As eleições podem estar colocando as férias dos brasileiros em espera
O Brasil atravessa semanas de discussões políticas, expectativas econômicas e especulações sobre o que acontecerá depois das eleições. Enquanto parte da população acompanha pesquisas, debates e movimentações do mercado, existe uma decisão muito mais cotidiana que também pode ser influenciada por esse ambiente: para onde viajar, quanto gastar e, principalmente, se este é o momento de assumir uma despesa com as férias.
Estamos em outubro, justamente quando muitas famílias começam a organizar as viagens de dezembro, janeiro e do próximo verão. Ao mesmo tempo, o país atravessa uma disputa eleitoral marcada por forte polarização e incerteza sobre o cenário seguinte. Os dois movimentos acontecem juntos e levantam uma questão interessante para o turismo: quantas pessoas não desistiram de viajar, mas estão simplesmente esperando para decidir?
A relação entre incerteza e turismo não é apenas uma impressão. Um estudo publicado em 2026 no International Journal of Tourism Research, com 748 turistas alemães, identificou que percepções negativas relacionadas à instabilidade política podem reduzir a intenção de visitar determinados destinos. O estudo não analisa as eleições brasileiras e, portanto, não permite transportar essa conclusão diretamente para cá. Mas ajuda a mostrar como decisões de viagem são sensíveis à percepção de risco e confiança.
E talvez o efeito mais interessante nem esteja nos cancelamentos. Está nas reservas que ainda não aconteceram. Uma família que pretendia comprar passagens para janeiro pode esperar algumas semanas. Um casal pode adiar uma viagem internacional até ter maior clareza sobre o câmbio. Outro consumidor pode manter as férias nos planos, mas evitar assumir agora uma despesa relevante. Para o turismo, esse comportamento é particularmente difícil de enxergar porque não aparece como cancelamento: aparece como silêncio.
O câmbio torna essa relação ainda mais evidente. Em períodos de maior incerteza, oscilações do dólar rapidamente entram na conta de quem pretende viajar para fora do país. Passagem, hospedagem, alimentação e compras ficam mais difíceis de prever. Mas o impacto pode chegar também ao turismo nacional, porque a decisão não depende apenas do preço da viagem. Depende da confiança que aquela família tem sobre sua própria situação financeira nos próximos meses.
Isso cria um desafio interessante para hotéis, agências e operadoras. Quando o consumidor está inseguro, desconto não é necessariamente a única resposta. Flexibilidade de cancelamento, possibilidade de remarcação, parcelamento, transparência de preços e segurança na compra podem ter tanto peso quanto uma promoção. Em determinados momentos, vender uma viagem significa reduzir a sensação de risco envolvida naquela decisão.
É importante fazer uma distinção: ainda não temos evidências suficientes para afirmar que a disputa eleitoral esteja provocando uma retração nas reservas turísticas brasileiras. Mas talvez justamente por isso o setor devesse observar não apenas vendas e cancelamentos, mas também o tempo entre pesquisa e compra, a procura por tarifas flexíveis e mudanças na antecedência das reservas.
Porque existe uma diferença importante entre não querer viajar e não querer decidir agora. E, neste momento, entender essa diferença pode dizer bastante sobre o que acontecerá com o turismo brasileiro nos próximos meses.
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