos a censura. Todos os jornais eram vistos pela censura antes de irem para a gráfica.
Fomos chamados para fazer alguns cortes no texto. O meu amigo Fernando Norton de Matos era mais velho que eu — devia ter 18 anos, 19 anos — recusou-se liminarmente a fazer tal coisa e eu disse que também não aceitava qualquer corte.
O que aconteceu?
O diretor do jornal resolveu falar com o meu pai — eu era menor na altura — para nos tentar convencer a cortar o texto. O meu pai respondeu que isso não era possível, porque aquilo que eu tinha escrito era o que eu pensava — e o meu pai respeitava muito o que eu pensava. Sempre houve uma solidariedade muito forte entre mim e o meu pai.
Ficou a perceber aí o que era a liberdade de pensamento e de expressão.
Foi aí que realmente comecei a sentir de uma forma mais direta aquilo que era o regime — um regime de opressão, de opinião de pensamento e que felizmente acabou.
A censura existia para restringir a circulação de informação, impedir o acesso a ìnformação e promover uma despolitização geral da popular. Essa despolitização — muitas pessoas tinham uma péssima imagem da política por via da experiência da I República. Essa despolitização era claramente mais visível numa terra pequena do que em Lisboa, por exemplo. A PIDE era claramente menos presente em meios mais pequenos.
Não havia realmente essa necessidade. A oposição que existia era sempre diminuta em meios mais pequenos.
E estava identificada?
Sim. Mas não fazia grande mal ao regime.
O seu pai nunca foi chamado à PIDE?
Não, ele chegou a ser incomodado na altura em que houve uns cartazes [da oposição] em que foram colocados no seu estabelecimento. O meu pai aceitou a colocação dos cartazes — foi até um dos mentores dessa ideia — e tentaram que ele retirasse o cartaz do estabelecimento. Recordo-me desse episódio. Mas realmente na província não se fazia sentir tanto a opressão do regime. Embora sentíssemos as dificuldades da vida de uma forma se calhar muito mais forte que nas cidades. Porque havia dificuldades imensas na sobrevivência das famílias. Mas essa questão política não se ponha tanto como se ponha nas cidades no meio académico.
“Tiver amigos que foram para a Guerra [Colonial] e perderam a vida”
Concorda que o regime tinha um apoio popular significativo até à Guerra Colonial? Acha que essa percepção histórica está correta?
Havia uma grande resistência à manutenção da Guerra Colonial. As famílias sofriam porque os seus filhos partiam para uma guerra que era uma guerra injusta, uma guerra que não se justificava de maneira nenhuma. As famílias acabavam por se conformar com o destino dos seus filhos porque era obrigatório o serviço militar e as pessoas eram recrutadas para as ex-colónias e não tinham outro remédio senão ir.
Tinha 10 anos em 1964, mas à medida que foi crescendo e ao aproximar-se da idade adulta, dos 18 anos, certamente que a ideia de ir para a guerra era algo presente para si e para os seus amigos. Como é que lidou com isso? Chegou a fazer o serviço militar obrigatório?
Foi considerado apto para o serviço militar no Porto. Depois, entretanto, tinha 19 anos, entrei na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e podia ir adiando o ingresso [no serviço militar], conforme os resultados que obtivesse. De maneira que fui adiando. Entretanto, completei o curso de direito em 1978. Se o regime tivesse continuado, em 78 é que se colocaria a questão.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Como é que lidava com essa stress permanente de poder ter que ir para a guerra? Isso provocava-lhe ansiedade?
Para lhe ser sincero, nunca sofri nem angústia nem medo. Fui aceitando com naturalidade aquilo que a vida me ia proporcionando. Entrei na faculdade, fiz o curso e, entretanto, as coisas resolveram-se e ficámos todos mais sossegados e a família também.
Teve amigos que foram para a guerra.
Tive amigos que foram para a guerra, sim. E tive amigos que perderam a vida lá. Portanto, esse foi um período bastante complicado.
Era uma coisa que estava presente para si também.
Sim, sim, sem dúvida.
Teve algum episódio em que alguém, algum amigo próximo que tivesse perdido?
Tive um episódio de um amigo muito próximo. Era jogador júnior do Sporting no Portugal e resolveu ir para os Arcos de Valdeves para jogar no clube da vila e aí ficámos muito amigos. Entretanto, foi recrutado, mobilizado para a Guiné e perdeu lá a vida. Isso marcou-me.
O 25 de Abril. “Fui fundador da secção do PS em Arcos de Valdevez”
Entrou para a Faculdade de Direito de Coimbra em 1973. Já vamos falar de 25 de abril — que é um tempo histórico fundamental para o país e para a sua geração. Como é que surgiu essa atração pelo direito?
Na altura em que concluí o ensino secundário, o meu pai perguntava-me o que é que eu queria seguir. Tinha muitas dúvidas. Sempre gostei muito de História mas o meu pai dizia-me, e com razão, que as saídas profissionais eram difíceis. Era o ensino e pouco mais. Eu gostava muito de Arqueologia, mas isso era uma coisa absolutamente inviável naquela altura.
E continua a ser.
Então acabei por ir para Direito. Passado todo este tempo, acho que foi a escolha certa.
A revolta académica de 1969 tinha tido o seu epicentro precisamente em Coimbra. A contestação ao regime sentia-se muito quando entrou na Faculdade de Direito?
Sim, notava-se que havia movimentações de oposição ao sistema político. Havia reuniões clandestinas, havia sítios, cafés, que eram pontos de reunião de elementos de oposição. Eu frequentava um desses cafés, mas não com esse objetivo político mas porque outros amigos iam lá.
"Havia muita impreparação, muita falta de cultura política. Mas hoje também há, hoje também há. Recorda-se dos três Fs do salazarismo? Fado, Fátima e futebol. Só o futebol é que continua a fazer parte dos novos três Fs. Agora é Futebol, Facebook e Festas. Ainda sobre o futebol, dizia um brasileiro, que o futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes. Em Portugal, o futebol é das coisas mais importantes das coisas mais importantes. Está tudo ao contrário."
Não se envolveu com nenhum desses movimentos?
Não me envolvi em movimentos políticos absolutamente nenhums, mas notava-se esse crescer de oposição…
Os estudantes tinham movimentos radicais, marxistas, nomeadamente, nas suas diversas interpretações, leninistas, maoístas, etc. Mas depois também existiam grupos de extrema-direita que eram fiéis ao regime. Havia uma grande divisão.
Havia, havia. E realmente havia esse burburinho, notava-se que as pessoas queriam alguma coisa diferente, alguma coisa que iria surgir. Mas longe de imaginar que iria ser… logo no ano seguinte à minha entrada na Faculdade de Direito.
Foi uma surpresa o 25 de abril?
Foi uma surpresa. Tinha feito mais uma noitada. Já não me recordo em que circunstâncias — ou a estudar ou em convívio com os amigos. Sei que acordei muito tarde. E quando me dirigi para a cantina para almoçar, a cantina estava fechada. Vi que qualquer coisa estranha se passava. Comecei a perguntar e disseram-me que tinha havido uma revolução.
Descobriu no próprio dia 25 de abril? Muitas pessoas só descobriram dia 26. A informação circulava com muito menor velocidade do que hoje.
Sim, claro. Mas descobri no dia 25. Depois veio o 1.º de Maio, que vivi na minha terra e foi uma autêntica euforia, festejado por milhares de pessoas no Campo do Trasladário, que é o salão de visitas de Arcos de Valdevez.
Esse 1.º de Maio foi comemorado em todo país por milhões de pessoas. Foi o primeiro dia em que sentiu que estávamos em liberdade?
Sim, em liberdade. No 1º de maio sentiu-se que realmente tinha acontecido alguma coisa séria, de importante ao país. Foi aí que as pessoas se aperceberam que realmente íamos mudar por uma democracia.
Embora a esmagadora maioria da população não soubesse o que era uma democracia.
Sim, havia muita impreparação, muita falta de cultura política. Mas hoje também há, hoje também há. Recorda-se dos três Fs do salazarismo? Fado, Fátima e futebol. Só o futebol é que continua a fazer parte dos novos três Fs. Agora é Futebol, Facebook e Festas. Ainda sobre o futebol, dizia um brasileiro, que o futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes. Em Portugal, o futebol é das coisas mais importantes das coisas mais importantes. Está tudo ao contrário. Há uma cobertura dos media, e uma importância dada pela classe política, que é excessiva. Gostaria muito que Portugal fosse conhecido, não por ter um futebolista de prestígio, ou por ter um clube a fazer uma boa campanha europeia, mas por ter pessoas que dinamizassem, que desenvolvessem o país, que dessem uma marca da Portugalidade para fora. Isso não está a acontecer e o fenómeno do futebol acaba por absorver todo o resto.
"Não sei se você se recorda daquele episódio em que a avioneta do Pires Veloso [líder da Região Militar Norte conotado com as forças democráticas] se despenhou — felizmente sem ferimentos. Numa Reunião Geral de Alunos da Universidade de Coimbra — e isso mostra bem o extremismo que se vivia na época — foi aprovada uma salva de palmas à queda do helicóptero Chegou-se este ponto."
Deixe-me só regressar ao período do 25 de Abril. Viveu o chamado Processo Revolucionário em Curso (PREC) como estudante na Faculdade de Direito de Coimbra. Foi um tempo muito conturbado, com muitos saneamentos políticos, alguma anarquia também. Como foi viver o PREC em Coimbra?
Foi complicado. Quando se deu o 25 de Abril, fiz parte da comissão que criou a secção do Partido Socialista (PS) em Arcos Valdevez, juntamente com o meu pai e mais algumas pessoas ligadas à esquerda.
Escolheu o PS porquê?
Escolhi o PS porque as pessoas que se davam com o meu pai, os amigos mais próximos, tinham alguma afinidade com a linha do socialismo — na altura dizia-se socialista, não se falava ainda de socialismo democrático.
Certamente que Mário Soares também foi importante para a sua decisão?
Mário Soares era uma figura muito conhecida no país no 25 de Abril.
Na entrevista que fizemos a Sérvulo Correia, é curioso que o professor recordou que tinha optado pelo PSD porque os socialistas gritavam nas ruas “Partido Socialista, Partido Marxista”.
Havia realmente esse problema. Mas mesmo assim, em Coimbra, eu era conotado com o Partido Socialista em Coimbra, e era apelidado pelos marxists na altura de fascista.
Eram como o PPD.
Como os PPD’s., para não falar no CDS. O PREC tinha realmente esse extremismo. Eram os extremistas, os comunistas e outros movimentos de extema-esquerda, que lideravam a revoução. A ideia do PREC, mesmo na academia, era: quanto pior, melhor para eles. Foi um período negro. Eu estive em muitas RGA’s.
Que eram a Reunião Geral dos Alunos.
Absolutamente incríveis. Não sei se você se recorda daquele episódio em que a avioneta do Pires Veloso se despenhou — felizmente sem ferimentos.
Pires Veloso era o presidente da Região Militar do Norte e conotado com as forças democráticas que lutavam com o PCP e as forças de extrema-esquerda.
Numa RGA em Coimbra — e isso mostra bem o extremismo que se vivia na época — foi aprovada uma salva de palmas à queda do helicóptero Chegou-se este ponto.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Teve participação política na faculdade? Envolveu-se na Associação de Estudantes?
Não. Estive na fundação do PS na minha terra e fui dirigente da Juventude Socialista, mas por pouco tempo. Como o Joaquim Vieira escreveu na excelente biografia que fez do Mário Soares — vale a pena ler essa biografia porque é um retrato de Portugal antes e depois do 25 de Abril — quem fosse estudante universitário e estivesse a dirigir uma delegação da Juventude Socialista (JS), por exemplo, era quase convidado a sair [da universidade]. Por outro lado, os estudantes universitários não tinham o sentimento operário necessário para fazer vingar as ideias do PS. Portanto, conformei-me também com esse destino e nunca mais me envolvi em absolutamente nada que tivesse que ver com política.
Não houve uma desilusão que o tivesse afastado da política?
Não, não. Foi algo natural. Aceitei isso, como aceito sempre tudo muito bem. Na vida, não sou pessoa que ande sempre a reclamar. Nunca reclamei muito da vida da minha sorte.
“Revejo-me em coisas da direita e de esquerda. Os rótulos não me preocupam”
É muito curioso que me diga que foi fundador do PS e dirigente da JS na sua terra. Como presidente do Supremo Tribunal de Justiça, ficou com uma imagem de um homem mais próximo da direita. Tendo em conta o seu passado, essa imagem com que ficou é algo com que lida bem? Costuma dizer-se que os jovens são de esquerda mas que, com o tempo, vão evoluindo para a direita. Não sei se foi o seu caso.
Acho muita piada a essa distinção entre direita e esquerda. Revejo-me em algumas questões da direita que são importantes para mim, como a questão da segurança e da autoridade do Estado. E revejo-me em ideias da esquerda em relação à solidariedade social, a serviços gratuitos na saúde, na educação. Acho até que se poderia ir mais longe na proteção aos idosos e dos mais vulneráveis. Portanto, essa distinção entre esquerda e direita, para mim, já não faz grande sentido. O que eu noto na sociedade portuguesa é uma coisa curiosa. Há os saudosistas do Estado Novo…
Do Chega…
… e depois há os saudosistas do 26 de Abril.
A extrema-esquerda.
Há pessoas que pensam que, 52 anos volvidos da Revolução de Abril, ainda estamos no dia 26 de abril de 1974. Não estamos. Arrisco-me a dizer que estes 52 anos, foram os 52 anos em que a humanidade mais se desenvolveu.
"Algumas medidas que fui propondo ao longo da minha presidência no Supremo Tribunal de Justiça, foram sempre vistas pelo bloco mais à esquerda como insensatas. Acho que não são. O que gostava muito é que a Justiça funcionasse bem, que a saúde funcionasse bem, que o sistema educativo funcionasse bem. Tem de haver uma responsabilização de todos os portugueses - mas também, e principalmente, dos políticos - sobre o futuro do país."
E é verdade.
Foi. A revolução tecnológica, da internet, foi uma revolução, e está a ser uma revolução, inimaginável.
Portugal também teve um período de grande revolução económica, social.
Claro, exatamente. A própria economia, os modelos económicos evoluíram de uma forma gigantesca. E há pessoas que continuam a pensar que ainda estamos no dia 26 de abril de 1974. Portanto, não me importo de ser conotado com a direita ou com a esquerda. Sou aquilo que sou, penso como penso e o que importa é que Portugal avance no sentido de desenvolvimento e que as pessoas e o povo português vivam melhor, cada vez melhor. Isso é que me preocupa. O resto, os rótulos, a mim não me preocupam.
Deixe-me analisar isso no prisma concretao da reforma da Justiça. Constato que a direita tem uma tendência mais reformista na área da Justiça do que a esquerda — que é mais conservadora, defendendo a manutenção do status quo. Por exemplo, o pacote de medidas de celeridade processual foi aprovado à direita — que tem 2/3 do Parlamento. A esquerda votou toda contra. É um sinal. Concorda com esta análise, que a direita é mais pró-reforma na área da Justiça do que a esquerda?
Concordo. Algumas das medidas que fui propondo ao longo da minha presidência no Supremo Tribunal de Justiça foram sempre vistas pelo bloco mais à esquerda como desajustadas, como insensatas. Acho que não são. O que gostava muito é que a Justiça funcionasse bem, que a saúde funcionasse bem, que o sistema educativo funcionasse bem. Por exemplo, que deixasse de ser o Ministério da Educação, passasse a ser Ministério do Ensino, porque a educação são as famílias que a dão, não são as escolas. Tem de haver uma responsabilização de todos os portugueses – mas também, e principalmente, dos políticos – sobre o futuro do país. Não é com rótulos, nem com ataques dizendo que é populista ou que é direita, que se resolvem os problemas, é com ação. Uma coisa que também noto na sociedade portuguesa é que se debate muito, comenta-se muito e faz-se tão pouco.
O caso do sino. “Afrontei a Igreja Católica”
Formou-se em 1978 e frequentou os Centros Estudos Judiciários (CEJ) de 1972 a 83 e entrou na magistratura judicial em 1984. Do ponto de vista histórico, fala-se muito conflito geracional entre os juízes que tinham sido formados pela ditadura e os juízes que, como a sua geração, foram formados em democracia. Não só acabaram o curso em democracia, como depois foram para o CEJ já com uma democracia implementada e com um Código Penal aprovado em 1982. Sentiu esse confronto geracional entre os juízes formados pela democracia e os juízes formados pela ditadura?
Não senti muito. Nunca tive nenhum confronto. Trabalhei com alguns dos juízes mais velhos que já estavam nas comarcas há algum tempo e sei que respeitavam muito quem saía do CEJ. Talvez porque reconhecessem que íamos com outra preparação técnica. Eram até abertos a essas novas maneiras de ver o direito e de ver a justiça. Tive, inclusivamente, um juiz formador extraordinário, que foi das pessoas mais inteligentes que conheci, um juíz à moda antiga, que faleceu de uma forma instantânea no edifício da Relação do Porto. Outra pessoa que me marcou muito foi Álvaro Laborinho Lúcio — tive a felicidade de ingressar no CEJ quando ele era o diretor e foi um dos juristas mais brilhates que conheci até hoje e de quem era amigo. Os juízes e a Justiça devem-lhe imenso. Tal como ao seu diretor adjunto na altura, o conselheiro Armando Leandro, que ainda temos o privilégio de ter connosco e que é uma pessoa extraordinária.
"Havia uma clínica médica no largo principal de Amares e ao lado havia a Igreja — que tinha daqueles sinos eletrónicos que batia de 15 em 15 minutos ou de meia em meia-hora. Todo dia, toda a noite. A clínica médica resolveu pôr fim àquilo porque os doentes não tinham sossego e instauraram um procedimento cautelar não especificado para tentar silenciar o sino da igreja. Eu era o juiz, tinha 28 anos, produziu-se prova e decretei a providência, no sentido de que o sino fosse silenciado."
A sua carreira de magistrado iniciou-se com um estágio em Famalicão e a sua primeira comarca como juiz foi Amares. Recorda-se do caso que mais o marcou nessa comarca?
Estive quatro anos em Amares. Era uma comarca de ingresso, uma comarca pequena, que me excelentes memórias. Recordo-me de uma situação curiosa. Havia uma clínica médica no largo principal de Amares e ao lado havia a Igreja — que tinha daqueles sinos eletrónicos que batia de 15 em 15 minutos ou de meia em meia-hora. Todo dia, toda a noite, a bater as horas.
Era o Big Ben de Amares. (risos)
Exato. A clínica médica resolveu pôr fim àquilo porque os doentes não tinham sossego, nem de dia nem de noite e instauraram um procedimento cautelar não especificado para tentar silenciar o sino da igreja. Eu era o juiz, tinha 28 anos e estavam criadas as condições para haver uma tempestade perfeita com esse processo.
Esta em confronto estava a Igreja católica…
…a Igreja, que representava o setor mais tradicional da comunidade. E havia também o direito ao descanso dos doentes e da pessoas que trabalhavam na clínica. Produziu-se prova e decretei a providência, no sentido de que o sino fosse silenciado.
Afrontou a Igreja Católica?
Afrontei e a população que estava habituada a ser despertada pelo sino da igreja para ir trabalhar para os campos.
Houve alguma contestação à sua decisão?
Houve muita contestação no dia [da decisão de decretar a proviência], suponho que foi na mesma noite. Por ordem do tribunal, um técnico deslocou-se à Igreja na mesma noite e desligou a parte elétrica do sino. Nessa mesma noite, alguém — que depois foi identificado — foi ao campanário da Igreja e voltou a ligar o sistema. Foram apanhados, vieram a ser julgados em processo sumário — por mim, claro que está. E levaram penas severas. A partir daí, comecei a ser olhado de outra maneira. Nunca mais houve assim grande agitação e estive sempre em Amares muito bem.
Afrontar a igreja católica não devia ter sido fácil.
A população respeitava-me e eu respeitava a população. Foi um tempo excelente que lá vivi. Tenho muitas saudades do tempo que lá passei. Muitas saudades.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Depois foi para Paredes e outras comarcas do norte do país. Teve mais casos que lhe ficaram na memória?
Sim, em Paredes estive 14 anos a fazer coletivos. Em Paços de Ferreira, Lousada e Paredes trabalheu no tribunal de círculo. no circo. Em Paredes não houve nenhum caso muito especial. Houve alguns homicídios um bocado tenebrosos que não vale a pena detalhar aqui. Havia situações bastante confrangedoras que demonstram bem o nível de miséria humana a que se pode chegar. Ainda existe hoje a miséria humana, o alcoolismo, a violência doméstica, o tráfico e o consumo de drogas. Por exemplo, Paredes viveu um terrível ciclo de pequeno tráfico e consumo de drogas no final dos anos 80…
“Deveria haver um levantamento da comunidade de jurídica e da população para exigir uma verdadeira reforma da Justiça”
Foi membro do Conselho Superior da Magistratura entre 2007 e 2010. Com que imagem que ficou nessa altura, entre 2007 e 2010, da Justiça?
Fiquei com uma imagem que ainda guardo hoje: a justiça portuguesa funciona, mas que podia funcionar muito melhor. Continua a haver grandes bloqueios no funcionamento e no trabalho dos juízes. Não sou corporativista ao ponto de dizer que também não há culpa dos juízes. Evidentemente que o juiz também tem culpa em muito do que é o estado atual da Justiça portuguesa. Não estou a falar dos juízes em geral. Estou a falar dos abalos que são provocados no sistema por comportamentos nada éticos ou censuráveis por parte de alguns juízes. Basta um juiz não fazer o seu papel, não fazer o seu trabalho, para ficar completamente descredibilizado o trabalho de todos os outros juízes e da Justiça.
O poder disciplinar do CSM tem sido usado com uma intensidade crescente nos últimos 10/15 anos.
Sim. A tendência é precisamente para intensificar ainda mais.
Com uma mão dura é que se credibiliza a justiça?
Não é uma questão de mão dura, é questão de haver exigência. Tem que se exigir aos juízes que façam aquilo para que são pagos. Os juízes têm que se empenhar absolutamente, de corpo e alma, naquilo que estão a fazer. É claro, com condições para o fazer. Por exemplo, critico muito abertamente esta moda de se fazer julgamentos à distância ou de fazer trabalho à distância de uma forma quase regular. O tribunal é um espaço físico, simbólico, com rituais próprios e o juíz tem que estar no tribunal. Não pode estar em casa, isso não é correto. É preciso sensibilizar os juízes. Esse trabalho tem que ser feito também pelo CEJ.
Em 2007 já se falava muito na importância da reforma da Justiça. A ideia de que os grandes processos não andavam para a frente, a perceção pública de uma justiça com dois pesos e duas medidas, consoante o poder financeiro do arguido — essas ideias já existiam, na altura.
Sim, sim. A ideia de uma justiça para ricos e para pobres sempre existiu. Recordo-me que na celebração dos 190 anos do Supremo Tribunal de Justiça, na minha intervenção, falei precisamente num episódio muito antigo, em que se refere que já havia essa justiça para ricos e a justiça para pobres. Sempre existiu e continua a existir.
"Há pessoas que são escrutinadas e há pessoas que são escrutinadas com perseguição. Prefiro o escrutínio, o escrutínio simples. Não tenho medo. Nunca fugi. Sou um homem de gostos simples e nunca fugi ao escrutínio. Deve ser feito. E as figuras públicas devem ser escrutinadas. Nunca senti que, por ser a quarta figura do Estado, tivesse que fazer uma vida diferente daquela que fazia. Fiz sempre o que fiz durante a vida O que tenho a dizer, digo. Não tenho receio, amarras ou interesses escondidos. Sou fiel a mim próprio. O meu pai deu-me esse ensinamento."
A situação agravou-se?
Não se agravou. Mas mantém-se uma diferença muito grande entre aqueles que podem gastar dinheiro com bons advogados para interpreter o trabalho da justiça e aqueles outros que não têm capacidade para ter esses advogados e que se sujeitam aos prazos, nos prazos regulamentares. Portanto, acho que continua a existir essa diferença. E se não foram tomadas medidas, se não foram feitas reformas, suficientes, esse estado de coisas vai manter-se.
Que tipo de reformas que devemos fazer?
Já foram dados alguns passos nesse sentido. Este Governo, no último pacote legislativo, já contempla essa preocupação da celeridade.
Contra as manobras dilatórias.
Sim, de combate às manobras dilatórias e aos expedientes dilatórios. Vamos ver se este caminho tem sequência para encontramos aqui uma solução que possa satisfazer os anseios daqueles que lutam por uma justiça eficaz. E a tempo.
Esteve no Tribunal da Relação do Porto entre 2002 e 2017, tendo sido presidente aquele tribunal superior entre 2015 e 2017, até ser graduado em juiz conselheiro. Foi presidente do Supremo Tribunal de Justiça entre 2021 e 2024. Isso foi uma grande mudança na sua vida.
Uma mudana total.
Passou a ser o líder do poder judicial e a quarta figura do Estado. Como é que lidou com essa mudança, que implicou mais notoriedade e um escrutínio público mais intenso?
Acabei por lidar bem, apesar de… Devemos fazer a distinção entre o que é o escrutínio e o que é a perseguição. São situações diferentes. Há pessoas que são escrutinadas e há pessoas que são escrutinadas com perseguição. Prefiro o escrutínio, o escrutínio simples. Não tenho medo. Nunca fugi. Sou um homem de gostos simples e nunca fugi ao escrutínio. Deve ser feito. E as figuras públicas devem ser escrutinadas. Nunca senti que, por ser a quarta figura do Estado, tivesse que fazer uma vida diferente daquela que fazia. Fiz sempre o que fiz durante a vida O que tenho a dizer, digo. Não tenho receio, amarras ou interesses escondidos. Sou fiel a mim próprio. O meu pai deu-me esse ensinamento.
Como presidente do Supremo, a sua voz passou a ser muito mais ouvida e a ter mais impacto. Trabalhou com o Governo de António Costa, nomeadamente com as ministras Francisca Van Dunem, Catarina Sarmento e Castro e um breve período com a atual ministra Rita Alarcão Júdice. Como foi o seu relacionamento com o poder politico?
Foi sempre muito afável, muito cortês. Trocámos sempre opiniões sobre os problemas da Justiça de uma forma aberta. Todas sabiam as minhas preocupaçãoes, nomeadamente em temos de movimento e preenchimento dos lugares em falta em termos de juízes e de oficiais de justiça nos quadros dos tribunais. A ministra com quem trabalhei mais tempo com Catarina Sarmento e Castro. Tive um ótimo relacionamento, acho que era uma pessoa muito bem intencionada. Se calhar, gostaria de ter ido mais longe, se tivesse conseguido. Mas enfim, fez o que se pôde, eu fiz o que pude, não foi muito, foi muito pouco. Recordo-me que uma das coisas que se conseguiu com essa ministra foi a alteração do Código do Processo Penal obrigava a sorteios diários impôs inúmeros impedimentos — que causou problemas enormes no funcionamento dos tribunais criminais.
Essa foi uma lei aprovada pelo PSD e pelo PS à pressa, na sequência de um caso muito mediático, a Operação Lex que envolve o juiz Rui Rangel. Essa lei tem subjacente uma visão muito crítica do poder político em relação ao funcionamento do poder judicial e algum preconceito em relação aos juízes. Na sua experiência em lidar com o poder político, viu um poder político que respeita a separação de poderes ou um poder polítio que tem a tendência para tentar controlar o poder judicial?
Sabe que é muito difícil prescrutar o que é que se passa na cabeça dos políticos, saber o que querem realmente. A sensação que tenho é que há a seguinte ideia: o melhor é não mexer muito para manter tudo mais ou menos como está.
Mas como está, não estamos bem.
Não estamos bem — e não estaremos bem.
Há uma falta de coragem politica?
Sim. Mas isto tem décadas. Deveria haver aqui uma espécie de levantamento da comunidade jurídica e da população no sentido de se conseguir uma reforma verdadeira do sistema de justiça. Não é preciso fazer muitas coisas, nem fazer milagres legislativos. É preciso só atender àquelas questões que estão bem diagnosticadas e intervir de uma forma rápida e que seja também eficaz. E não é preciso grandes teorizadores de direito para fazer essas alterações. É preciso só vontade.
“A Operação Marquês já marcou o descrédito da Justiça e o dano é irreparável”
Se há caso que mostra que é urgente essa reforma da Justiça, é a Operação Marquês. Trata-se de um inquérito que começou em 2013 e que terminou com uma acusação em outubro de 2017. Teve uma instrução criminal que começou em 2018 com o sorteio do juiz Ivo Rosa e terminou em abril de 2021 — decisão instrutória essa que foi praticamente toda revogada, com exceção de poucos crimes, pela Relação de Lisboa, com duas decisões em janeiro e março de 2024. O julgamento só começou em julho de 2025 e não tem fim à vista. A Operação Marquês pode marcar definitivamente o descrédito da justiça penal portuguesa?
Já marcou, já marcou. E o dano na imagem da justiça é irreparável. Ninguém compreende que sejam precisos tantos anos para decidir um caso como a Operação Marquês. É claro que há muitos fatores, como acabou de dizer, que envolvem aqueles atrasos na fase do inquérito, na fase da instrução, na fase do julgamento. Há muitos incidentes processuais, há muitas circunstâncias que…
Basta só recordar o carrossel das renúncias dos advogados agora no julgamento, além de muitos outros Há todos os outros episódios.
Sim, mas já antes disso havia problemas, se calhar mais graves do que esses.
"Há responsabilidades repartidas [pelo atraso na Operação Marquês]... O Ministério Público demorou imenso tempo no inquérito, a instrução não correu bem, não correu nada bem, o julgamento dos incidentes de recusa [de juiz] sistemáticos que foram colocados [pelos arguidos] também contribuiu para esses atrasos. Portanto, a conclusão a que chego é que [a Operação Marquês] é o pior dos casos que a Justiça portuguesa enfrentou até hoje."
Esses problemas estão todos registados no Observador, em inúmeros de trabalhos que eu e os meus colegas assinamos sobre processo.
Penso que esse dano que não é recuperável no médio e longo prazo.
Não há uma responsabilidade especial de alguém nesse dano que diz ser “irreparável”?
Não quero entrar por aí. Não vou falar de nomes ou de colegas. Há responsabilidades repartidas… O Ministério Público demorou imenso tempo no inquérito, a instrução não correu bem, não correu nada bem, o julgamento dos incidentes de recusa [de juiz] sistemáticos que foram colocados [pelos arguidos] também contribuiu para esses atrasos. Portanto, a conclusão a que chego é que [a Operação Marquês] é o pior dos casos que a Justiça portuguesa enfrentou até hoje em termos da imagem para a opinião pública.
Há pouco estava a falar de medidas necessários para combater este tipo de problemas…
Isso tem a ver com a questão dos megaprocessos, não é? Porque se o processo tivesse sido repartido logo à nascença, se tivesse sido possível fragmentar o processo, com certeza que o problema não teria esta dimensão que tem hoje.
Haveria outros problemas, certamente.
Com certeza que haveria.
Há pouco falava das medidas de celeridade procesual que foram aprovadas no Parlamento por dois terços dos deputados. Além das multas máximas de 10 mil euros para os arguidos que insistam em manobras dilatórias, há medidas de celeridade processual que reforçam o poder dos juízes. O Presidente António José Seguro promulgou as mesmas, fazendo questão de dizer que era um passo no caminho certo. Concorda com essas medidas?
Concordo, em absoluto. Sempre defendi isso, sempre defendi que o juiz deveria ter mais capacidade e poder para tentar dificultar as manobras dilatórias dos arguidos e dos defensores. É o caminho certo para acabar com o atraso na resolução dos processos.
Não há razão para o legislador desconfiar dos juízes? O legislador da democracia desconfi muito dos juízes e dos procuradores. É por isso que temos um processo penal muito burocrático.
Sim, ao contrário do que se passa no sistema anglo-saxónico, em que o juiz não tem esse problema. Há uma grande confiança nos juízes no nosso sistema continental, especialmente aqui nos países do sul da Europa. Conheço bem o meio judiciário e essa é uma desconfiança que não é justificada. Pode haver um ou dois que não são exemplos, mas garanto que a esmagadora maioria dos juízes são pessoas íntegras e imparciais no seu trabalho diário nos tribunais.
"Em relação ao Direito Premial, tenho muitas dúvidas.... Não acho que seja correto premiar a delação ou a colaboração. Há mecanismos na lei, como a atenuação extraordinária das penas no caso de confissão integral e sem reservas, que já permite fazer um desconto nas penas. Temos que ter uma justiça célebre, mas assente em garantias de defesa dos cidadãos e dos arguidos. Não pode ser a celeridade a todo custo."
Depois das medidas cirúrgicas medidas de celeridade processual, esperamos por uma reforma penal abrangente que o Governo irá apresentar em breve e que continuará a ter a celeridade como principal vetor. Esperam-se alterações estruturais no sistema de recursos e no direito premial, por exemplo. Concorda com estas prioridades?
Em relação aos recursos, sim, concordo. O nosso sistema de recursos deve ser revisto urgentemente — já o devia ter sido há muito tempo.
O que deve mudar?
O efeito suspensivo deve ser reservado para casos muito excepcionais. Por regra, o recurso deve ter efeito devolutivo para permitir o trânsito em julgado. Porque senão o processo arrasta-se em instâncias de recurso e depois ainda vai parar ao Constitucional, onde o efeito também é suspensivo.
Deve-se avalaliar igualmente o acesso ao Tribunal C0nstitucional?
Sim, deve ser avaliado também. Aliás, fartei-me de referir esse aspecto. O recurso para o Constitucional não poder ter o efeito suspensivo em matéria penal — esse é o caminho correto. Em relação ao Direito Premial, que me perguntou há pouco, tenho muitas dúvidas…. Não acho que seja correto premiar a delação ou a colaboração. Há mecanismos na lei, como a atenuação extraordinária das penas no caso de confissao integral e sem reservas, que já permite fazer um desconto nas penas.
O problema é que é muito pouco aplicada.
Olhe que não. A atenuação extraordinária da pena é bastante aplicada pelos tribunais.
Estou a referir-me aos processos do crime economico e financeiro. É verdade que é aplicada nos casos de criminalidade comum mas no crime económico não.
Sim, sim…. aí há um grande problema. Pois, é natural que seja pouco aplicado nesse campo.
Há uma aposta em toda a Europa no direito premial — estou a falar do sistema continental, e não no sistema anglo-saxónico —, no sentido de quebrar os pactos de silêncio que estão na origem da corrupção e de tornar a Justiça mais célere.
A celeridade não pode ser o fim da justiça. Nós temos que ter uma justiça célebre, mas assente em garantias de defesa dos cidadãos e dos arguidos. Não pode ser a celeridade a todo custo, esse caminho não me parece correto. É preferível trilhar outros caminhos.
Admito que as diferentes gerações que viveram a ditadura, como a sua, dêm uma importância significativa à ideia da delação porque isso remete para memória histórica dos delatores que ajudavam a PIDE, a polícia política do Estado Novo. Isso dece ser respeitado. Sendo eu de outra geração, que sempre viveu em democracia, pergunto-lhe: se a corrupção corresponde a um pacto de silêncio entre o corruptor e o corrompido, não acha que os mecanismo do direito premial podiar ajudar a carrear para os autos prova material e documental que permitisse uma desoberta mais rápida da verdade material? Não é simplesmente delatar alguém, tem que carrear documentos que sejam verificáveis e cruzados com outros elementos.
Aceito que ajude, mas eu não estou de acordo.
Não está a entrar em contradição?
Não. Aceito que ajude mas vai contra os meus princípios. Não é por aí que se deve caminhar. Isto não tem tanto a ver com a delação no tempo do fascismo, não. Isto tem a ver com a própria essência do ser humano, tem mais a ver com os sentimentos da pessoa do que propriamente com aspectos ligados à serenidade da justiça. Ao ir por aí, o legislador está a dar um sinal errado às pessoas e à comunidade.
A própria União Europeia fomenta a criação de sistemas de denúncia. Por exemplos, temos em Portugal um Regime Geral de Combate à Corrupção em que o Estado obriga à criação de canais de denúncia no setor público e no setor privado para que as pessoas denunciem irregularidades ou crimes.
São situação diferentes. Não têm propriamente a ver com um processo penal concreto e determinado. O próprio Conselho Superior da Magistratura tem esses canais de denúncia.
A música, o livro e o filme da sua vida
Qual é a música da sua vida?
A música da minha vida… Tenho várias músicas…
Não pode dizer mais do que uma ou duas.
Vou dizer só uma: “Stairway to Heaven” dos Led Zeppelin.
Porquê?
Porque é uma música muitíssimo bem construída com a voz fantástica de Robert Plant e com o solo brutal de Jimmy Page. É a música da minha vida.
Qual é o livro da sua vida?
“Um Apartamento em Atenas” de Glenway Wescott, um escritor americano já falecido. É um livro pequeno que me marcou bastante. É uma história sobre a ocupação nazi em Atenas. Um oficial nazi resolveu confiscar e instalar-se num apartamento de um casal grego durante a ocupação. É um livro que retrata a angústia familiar, as relações familiares dessa família que foi invadida no seu quotidiano íntimo da sua casa e vê as suas rotinas, o seu dia-a-dia completamente virado do avesso. É um livro intenso mas é uma história muito interessante. É um excelente romance com uma carga trágica bastante grande.
E o filme da sua vida?
Eu gosto de tudo o que faz o Jack Nicholson como ator.
De tudo? Ele fez coisas muito diferentes.
Sim, fez o “Voando Sobre um Ninho de Cucos”, o “Joker” e muitos outros. Mas o filme do que mais gostei foi “Confissões de Mr. Smith.” É um filme de 2002, suponho. É um filme que é interessante porque retrata aquele lado descartável da nossa cultura, da pessoa que acaba o seu trabalho e deixa de existir. O protagonista era era um agente de seguros, trabalhava numa companhia de seguros e acaba por reformar-se. A determinada altura, todo o círculo de amigos e de relações sociais desaparece da sua vida. É um filme sobre a solidão, sobre o apoio familiar, sobre a necessidade de preencher um vazio. E é engraçado que vi este filme e ainda não jubilado. Felizmente, sempre tive muitos hobbies com que me ocupar. Nunca vivi só para o direito. Tenho sempre muita coisa para fazer para além do direito. Nunca tive tempo para as outras coisas. Tenho agora, felizmente.
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