Aproximação dos EUA a Putin serve para afastar a China?

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Este é o Gabinete Guerra das manhãs 360. À segunda-feira, a análise é do Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.
Olá, Maria João, bom dia.
Olá, Miguel. Miguel, tivemos eleições em Israel, deram 53 deputados a Netanyahu, que prometeu voltar à guerra com o Irão, e amanhã temos eleições intercalares nos Estados Unidos. Entramos numa semana decisiva pro futuro do Médio Oriente?
Vamos começar por dizer uma coisa. Vamos começar por dizer que apesar de tudo o que aconteceu, do 7 de outubro, da questão da insegurança que foi criada e que foi sentida em Israel a partir desse momento e que os israelitas consideram que efetivamente o governo de Israel falhou. Depois tivemos o ataque ao Irão, que se propunha acabar de vez com aquele que é o maior inimigo do Estado de Israel e que, de alguma forma, é o financiador dos proxies do Hamas, do Hezbollah, dos Houtis e, portanto, era esse o ponto de vista de Netanyahu com o seu parceiro norte-americano, era terminar com o Irão e assim garantir a segurança de Israel. Apesar de isto tudo não ter sido concluído, Netanyahu ganhou as eleições.
É verdade.
E portanto, as sondagens falharam redondamente. Quando se acreditava que o bloco de Eisenkot poderia chegar com facilidade aos 61 deputados e assim ter maioria absoluta no Knesset. Isto significa que, por vezes, as sondagens não conseguem apanhar exatamente aquilo que é a percepção do eleitorado da importância, nomeadamente na questão da segurança. Entramos agora nas eleições norte-americanas, que é aquilo que Netanyahu está à espera, até porque o Netanyahu não vai conseguir formar governo sem o apoio de Eisenkot e sem a possibilidade até termos um governo, que vamos lhe chamar assim, um governo de unidade nacional. Mas será muito difícil, porque Netanyahu não se quer afastar daquilo que é a extrema-direita, portanto, Smotrich e Ben-Gvir, daqueles dois ministros, nomeadamente Ben-Gvir, que é conhecido por ter feito aquelas humilhações aos membros das flutinhas. Será muito difícil Eisenkot aceitar um governo de união nacional, ao mesmo tempo que o presidente israelita diz que não vai e não quer convocar eleições. Eleições nos Estados Unidos, é aquilo então que Netanyahu está à espera. Se estas eleições nos Estados Unidos, que também, lá está, vamos fazer até aqui muito rapidamente uma leitura de sondagem. No Brasil, as sondagens falharam redondamente, Maria João, porque nós andávamos a falar de que Bolsonaro ganharia na segunda volta, que Lula ficaria muito perto, mas que ganharia e que, portanto, o mesmo iria acontecer em Israel. E as sondagens falharam todas. Não estou a dizer que as sondagens vão falhar nos Estados Unidos, mas lanço aqui algumas dúvidas até que ponto é que se consegue auscultar o eleitorado norte-americano afeto ao Partido Republicano, e nomeadamente o chamado eleitorado MAGA, porque este eleitorado inclusive se recusa a responder a qualquer tipo de sondagens, porque não acredita nas sondagens, porque acha que as sondagens são todas doutoradas. Ou seja, tu consegues ter uma auscultação de quem vota nos democratas, consegues até alguma auscultação de pessoas, os chamados independentes, que ora votam democrata, ora votam republicano, mas depois não tens percepção do verdadeiro voto no Partido Republicano. E isto pode efetivamente contaminar as sondagens e dar uma percepção dos números que depois, na realidade, podem-se não verificar. Dito isto, se o presidente norte-americano conseguir sair mais ou menos ileso destas eleições norte-americanas e nomeadamente, se conseguir manter o Senado, e quando eu digo manter o Senado, basta não perder ou basta os democratas não terem a grande maioria do Senado. Por quê? Porque se, por exemplo, houver um impeachment, o impeachment é levantado com 50% daquilo que é a Câmara de Deputados. Mas quando chega ao Senado, pra depois ser votado, o impeachment precisa de dois terços, o que significaria que tinhas que ter uma grande parte dos republicanos a votar contra Donald Trump, o que eu acredito que não vá acontecer. E portanto, depois das midterms, Donald Trump vai querer voltar, juntamente com o seu parceiro de sempre, à questão do Médio Oriente. Nós sabemos que estão a decorrer negociações.
Aliás, ele já disse isso, não é? Que vai dar o golpe final ao Irão.
Exatamente. Nós sabemos que estão a decorrer negociações, mas estas negociações não vão chegar a grande porto, porque há ali dois pontos que são essenciais. O Irão não quer perder o seu programa nuclear, mesmo que o chame de programa nuclear civil, o que obviamente nada mais do que é um preciosismo na comunicação, nós sabemos qual é que a intenção do Irão. É ter uma arma nuclear, o que faria com que o Irão tivesse uma presença e uma posição no Médio Oriente fortíssima e praticamente impossível de alguma forma se descontrolar. Portanto, passaria a ser uma Coreia do Norte do Médio Oriente, que nós criticamos, que apontamos como um problema sério, mas que não podemos fazer nada porque tem capacidade nuclear. E isso é essencialmente aquilo que Israel quer evitar e que os Estados Unidos querem evitar. Portanto, depois das midterms, passado este turbilhão de eleições, possivelmente nós vamos assistir a uma tentativa final de criar uma pressão. Não é atacar o Irão de forma a termos inclusive os chamados de boots on the ground. Não, isso eu não acredito pra já. Teremos é um forcing final em que a Arábia Saudita pode estar presente também, por razão da questão do Iêmen e de alguma forma Por pensar que, permite-me a expressão, mata-se dois coelhos com um tiro só. Portanto, acaba-se com o Irão e depois os outros no Iémen vão juntos. É uma tentativa, efetivamente, conjunta. E então sim, nós podemos considerar que isto é um conflito regional, a própria Arábia Saudita juntar-se a Israel e juntar-se aos Estados Unidos para tentar fazer uma pressão tal, através de bombardeamentos cirúrgicos, através ainda mais de um garrote econômico, para forçar o regime a aceitar a não continuidade do programa nuclear e depois a possibilidade. Então, temos aqui um acordo de paz com o próprio regime. A queda do regime será muito difícil, a não ser que haja uma guerra total, o que a mim me parece difícil, que os Estados Unidos queiram voltar a entrar num tipo de Afeganistão ou Iraque 2.0.
Sim. Miguel, gostava também de falar sobre a embaixada dos Estados Unidos em Moscovo, que avisou as autoridades russas sobre uma ameaça de um ataque terrorista. Depois disto, terá sido detido a um suspeito. Mas Miguel, ser Washington a avisar Moscovo sobre planos de ataques na própria capital russa não é um embaraço para o Serviço Federal de Segurança Russo e os Estados Unidos são os novos melhores amigos do Kremlin?
É um embaraço e nós lembramos o que aconteceu, por exemplo, durante a guerra da Chechênia. A continuidade de ataques, nomeadamente ataques terroristas com bomba que visavam altas individualidades russas, nomeadamente militares. Mas nós também tivemos já dois ataques terroristas em Moscovo, empreendados por parte dos serviços secretos ucranianos, um deles que teve resultado e que matou um general extremamente importante. Portanto, nós sabemos que são ataques cirúrgicos e que acontecem por razão. Não sabemos ainda quem foi preso, não sabemos se isto foi feito pelos serviços secretos ucranianos, portanto, não podemos afirmar isso, mas sabemos o que já aconteceu. Agora, os Estados Unidos têm uma relação muito próxima, estes Estados Unidos. Esta administração tem uma relação muito próxima com Putin e, portanto, vai fazer de tudo para mostrar a Putin que os Estados Unidos são os seus melhores amigos. Na tentativa vã, em minha opinião, mas continua a ser uma tentativa que os Estados Unidos, estes Estados Unidos, esta administração, este presidente, querem fazer de afastar a Rússia da órbita econômica, de segurança e política da China e para isso vale tudo. Vale, inclusive, os próprios serviços secretos norte-americanos, que não deveriam ter atividade em território russo, mas mesmo assim ficam a saber destas coisas. Deve ter caído no colo de alguém, portanto, eles acharam por bem informar Putin a dizer-lhe: "Olhe, apareceu-nos aqui esta informação, portanto, veja lá, passa-se esta situação". A tentativa de cooperação, quer econômica, quer em termos de informações, quer até política, é uma tentativa enorme, desde sempre, de Donald Trump, na perspectiva de isolar Putin do poder de Xi Jinping e assim tornar-se o grande parceiro econômico e político da Rússia.
Miguel Baumgartner, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra. Uma boa semana, Miguel. Igualmente, obrigada.
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