Quando uma carícia provoca dor

Imagine que alguém que gosta de si lhe faz uma carícia e que esse gesto, em vez de conforto, lhe provoca dor. Ou que o simples roçar do lençol durante a noite, a água do duche ou a meia que se calça de manhã se tornam insuportáveis. Para muitas pessoas, isto não é uma imagem literária. É o dia a dia de quem vive com dor neuropática.
A maior parte das dores que conhecemos são um sinal de alarme útil: a dor protege, ensinando que não podemos tocar em coisas muito quentes; que tendo uma lesão grave como uma fratura, devemos permanecer com o membro imobilizado para permitir a cicatrização. E a dor desaparece quando a lesão cicatriza.
Na dor neuropática, é o próprio sistema de alarme que está avariado. Uma doença ou uma lesão dos nervos, da medula ou do cérebro baralha os sinais elétricos que levam a informação do corpo até ao cérebro. Às vezes, chegam sinais a menos, e surge a dormência. Outras vezes, chegam sinais a mais, e surgem os choques, as picadas e o ardor. Muitas vezes, acontecem as duas coisas ao mesmo tempo: a pele está dormente e, ainda assim, dói.
Por isso, as queixas destes doentes soam estranhas a quem as ouve. Falam de queimadura — sem que haja fogo —, de choques elétricos, de formigueiro, de comichão, de frio. Talvez o exemplo mais impressionante seja a dor fantasma: há pessoas amputadas que continuam a sentir dor, por vezes intensa, num pé ou numa mão que já não existem. Estas descrições não são exageros nem figuras de estilo. São pistas preciosas que ajudam o médico a reconhecer este tipo de dor.
Os exemplos estão mais perto de nós do que o que se imagina. A zona, causada pelo mesmo vírus da varicela, pode deixar uma dor que persiste meses ou anos depois de as bolhas desaparecerem, a chamada nevralgia pós-herpética. É frequente nestes doentes que o toque da roupa na pele afetada seja muito doloroso. A diabetes pode lesar os nervos dos pés e provocar ardor e choques, sobretudo à noite. Alguns tratamentos de quimioterapia, um AVC, uma lesão da medula ou a esclerose múltipla podem deixar a mesma marca. Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP, sigla do nome em inglês), estima-se que cerca de 7 a 10% dos adultos, quase um em cada dez, vivam com dor neuropática.
Nestas pessoas o problema não é apenas a dor, é a incompreensão. Trata-se de uma incapacidade invisível. Não se vê, os exames muitas vezes parecem normais e as palavras usadas para a descrever soam improváveis. Como explicar a alguém que um abraço magoa? Como compreender sentir um choque elétrico ou um formigueiro numa pele aparentemente normal? Muitas pessoas acabam por se afastar dos outros, deixam de dormir bem, de trabalhar, de fazer as tarefas de casa ou de estar com os amigos. A ansiedade e a depressão aparecem com frequência. E a dor que não é acreditada dói muito mais.
Deixo, por isso, uma mensagem. Se tem uma dor que queima, que dá choques, que surge com um simples toque ou que persiste depois de uma zona, de uma cirurgia ou de uma amputação, fale disso com o seu médico. Descreva-a com as suas palavras, por estranhas que lhe pareçam, e explique o que mais o incomoda. Existem tratamentos dirigidos a este tipo de dor. A maioria dos analgésicos comuns não é eficaz neste tipo de dor. Além dos medicamentos próprios para a dor dos nervos, há técnicas de intervenção, reabilitação e apoio psicológico. Manter-se ativo, dentro do possível, é importante: o repouso absoluto costuma tornar mais difícil voltar a mexer-se. Em Portugal existem unidades de dor preparadas para ajudar nos casos mais difíceis.
É precisamente para dar visibilidade a este problema que a IASP dedicou o ano de 2026 à dor neuropática. A Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED), que é o capítulo português da IASP (e reúne médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas e outros profissionais dedicados à dor), associa-se a esta causa. O congresso nacional da APED, que se realiza a 15 e 16 de outubro, em Tomar, é dedicado precisamente a este tema: “NeuroDor 360 – uma visão completa da Dor Neuropática”, e acolhe ainda o encontro das unidades de dor de todo o país.
Para quem vive com dor neuropática, uma carícia pode doer. Cabe-nos a todos, profissionais de saúde e sociedade, garantir que essa dor não é ignorada.
Rita Moutinho é assistente hospitalar graduada de anestesiologia. Tem competência em medicina da dor pela Ordem dos Médicos e é coordenadora da Unidade Multidisciplinar de Dor da ULS Gaia Espinho. Presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED) é uma das cronistas convidadas da secção Dor, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor.
Dor é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Resulta de uma parceria com a Ferraz Lynce (através da sua unidade, FAI Therapeutics) e tem a colaboração da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e da SIP-Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.
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