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Wednesday, November 4, 2026

Coronel José do Carmo: "Trump fica limitado internamente"

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Já demos então conta da vitória do Partido Democrata e das reações dos principais protagonistas. Vamos agora, Carla, perceber o impacto deste resultado. Partimos para novo espaço de análise.

Com o Bruno Cardoso Reis, gestor que está aqui conosco desde manhã. Contamos também neste jornal com o coronel José do Carmo. Coronel, bom dia, obrigada por estar conosco. Estamos a falar aqui de uma derrota política clara de Donald Trump. A questão agora, aquela que o mundo provavelmente quer saber, é que impacto isso poderá ter nos conflitos internacionais em que os Estados Unidos estão envolvidos, nomeadamente no Médio Oriente, até porque já há declarações em torno do Irão.

Olá, bom dia. Donald Trump fica muito mais limitado internamente, mas como já percebemos, em termos externos, continua a ter uma grande liberdade de ação e agora depende muito da personalidade dele. No caso do Irão, se ele vai para o confronto, ele tem uma personalidade conflituosa, mas, por outro lado, também há quem diga que ele quando enfrenta limitações de poder, tende para aquela sigla do taco, portanto, chicanote. No caso do Irão, na minha opinião, ele até o momento não conseguiu levar a bom porto os seus objetivos e neste momento as hipóteses diminuem. Face às limitações que irá ter no Congresso e no Senado, pelo menos a partir de janeiro, na Câmara dos Representantes e no Senado, deixa de ter capacidade de fazer ações prolongadas, ou seja, uma guerra prolongada, que implique colocar tropas no terreno, que implique uma ação que se estenda por muito tempo. Ele fica muito limitado nesse aspecto. E, portanto, só tem, neste momento, a capacidade de ações curtas. Já se percebeu que ações curtas não parecem ser decisivas. Até pelo contrário, o Irão ao perceber as limitações que o líder americano enfrenta, neste momento está mais preparado para aguentar essas ações curtas. Se aguentou até agora esta pressão contínua, que já vai em meses, muito mais facilmente aguentará pequenas ações que os Estados Unidos executem, apesar de muito intensas. Tem-se falado nos últimos dias de uma eventual ação rápida, profunda, contundente, mas o fato é que o Irão pode encaixar isso. Vai sofrer prejuízo, vai sofrer consequências, é evidente, mas pode encaixar isso. E portanto, os Estados Unidos, neste momento, ficam limitados pela incapacidade de fazer perceber ao Irão que a guerra se poderá prolongar durante muito tempo e poderão tomar ações mais caras. Isso porque o Congresso, obviamente, não irá aprovar gastos a esse nível.

Precisamente, coronel, com a vitória dos democratas, a administração Trump passa a ter limitações no orçamento e também na aprovação de pacotes internacionais. Trump fica com as mãos atadas para financiar grandes operações militares ou, conhecendo nós a imprevisibilidade, vai tentar contornar o Congresso através de decretos ou de operações secretas?

Ele, neste momento, já deve ter feito preparativos.

Um plano B.

Sim, digamos, já ter um pé de meia reservado para algumas operações. Mas a questão é esta, isso é iniludível, ou seja, ele não pode desencantar dinheiro, ele não inventa. O dinheiro não aparece debaixo do chão, tem que ser o Congresso a aprovar isto. E portanto, parece-me, no caso do Irão, não irá aprovar ações. A questão é tal, nem em caso de haver uma força tática americana cercada e prestes a sofrer grandes baixas por falta de munições, nem assim o Congresso é obrigado a aprovar. Ou seja, nem assim o presidente tem liberdade para ter uma ação ilimitada. Quando muito, pode ter um apoio para tirar as tropas, mas não para manter. Portanto, o Congresso pode chegar a esse ponto, de limitar e aceitar inclusive uma derrota, não financiando. Podemos chegar a esse ponto. As forças armadas têm sempre meios próprios, que são aqueles fornecidos no orçamento, que são para o dia a dia, para algumas operações inopinadas, mas não para uma guerra sustentada. E não tem. Obriga a grande consumo, obriga a esforços orçamentários, esforços de munições. Os homens também são pagos de maneira diferente, estando numa guerra ou estando internamente. Tudo isso implica custos que ele não pode suprir, mesmo que tenha vontade disso. Vai ter muitas dificuldades. E depois há esta percepção que os adversários têm de que ele não tem capacidades legais para ultrapassar esta situação. E portanto serão levados, obviamente, a aguentar essa ação súbita, imediata, curta, porque sabem que dali não surge muito mais, não há hipótese de surgir mais. Esta percepção, este conhecimento pelos adversários das limitações legais americanas ou do presidente americano vai obviamente levá-los a aguentar mais e a ceder menos ao que pretende o presidente Trump. No caso da Ucrânia é diferente.

Por que é diferente, major?

Porque no caso da Ucrânia, o Congresso pode, de facto, aumentar. Por exemplo, aprovou há pouco tempo, este Congresso, a chamada Lei Graham, que propunha sanções à Rússia, sanções secundárias, propunha um aumento, digamos, com apoio à Ucrânia e que o presidente americano fez uns disclaimers, fez uns waivers e portanto não a aplicou. Neste momento, há no Congresso uma maioria, e haverá mais a partir de agora, que pode levar o presidente a ter que aceitar certas coisas que neste momento não aceitou. Porque há um consenso maior, e haverá mais agora no próximo Congresso, de senadores e representantes que estarão mais dispostos e conseguirão até maiorias suficientes para ultrapassar o veto de Trump em certas decisões. Portanto, aí a hipótese é maior.

E reforçar o apoio à Ucrânia. Bruno Cardoso Reis, abrindo aqui um pouco mais o leque não só das intervenções militares, mas de política externa norte-americana, poderá mudar alguma coisa com esta derrota do Partido Republicano, quer na relação com a União Europeia, quer com a NATO?

Indo só um bocadinho a este ponto, a questão da guerra no Irão, há que ter a noção que a guerra no Irão está a custar entre 800 milhões e US$ 1 bilhão por dia. Ou seja, apesar de tudo, há limites aos sacos azuis onde se pode ir buscar dinheiro. Por outro lado, historicamente, não há grandes precedentes para o Congresso recusar o financiamento de tropas que estão em combate. Agora, podem, por exemplo, tentar estabelecer limites temporais, mantêm-se o financiamento, mas por um prazo, tentar impor algum tipo de constrangimento.

Isso já aconteceu, é comum acontecer, nomeadamente pensando nas guerras do Iraque, que também foram prolongadas.

Na verdade, o que é mais comum acontecer é haver algum tipo de declaração num determinado sentido, mas sem que isso afete o financiamento de tropas que estão empenhadas em combate. Ainda assim, apesar de tudo, estamos a falar sobretudo de operações aéreas e navais, e portanto, isso é um bocadinho menos complicado, vamos dizer assim, tentar constranger isso do que ter tropas no terreno sujeitas a ataque, como era o caso no Iraque ou no Afeganistão. Mas eu diria que isso reforça esta ideia de que há algum limite até onde o Congresso pode ir. Outra coisa, por exemplo, é a questão sempre do veto, mas, por exemplo, o Congresso pode usar o orçamento da defesa, que o Trump, aliás, queria subir, já estava à volta dos 980 mil milhões. Ele queria subir para mais de um trilhão na linguagem americana, mais de um bilião, na nossa linguagem, de dólares. O Congresso pode, por exemplo, no orçamento, e muitas vezes faz isso no orçamento militar, já fez isso, por exemplo, em relação à questão da NATO, dizer: "O nível de tropas na Europa não pode baixar abaixo deste nível", já não me lembro, estou aqui a citar de cor, 70 mil soldados, isso está incluído na lei orçamental. A opção que o Trump teria era vetar a lei do orçamento da Defesa, que obviamente depois cria imensos problemas práticos também. Podem pôr aí limitações desse gênero, alterações nas relações com os aliados, pode impor algum tipo de limitação na questão da Ucrânia, pode, por exemplo, tentar incluir obstáculos a que haja acordos com a Rússia, que tenham impacto para a Ucrânia, pode obrigar a algum tipo de fornecimento de equipamento à Ucrânia. Sobretudo na lei do orçamento militar, no orçamento de defesa, há alguma margem. Agora, eu acho que a tendência de Donald Trump é para se manter o mesmo ou eventualmente ainda ser mais proativo nesta dimensão externa, e acho que há o risco de eventualmente, Donald Trump procurar ter aqui um protagonismo que não consegue ter na dimensão interna e eventualmente até, e isso pode ter implicações para a Europa e para a Ucrânia, tentar vingar-se ou retaliar de governos que ele considera que não são simpáticos para com ele, que não o ajudaram nestas eleições. Eu recordo que o Zelenskyy entrou na lista negra de Donald Trump, da qual nunca saiu, quando se recusou a ajudar Donald Trump, numa famosa chamada telefônica, a encontrar provas contra a família Biden no contexto do primeiro mandato de Donald Trump. É bem possível que haja, eventualmente, alguma retaliação, digamos assim. Vamos ver como é que isto se equilibra, porque realmente do lado do Congresso, a tendência será para haver mais apoio à Ucrânia. Apesar de tudo, também vale a pena, já agora sublinhar, é que o Congresso só toma posse daqui a dois meses. Ainda vamos ter aqui um período longo com este Congresso, com este presidente, mais dois anos, e com este Congresso, mais dois meses até entrar o próximo.

Esse dado é muito importante, sabendo algumas ações eventualmente repentinas do presidente norte-americano. Coronel José Ducar, muito obrigada por ter estado conosco a analisar o resultado das eleições intercalares nos Estados Unidos e as consequências para o mundo. Bruno, vamos continuar por aqui nós.

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