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Saturday, October 10, 2026

IA impulsiona economia de golpes maior que o tráfico de drogas, diz revista

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Em um apartamento no 18º andar de um prédio moderno em Nairóbi, a polícia queniana apreendeu computadores Samsung, celulares Huawei e aparelhos Redmi, além de dezenas de passaportes chineses e malaios. Alguns suspeitos fugiram, mas quase 20 cidadãos chineses foram detidos na operação, realizada no início de julho.

Segundo investigadores ouvidos pela Bloomberg sob anonimato, o grupo operava um esquema de investimentos fraudulentos voltado a contas na China, em Hong Kong e na Malásia e lavava milhões de xelins quenianos por bancos locais. Os suspeitos teriam chegado ao Quênia vindos da China, do Camboja e de Madagascar.

O caso mostra uma mudança no cibercrime. Governos do Sudeste Asiático estão sob pressão da China e dos EUA para desmontar as redes que causam prejuízos de centenas de bilhões de dólares por ano, com criptomoedas, tráfico humano e inteligência artificial. Mas as fraudes se espalham para fora dos complexos fortificados da região, ficam mais baratas e fáceis de operar e mais difíceis de desmantelar.

Golpe de prateleira

Dados roubados, contas falsas, sites fraudulentos, software de IA e serviços de lavagem de dinheiro são comprados online. Isso permite que grupos menores se reestruturem depois de operações policiais e mudem de lugar quando as autoridades se aproximam.

A Aliança Global Antifraude estima que as vítimas perderam US$ 442 bilhões em 42 países no ano passado, valor superior a algumas estimativas para o comércio global de cocaína.

Nos EUA, as perdas com crimes cibernéticos relatadas saltaram de US$ 17,8 milhões em 2001 para quase US$ 21 bilhões no ano passado, e as agências preveem que continuarão a crescer exponencialmente se os países não coordenarem a aplicação da lei.

"Tudo ficou tão barato e tão fácil", diz Sean Letz, líder de cibersegurança da Marsh Risk na Ásia. Segundo ele, muitas empresas percebem que combater cada tática de golpe é impossível. Letz estima que o mercado de seguros cibernéticos cresceu 150% em cinco anos, e algumas empresas destinam de 1% a 2% do faturamento anual a TI e cibersegurança.

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Parte dessa oferta funciona em mercados clandestinos em redes sociais amplamente usadas. Pesquisadores encontraram ferramentas de exploração por assinatura a US$ 500 por mês, serviços de envio em massa que atingem 10.000 e-mails por US$ 1 e serviços básicos de phishing por menos de US$ 100. Criminosos criam sites falsos rapidamente com contas gratuitas em redes de desenvolvedores legítimas.

O caso Xinbi

Um dos maiores exemplos foi a Xinbi Guarantee, plataforma em chinês cujo operador havia registrado uma empresa no Colorado. Ela processou cerca de US$ 24 bilhões em transações até que autoridades americanas apreenderam seus canais no Telegram e suas carteiras de criptomoedas, em setembro.

A Chainalysis, especializada em dados blockchain, mapeou parte da cadeia de fornecedores da Xinbi para a Bloomberg pouco antes da derrubada. Os rastros ligavam potenciais clientes a vendedores de dados pessoais roubados, software deepfake, registro de contas, desenvolvimento web e lavagem de dinheiro.

Um comprador pagou US$ 834 a um fornecedor de dados, outro enviou US$ 9.150 a um vendedor de software de IA e deepfake, e um terceiro fornecedor de IA recebeu US$ 200. Outras carteiras estavam ligadas a serviços de contas de redes sociais prontas ou à troca, com desconto, de criptomoedas de golpes por ativos mais seguros.

O ecossistema também se conectou à antiga economia de carteiras. Uma carteira associada ao KK Park, notório centro de golpes na fronteira entre Mianmar e Tailândia, enviou US$ 18,4 milhões por um intermediário a um potencial cliente, que depois pagou fornecedores de registro de contas e desenvolvimento web.

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Um serviço de tradução em tempo real no Telegram, por menos de US$ 20 por mês, deu acesso a bibliotecas de propostas de investimento e roteiros de golpes românticos adaptados a preferências sexuais, com informações sobre pensões americanas, pontuações de crédito e até hábitos alimentares.

"Se o crime organizado chinês consegue comprar um site personalizado e um serviço de lavagem de dinheiro da mesma forma que se pede comida para viagem, então todos os americanos com uma conta de aposentadoria estão na zona de risco", disse a procuradora americana Jeanine Pirro após a ação.

No mesmo dia em que a Xinbi foi fechada, um vendedor de fraude de pagamentos e lavagem de dinheiro no Telegram chamou o episódio de "oportunidade valiosa". O grupo, que já tinha sobrevivido ao fechamento de outros três mercados semelhantes, disse aos clientes que havia diversificado os canais de distribuição e passaria a negociar diretamente com eles.

"Embora este incidente tenha causado volatilidade a curto prazo, a longo prazo, ele nos ajuda a aprimorar nossos negócios", publicou a empresa em chinês.

Do complexo ao apartamento

Com as autoridades de olho nos complexos de Mianmar e do Camboja, grupos ligados à China se dispersam para a África e o Sri Lanka. Operações também foram detectadas em Dubai, na Albânia e na Ucrânia. Em vez de dominar cidades inteiras, ressurgem em apartamentos, hotéis e até veículos, numa indústria mais localizada e efêmera, apoiada por mercados digitais clandestinos e redes criminosas locais.

Segundo dados inéditos da Interpol, o número de nacionalidades identificadas entre as pessoas que caem em centros de golpes chega a 89, mais de cinco vezes o registrado no início de 2023. A lista vai além da Ásia e inclui Canadá, Itália, Espanha, Polônia, Moçambique, Argélia, Argentina, Equador e Líbano, entre dezenas de outros.

A engrenagem evoluiu desde os e-mails do "ríncipe nigeriano" dos anos 2000. Dados roubados servem para localizar alvos no Facebook ou no WhatsApp, e o golpe avança com scripts gerados por IA, páginas de phishing e redes de lavagem.

Grupos que antes miravam vítimas chinesas agora aplicam esquemas simultâneos contra várias nacionalidades: faturas falsas, credenciais bancárias roubadas, armadilhas de investimento romântico, ligações falsas de autoridades e abordagens adaptadas a crenças religiosas. Pesquisa da GASA indica que cerca de 57% dos adultos no mundo já foram alvo de fraudadores.

No HSBC, a fraude custa US$ 1 bilhão por ano. As plataformas de criptomoedas dizem que os pagamentos são difíceis de barrar porque as próprias vítimas costumam autorizar as transferências.

Por dentro de um centro de golpes

Em Brisbane, na Austrália, a escritora Judy, de 69 anos, quase caiu em um golpe de falsa identidade. Alguém se passou por editor da Atlantic Books, e a abordagem avançou com um suposto agente literário e editor de desenvolvimento, que dava feedback personalizado sobre seu trabalho e enviava links de sites com aparência profissional.

"Achei um pouco estranho, mas eles tinham escolhido meu livro autopublicado mais recente", contou. "Meu ego ficou um pouco massageado, mas, felizmente, o lado cínico ainda estava lá."

Um complexo abandonado no Camboja, ligado ao suposto grupo de fraudes Prince Group, foi aberto a jornalistas pela primeira vez desde que as autoridades o apreenderam, em janeiro.

No local, perto da fronteira com o Vietnã, funcionavam fraudes de falsa identidade e de investimento. Entre cofres vazios, embalagens de comida e cabos Ethernet, um documento rastreava as vítimas do contato inicial ao pagamento, e as folhas de pagamento registravam desempenho e comissões, de até 8% da receita gerada por alguns trabalhadores.

Uma nota manuscrita orientava os funcionários a buscar mulheres de 40 a 50 anos em comentários de postagens sobre artigos de luxo, carros, hotéis e destinos turísticos. Sugeria usar o Baidu Maps para achar donos ou gerentes de restaurantes, hotéis e fábricas, adicioná-los no WeChat e montar a mensagem inicial com base em dados do negócio.

Um manual de cerca de 90 páginas tinha seções sobre "construir confiança", "elogiar clientes" e "roteiros para conversas sinceras". "Guie o cliente passo a passo para a sua armadilha", dizia outro documento.

No ano passado, o Camboja lançou uma campanha contra os centros de fraude após pressão dos EUA e da China, o que provocou a saída de cerca de 250 mil estrangeiros. Sihanoukville, que era o pilar da indústria, hoje tem hotéis abandonados às pressas.

O governador provincial Mang Sineth reconheceu o dano à reputação do país e disse que 95% dos operadores ilegais foram erradicados, número contestado por especialistas. O restante é mais difícil de rastrear, afirmou, porque opera em restaurantes, carros de passeio ou quartos de hotel alugados por poucas horas.

"Até mesmo duas pessoas, marido e mulher, podem aplicar um golpe", disse. A polícia às vezes segue entregadores de comida para descobrir quais casas pedem grandes quantidades de comida até tarde da noite.

Golpes mais rápidos

O golpe do abate de porcos, esquema de investimento romântico de longa duração que marcou os complexos do Sudeste Asiático, ainda pode exigir semanas ou meses de preparação. Mas quase dois terços das vítimas hoje pagam em até 24 horas após o primeiro contato.

O phishing é ainda mais veloz. Componentes de sites falsos que imitam marcas, bancos e gateways de pagamento são vendidos cada vez mais em kits. Análise da ZeroFox para a Bloomberg mostra que golpistas com pouca habilidade técnica abusam de plataformas legítimas de desenvolvimento e de construtores de aplicativos de IA para lançar páginas com poucos comandos.

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O número de páginas de phishing detectadas nos planos gratuitos de nove dessas plataformas mais que quadruplicou em dois anos e chegou a 10.600. Algumas imitavam varejistas brasileiros, bancos equatorianos, instituições financeiras francesas e operadoras de telecomunicações americanas. Facebook, Netflix e Moonshot, app de negociação de criptomoedas, estavam entre as marcas mais copiadas na amostra ampla.

"A novidade é que os geradores de código de IA agora permitem que qualquer pessoa, sem nenhuma habilidade em programação, crie um login bancário falso convincente em poucos minutos", diz a análise. O volume ainda é pequeno em termos absolutos, mas a curva de crescimento é acentuada.

Big techs sob pressão

As redes sociais, já usadas como canal para atingir vítimas, enfrentam o problema de perto. Desde o ano passado, a Meta removeu mais de 16 milhões de contas do Facebook e do Instagram associadas a centros de golpes e retirou 65 milhões de anúncios fraudulentos, 94% deles antes de qualquer denúncia.

"Bloqueamos as contas deles; eles criam mais contas. Vamos além e bloqueamos a tecnologia que usam", disse Nathaniel Gleicher, chefe de políticas de segurança e combate a fraudes da Meta. Segundo ele, os criminosos conseguem novos dispositivos e voltam a operar muito rápido. "Golpes são ruins para os usuários, são ruins para os anunciantes e são ruins para nossas plataformas."

A Meta, porém, é acusada de lucrar com atividades fraudulentas. No início do ano, foi processada na Califórnia por supostamente facilitar e lucrar bilhões com anúncios fraudulentos voltados a famílias e idosos. Gleicher não abordou diretamente as alegações de receita, mas disse que os golpistas imitam anunciantes legítimos, o que torna a identificação "incrivelmente desafiadora".

Uma das soluções, afirmou, é ampliar a verificação de anunciantes. Estudos recentes mostram que o conteúdo malicioso ou abusivo seguiu em alta em mais de uma dúzia das principais redes no primeiro trimestre, com golpes e falsificação de identidade na maior parte das ameaças.

Cooperação e limites

Autoridades e empresas têm se unido. Uma operação recente reuniu Meta, Microsoft, Coinbase e Starlink com o Departamento de Justiça dos EUA, o FBI, a Polícia Real Tailandesa e agências de outros países.

A Meta desativou 1,4 milhão de contas, páginas e grupos, a Microsoft suspendeu cerca de 20.000 contas, a Starlink cortou o serviço de milhares de dispositivos e as autoridades tailandesas fizeram 63 prisões.

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Ainda assim, autoridades e especialistas dizem que a infraestrutura criminosa se regenera mais rápido do que os governos conseguem se coordenar. Pedidos judiciais, investigações financeiras e triagem de vítimas precisam atravessar empresas e fronteiras, enquanto contas, sites e carteiras fraudulentas são substituídos em horas.

"À medida que as operações se tornam mais sofisticadas, a necessidade de uma responsabilização legal robusta e coordenada torna-se cada vez mais urgente", disse Allison Pytlak, do Stimson Center, em Washington. Ela defendeu que os governos alinhem prioridades de fiscalização e tratem os trabalhadores encontrados nesses locais como possíveis vítimas de tráfico, e não automaticamente como suspeitos.

Quem paga a conta

O custo recai cada vez mais sobre empresas legítimas: bancos, operadoras de telecomunicações e plataformas de tecnologia são chamados a reembolsar vítimas e a fiscalizar a infraestrutura explorada pelos criminosos.

A UK Finance informou que os bancos pagaram £ 354,3 milhões (US$ 481,5 milhões) a vítimas de fraudes por transferência bancária no ano passado, enquanto os criminosos roubaram £ 1,28 bilhão por esse tipo de golpe no Reino Unido. Singapura adotou um modelo de responsabilidade compartilhada entre bancos e empresas de telecomunicações.

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