Afinal, Jesus é um homem, é Deus ou é as duas coisas?

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Muito bem-vindos a mais um episódio especial de "As Histórias da Bíblia". Nesta terceira temporada, todas as semanas, às quintas-feiras, vamos continuar a responder a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia. Temos recebido muitas perguntas, comentários e sugestões no nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt. Também temos recebido muitos comentários no YouTube e nas plataformas de podcast. Nós estamos aqui todos os domingos, às 09:00, na Rádio Observador e sempre em podcast, e também às quintas-feiras, num episódio mais curto. Este é exclusivo em podcast para responder às dúvidas dos ouvintes. Portanto, já sabem, todos os que quiserem colocar perguntas aos padres João Basto e Daniel Nascimento sobre a Bíblia, podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt. No episódio do último domingo, estivemos a falar sobre a história do dilúvio, sobre como Noé salvou o mundo da fúria de Deus. Se não ouviu na Rádio Observador, pode encontrar o episódio em podcast em todas as plataformas. Esta semana vamos tentar responder uma pergunta que nos foi enviada pelo nosso ouvinte João Fernandes. Ele deixou este comentário num dos nossos episódios passados no YouTube. Ele diz: "Tenho estado a acompanhar a série 'The Chosen' e para alguém que não conhecia profundamente a Bíblia, tem me ajudado a olhar para Jesus como uma pessoa real, com emoções, humor, amizade, cansaço e sofrimento. Mas isso também me fez surgir uma dúvida sobre a natureza de Jesus. A fé cristã afirma que Jesus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. No entanto, ao longo dos Evangelhos e também na representação da série, há momentos em que ele parece profundamente humano. Sente dor, chora, emociona-se, irrita-se com algumas situações, parece angustiado no Getsêmani, quando até diz: 'Pai, se possível, afasta de mim este cálice'. Noutros momentos, manifesta claramente a sua divindade através de milagres, perdão dos pecados ou da ressurreição. A minha dificuldade", diz este nosso ouvinte, "é perceber como é que estas duas dimensões coexistem. Se Jesus é Deus, como pode sentir dúvida, medo ou angústia? Se conhece plenamente a vontade do Pai e partilha a mesma natureza divina, por que vive certos momentos como se houvesse uma verdadeira luta interior? Será que ele sabia sempre tudo ou escolheu viver os limites próprios da condição humana? Existe algum episódio da Bíblia", pergunta ainda o ouvinte, "ou alguma explicação na tradição da Igreja que ajude a compreender melhor esta união entre humanidade e divindade de Jesus, sem reduzir uma em favor da outra?" Portanto, temos aqui uma questão fundamental. O nosso ouvinte também deixa uma segunda pergunta, não sei até que ponto é que vocês estão habilitados a responder-lhe, que é se a série "The Chosen" é ou não é fiel aos Evangelhos, se representa bem a história dos Evangelhos. Não sei se já viram.
Já vi. Já falámos em off sobre isto e acho que chegamos a concordar que o "The Chosen" faz um ótimo trabalho no sentido em que não copia aqueles trabalhos tipo do Zeffirelli ou do Pasolini. Atenção, gosto muito, acima de tudo, do Pasolini, o Evangelho de São Mateus, que não é aquela coisa literal do texto, mas também não é uma corrupção do texto original. Ou seja, quem conhece o texto, olha para aquilo e percebe o texto montado na sua realidade, porque são dois formatos diferentes. É como agora a questão da Odisseia. Nós não podemos esperar que a linguagem cinematográfica seja igual à linguagem escrita, que até reproduz a linguagem oral. Não sei se o Daniel tem uma opinião. É uma pergunta muito mais fácil de responder.
Por certo tu a despachar já é.
Sim, acho que é uma série que está bem feita e tem consultores, ao que julgo saber, de várias confissões cristãs. Acho que há uma seriedade nesse trabalho que tem um bom resultado.
Muito bem, vamos então à pergunta fundamental deste comentário.
É a pergunta fundamental do cristianismo, da essência do cristianismo, que foi alvo dos grandes debates teológicos que geraram os grandes concílios, as grandes reuniões teológicas e da Igreja dos primeiros séculos, onde nós podemos inserir Niceia, os concílios de Niceia, de Constantinopla, de Calcedônia, com C de cão e não com Z, não é calcedônia da roupa interior. É a grande questão que gerou os grandes combates teológicos da época e que também, se estamos aqui a falar de um episódio bíblico, e até pela pergunta do ouvinte, isso vai ter um episódio que é aquela ideia do Getsêmani. Máximo Confessor, que foi um grande teólogo do século IV, tem um livro que se chama "Meditações da Agonia de Jesus", onde ele próprio faz esta pergunta: como é que Jesus Cristo, sendo Deus, tem agonia no horto? Como é que, sendo homem, se submete àquilo? Como é que tudo isto se mistura? Alguns dados. Para os cristãos, Jesus Cristo não é nem um semideus, nem um super-homem, nem é Deus numas alturas e homem noutras. Por exemplo, é Deus quando está a fazer milagres, é homem quando está a comer É Deus quando ressuscita, é homem quando está na cruz. Isso não existe no universo cristão. Jesus Cristo é, se puder falar da forma mais sintética possível, Deus e homem sem confusão nem separação. Se quisermos ser mais picuinhas na linguagem, mais concisos e rigorosos na linguagem teológica, Jesus Cristo é uma pessoa divina que existiu desde sempre e para sempre com duas naturezas: a natureza humana e a natureza divina. Isto por quê? Porque o cristianismo, depois de na Bíblia sistematizar um bocadinho isto e ter referências a isto, com influência da filosofia grega, o contato com a cultura do primeiro cristianismo, em volta do Mediterrâneo, até um bocadinho no norte da África, um bocadinho interior, vai reformular e repensar o cristianismo. Por isso estas categorias de pessoa, natureza, até de máscara, que eram próprias do pensamento grego e da filosofia grega e romana. Mas também é preciso precisar aqui um bocadinho uma coisa, que é: quando nós dizemos que Jesus Cristo é homem, não é no sentido de homem como nós os três estamos aqui, uma pessoa do sexo masculino. Mas a linguagem teológica não é só isso que quer dizer. Jesus Cristo é homem na medida em que é plenitude do ser humano. E isto é visível logo na escritura. Ou seja, estas duas dimensões entre as naturezas não aparecem separadas, manifestam-se e revelam-se uma à outra. Ou seja, a natureza divina de Jesus revela a natureza humana e a natureza humana revela a natureza divina. Isto é presente logo nos Evangelhos. Nós começamos a perceber que Jesus, quando revela quem é o Pai, revela simultaneamente quem é que são as pessoas que estão à sua frente, os seres humanos. Isso vai também ser alvo de reflexões na parte de São Paulo, por exemplo, com os hinos cristológicos, onde começa a dizer que Jesus Cristo é o Senhor, é o Messias. Repara que isso é até uma diferença face a outras religiões e até religiões abraâmicas. É porque os cristãos logo, desde o início, começam a se referir a Jesus não como um mero Rabi, uma espécie de mestre, de profeta, mas como relacionado com o Messias, o Senhor. E aqui o Senhor refere-se claramente a uma relação com um Deus muito específica. Não é claramente o senhor proprietário da casa ao lado. Agora, o que nós podemos dizer? Parece-me que é uma síntese, sendo que isto é também uma dimensão de fé, ou seja, os cristãos não têm historicamente uma maneira de provar, como nós provamos que a Batalha de Waterloo se desenrolou naquele determinado dia, naquela hora, naquele território belga, com aqueles vários exércitos, com Napoleão, Arthur Wesley, etc. É também uma dimensão de fé, mas como é que este processo se desenrola? Portanto, na Nicéia, estes primeiros concílios inventam a divindade de Jesus. Mas também nos Evangelhos, na Bíblia e nas cartas de Paulo, a definição da ideia de Jesus ser uma pessoa da Santíssima Trindade, com duas naturezas diferentes e uma só pessoa, também não está desenvolvida desta maneira. Mas não significa que isto tenha sido claramente inventado, como às vezes dizem: "Foi Nicéia que inventou a ideia da divindade de Jesus, porque Constantino e o Império Romano precisavam". Também são coisas um bocadinho exageradas.
Mas o nosso ouvinte continuará, se calhar, a fazer esta pergunta tão simples, que é: se Jesus é Deus, então por que sente dúvidas, medos, angústias?
Teodoro de Mopsuéstia e o máximo confessor respondem a isso, que é: nós tendemos a ver que a encarnação ocorreu. Portanto, a ideia de que Deus, Jesus Cristo, preexistente, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, vem cá embaixo e encarna, torna-se um de nós, não é só próximo. A ideia que os cristãos têm é que Jesus Cristo não se fez próximo, necessariamente, como eu estou próximo de ti, Dani. Não, Jesus Cristo fez-se um de nós. E estes autores dizem o seguinte: nós temos a ideia de que isto aconteceu de uma vez por todas no Natal. Jesus Cristo nasceu e pronto. Estes autores dizem que à medida que Jesus cresce, o movimento encarnatório também vai crescendo de tal maneira que Jesus também se autocompreende neste movimento encarnatório, ao ponto de que, no Jardim das Oliveiras, estas duas naturezas se manifestam. E Jesus Cristo percebe que dizer sim ao Pai, dizer sim à vontade do Pai, é simultaneamente dizer sim àquilo que é ser plenamente humano.
E se não fosse 100% humano, se não sofresse, não sentisse angústias, se não sentisse medo, não podia ser 100% humano.
Sim, aqui a questão é que Jesus Cristo também se vai autodescobrindo. Isto é um tema difícil da cristologia, que é a questão da consciência de Jesus. Se Jesus, quando tinha 14 anos, já sabia o que ia acontecer. O máximo confessor, Teodoro de Mopsuéstia-
Mas com 33 já sabia.
A datação é um bocado menos precisa nesse sentido, mas o que o Teodoro de Mopsuéstia e o máximo confessor dizem é que claramente Jesus Cristo, esta encarnação, desenrola-se num processo E, portanto, é absolutamente normal a pergunta que o ouvinte faz, mas também é absolutamente normal que o próprio Deus sinta angústia nesse sentido. Muito embora a nossa ideia de perfeição, um bocado racionalista, é de que a perfeição é não ser perturbado, não sentir a angústia.
Daniel, tens alguma coisa a dizer a este nosso ouvinte?
A pergunta com muitas nuances e com muitas complexidades.
Eu acho que essa definição do Concílio de Calcedônia, no século V, de que Jesus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, implica que também redefinamos ou olhemos de uma outra forma para aquilo que achamos que é Deus. Jesus é Deus e é homem, não é 50% de uma e 50% de outra. É uma matemática diferente, única, que é 100% Deus e 100% homem. O que isso significa é muito difícil de perceber. Os próprios Evangelhos não nos apresentam definições do que é Jesus. Narram-nos Jesus, e de uma perspectiva diferente. Os Evangelhos sinóticos de uma forma diferente de São João. São João, por exemplo, até começa com esta chamada cristologia alta. Jesus é Deus, é Deus encarnado. Portanto, isso sublinha essa divindade de Jesus. Nos Evangelhos sinóticos, já não é assim tanto, mas também se percebe que não é apenas um homem qualquer. Os próprios cristãos demoraram séculos a encontrar formas e definições disto. Esta tal de Calcedônia, então, é do ano 451, portanto, demorou a chegar aqui. As próprias heresias, ou seja, estes desvios, estas lutas destes primeiros séculos, são uma tendência de fugir ao equilíbrio, ir mais para um lado ou ir mais para o outro. O arianismo, no século IV, o pensamento de Ário, era, no fundo, dizer que não era bem Deus ou era uma espécie de Deus menor face ao Pai. Por outro lado, o monofisismo, uma heresia posterior, era dizer que não, era mais Deus, era esta natureza única de Deus. E, portanto, os cristãos, a partir dos mesmos textos, a partir da mesma experiência narrada, tiveram dificuldade em encontrar uma solução equilibrada. E, portanto, o que prevaleceu foi o tentar juntar estas duas coisas que parecem obviamente impossíveis e inconciliáveis. Como é que é possível ser Deus e ser homem? Como é possível ser todo-poderoso, que isso queira dizer, e sofrer e chorar? Mas ainda assim, há esse equilíbrio único que encontramos na pessoa de Jesus e que na nossa leitura dos textos, que ao vermos essas séries como "The Chosen", vamos vendo que essas duas realidades estão aí presentes nesta figura única que é Jesus.
Sim, e é talvez a grande novidade do cristianismo, que é o fato de Deus e homem não serem irreconciliáveis e não serem opostos um ao outro.
E é curioso este aspecto que o Daniel estava a mencionar, que é: na raiz disto tudo está uma história, está uma narrativa, estão as narrativas dos Evangelhos, que realmente não procuram explicar, mas procuram apenas contar a história e depois seguem-se 2000 anos de tentativas de interpretação.
O padre Zé Frazão diz numa frase muito curiosa que Jesus é Deus e é Filho de Deus, porque é aquele que totalmente se reconhece reconhecido pelo Pai. E acho que isso é muito interessante.
Muito bem, fica por aqui este episódio especial em que procuramos responder à dúvida enviada pelo nosso ouvinte João Fernandes. Esperamos sinceramente que ele tenha ficado um pouco mais curioso para ir ler.
Ou pelo menos tenha mais dúvidas.
Exato. E que pode mandá-las também, já sabe. Se quiser enviar uma pergunta pro podcast "As Histórias da Bíblia", escreva-nos para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt ou então deixe um comentário na plataforma onde nos estiver a ouvir. Nós voltamos no domingo com mais um episódio da nossa terceira temporada. Vamos falar sobre José, o filho de Jacob, que foi vendido pelos irmãos e que foi a razão pela qual o povo hebreu acabou no Egito. Na próxima quinta-feira, voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.
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