Como a dona da Carbonell virou líder global do azeite sem plantar uma oliveira
RESUMO +
A espanhola Deoleo, maior engarrafadora de azeite do mundo, assinou em novembro de 2026 a venda do negócio operacional para a cooperativa Dcoop e o grupo de azeites Acesur, em uma operação de 520 milhões de euros. Sem olivais nem lagares próprios, a companhia comprou 76,8 milhões de litros de terceiros no primeiro semestre. A conclusão depende de aprovações regulatórias e de uma condição ligada às licenças da Bertolli.
Carbonell, Bertolli, Carapelli, Koipe e Hojiblanca estão nas prateleiras de mais de 40 países. A empresa por trás de todas elas, porém, não tem um único olival.
A espanhola Deoleo, considerada a maior engarrafadora de azeite do mundo, compra de terceiros todo o óleo que vende. Só no primeiro semestre de 2026, foram 76,8 milhões de litros.
A dependência está descrita no relatório semestral da própria companhia. O documento admite que o grupo não possui olivais nem lagares e que secas nos campos dos fornecedores são um risco direto para o negócio.
Como a empresa não controla a matéria-prima, o resultado depende da diferença entre o preço pago pelo azeite e o preço cobrado pela garrafa. A matéria-prima representa mais de 80% dos custos operacionais, segundo análise do Instituto Español de Analistas Financieros (IEAF).
Por isso, a métrica mais acompanhada pela gestão é o lucro bruto por litro. No primeiro semestre de 2026, ele chegou a 0,98 euro, ante 0,79 euro um ano antes.
A estratégia para reduzir o risco é travar compras com antecedência. Em junho de 2026, a empresa tinha 60,2 milhões de euros em contratos de compra de estoque, o dobro do registrado em dezembro de 2025.
Os últimos anos mostraram o tamanho desse risco. A seca na Espanha levou o azeite extra virgem na Andaluzia a 8,20 euros por quilo em agosto de 2023, mais que o dobro de um ano antes.
Em 2024, a Deoleo registrou prejuízo de 54,5 milhões de euros, pressionado por uma provisão judicial. Com a safra normalizada, voltou ao lucro em 2025: 20 milhões de euros, com receita de 821 milhões de euros.
Uma marca de 1866
A marca mais antiga do grupo nasceu em Córdoba. Antonio Carbonell Llácer fundou a casa Carbonell em 1866, e o filho, Carlos Carbonell y Morand, ampliou o negócio com fábricas em Córdoba, Sevilha e Granada.
A empresa que hoje controla a marca tem outra origem. Ela foi fundada em 1955, em Bilbao, como Arana Maderas, e passou por fusões e mudanças de nome até virar Deoleo, em 2011.
No caminho, a família Salazar usou a holding para comprar a tradicional arrozeira valenciana SOS. Na virada para os anos 2000, o grupo se uniu à fabricante de biscoitos Cuétara e formou a SOS Cuétara.
O azeite entrou de vez em 2001, com a compra de 75,9% da Koipe, então controlada pelo grupo italiano Montedison, por cerca de 415 milhões de euros. A Koipe era dona das marcas Koipe, Carbonell e Elosua.
A fusão com a Koipe criou o terceiro maior grupo de alimentos da Espanha.
O salto internacional veio em 2008. A Unilever vendeu ao Grupo SOS o negócio de azeite e vinagre da Bertolli por 630 milhões de euros.
O pacote incluiu as marcas italianas Maya, Dante e San Giorgio e a fábrica de Inveruno, na Itália. A operação foi estruturada como uma licença mundial e perpétua da marca Bertolli para azeite, vinagre e azeitonas.
Para ajudar a pagar a conta, o grupo vendeu a divisão de biscoitos Cuétara à Nutrexpa por 215 milhões de euros. A partir dali, o azeite passou a ser o centro do negócio.
Em 2012, a empresa fechou a compra da marca Hojiblanca, da cooperativa de mesmo nome, que no ano seguinte passaria a se chamar Dcoop. Em troca, a cooperativa recebeu ações novas e chegou a 10,3% do capital da Deoleo.
O crescimento rápido veio acompanhado de crise. Uma auditoria forense da KPMG apontou que 229 milhões de euros tinham sido emprestados, entre o fim de 2007 e o início de 2009, a empresas ligadas aos irmãos Jesús e Jaime Salazar, sem conhecimento do conselho.
Em junho de 2009, o grupo apresentou queixas-crime contra os dois por apropriação indébita e administração fraudulenta, e o conselho aprovou a destituição de ambos. O caso só terminou em 2020, quando a Deoleo aceitou receber entre 8 milhões e 12 milhões de euros, de cerca de 200 milhões que reclamava, diante da insolvência dos irmãos.
A dívida elevada acompanhou a companhia por mais de uma década. Em 2014, o fundo britânico CVC assumiu o controle ao comprar 29,99% do capital, com as fatias do Bankia, do Banco Mare Nostrum e parte da participação da Dcoop.
A virada mais dura veio em 2020. Com 575 milhões de euros em dívida sindicada, a Deoleo fechou um acordo com os credores, que converteram até 283 milhões de euros em 49% do negócio operacional.
Os acionistas aportaram outros 50 milhões de euros em um aumento de capital. As ações antigas deixaram a bolsa cotadas a 0,025 euro, e a dívida do grupo caiu para 150 milhões de euros no fim de 2020.
O ciclo do CVC chega ao fim. Em novembro de 2026, a Deoleo assinou a venda do negócio operacional para a cooperativa Dcoop e o grupo Acesur, em uma operação que avalia a empresa em 520 milhões de euros.
Os compradores venceram uma disputa com a espanhola Migasa e a italiana Coricelli. A Dcoop reúne mais de 75 mil famílias de agricultores e pecuaristas, e a Acesur é dona de marcas como La Española e Coosur.
A Acesur, na prática, já estava dentro da empresa. Juan Ramón Guillén Prieto, um dos acionistas relevantes da Deoleo, detinha 5,07% do capital por meio da própria Aceites del Sur.
Pelo acordo, cada compradora terá 50% do negócio. A Dcoop deve ficar com marcas como Carbonell, Koipe e Hojiblanca, segundo o jornal El Economista.
A conclusão depende de aprovações na Espanha, nos Estados Unidos e na Itália, além de uma condição ligada aos contratos de licença da Bertolli. A previsão é de seis a oito meses.
Se aprovada, a operação fecha um ciclo: a cooperativa que vendeu sua fatia ao CVC em 2014 volta à empresa, agora como dona.
Onde a Deoleo ganha dinheiro
A Espanha ainda é o maior mercado em receita, mas não o mais rentável. No primeiro semestre de 2026, o país gerou 102,8 milhões de euros em vendas, contra 97,7 milhões de euros da América do Norte.
No lucro, a ordem se inverte. A América do Norte respondeu por 9,5 milhões de euros dos 19,4 milhões de euros lucrados no período, com ajuda da devolução de tarifas impostas pelo governo de Donald Trump e derrubadas pela Suprema Corte americana.
Nos mercados tradicionais, a empresa perde espaço. No semestre, sua participação caiu 0,8 ponto percentual na Espanha e 0,9 ponto na Itália, segundo dados da Nielsen e da Circana citados pela companhia.
No norte da Europa, o movimento é o inverso: a participação subiu 2,4 pontos na Alemanha e 1,7 ponto na França. Na Índia, a Deoleo abriu 10 mil novos pontos de venda no primeiro semestre de 2026.
'Perguntas frequentes'
Por que a Deoleo não possui olivais próprios? +
A Deoleo adota um modelo no qual compra de terceiros todo o azeite que engarrafa e vende. Segundo o relatório semestral da companhia, o grupo não possui olivais nem lagares e adquiriu 76,8 milhões de litros no primeiro semestre de 2026.
Como a Deoleo ganha dinheiro com a venda de azeite? +
A Deoleo lucra com a diferença entre o preço pago pela matéria-prima e o valor cobrado pela garrafa. Segundo o Instituto Español de Analistas Financieros, o azeite comprado de fornecedores representa mais de 80% dos custos operacionais.
Como a Deoleo reduz o risco de alta do preço do azeite? +
A Deoleo trava compras de estoque com antecedência para reduzir a exposição às oscilações do azeite. Em junho de 2026, a companhia tinha 60,2 milhões de euros em contratos de compra, o dobro do valor registrado em dezembro de 2025.
Quem está comprando a Deoleo? +
A cooperativa Dcoop e o grupo Acesur assinaram a compra do negócio operacional da Deoleo por uma avaliação de 520 milhões de euros. Cada compradora terá 50% da operação, cuja conclusão depende de aprovações na Espanha, nos Estados Unidos e na Itália.
Quais marcas devem ficar com a Dcoop após a venda da Deoleo? +
A Dcoop deve ficar com marcas como Carbonell, Koipe e Hojiblanca, segundo o jornal El Economista. A conclusão da divisão dos ativos depende do fechamento da operação, previsto para ocorrer entre seis e oito meses após a assinatura.
Qual é o mercado mais lucrativo para a Deoleo? +
A América do Norte foi o mercado mais lucrativo da Deoleo no primeiro semestre de 2026, com 9,5 milhões de euros dos 19,4 milhões de euros obtidos no período. A Espanha liderou em receita, com 102,8 milhões de euros em vendas, ante 97,7 milhões de euros da América do Norte.
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