ESPNVAR review: Should Brentford's Yarmoliuk have been sent off vs. Liverpool?ESPN DeportesArsenal no puede atravesar el muro del Nottingham ForestThe Jerusalem PostTrump endorses Netanyahu days before Israeli election, warns US could face Iran alone if PM losesRTP DesportoAlverca afastado pelo Tondela com golos no prolongamentoPunchKogi LG poll: APC wins all 21 chairmanships, 239 council seatsZDF heuteEntdecken Sie das ZDF-NachrichtenstudioVanguardADC Campaign to Kwankwaso: Declare for APC if you share its agendaPopular ScienceWash your hands. There’s probably poop on them.n-tvBoss-Knall in der Bundesliga: Sportvorstand Krösche schmeißt bei Eintracht Frankfurt hinThe GuardianNottingham Forest v Arsenal: Premier League – liveThe Sydney Morning HeraldGreens insiders break cover to demand public findings in Steele-John inquiryGuardian SportTexans beat Jaguars at the last; Bears v Falcons, Ravens v Browns and more: NFL week six – live
The Daily Newsstand · Free, Always
Sunday, October 18, 2026

Os candelabros da baixela Germain que regressam a Portugal

Translate

Parte do conjunto de mais de mil peças encomendado por D. José I ao ourives de Luís XV, as peças foram adquiridas recentemente por colecionadores portugueses, por 3,4 milhões de euros.

Quando em 1755 um terramoto devastador atingiu Lisboa, a maior parte das riquezas da família real portuguesa encontrava-se no Paço da Ribeira. Numa altura em que Portugal era o porto de entrada na Europa de especiarias provenientes do Oriente, de marfim de África e de ouro do Brasil, Lisboa era das capitais mais ricas da Europa. Mas o impacto, especialmente no Terreiro do Paço, provocou a destruição total da residência oficial dos Reis, assim como do seu tesouro. E uma das primeiras providências para recuperar o estilo de vida na corte foi a encomenda de um serviço de prata de mais de mil peças, feito pelo melhor ourives de Paris.

Trata-se da baixela Germain, originalmente com mais de 1200 peças de prata em estilo rococó, encomendado por D. José I à oficina parisiense de Thomas Germain, o ourives de Luís XV. Atualmente é considerada a única baixela real completa do mundo, e está praticamente toda exposta no Museu do Tesouro Real, no Palácio da Ajuda. À mesa posta, ainda faltam peças — mas algumas podem regressar ao conjunto. Quatro candelabros que originalmente faziam parte da baixela Germain regressaram a Portugal, 269 anos depois da primeira viagem a Lisboa.

As peças integravam a coleção Graziella Patiño de Ortiz Linares, irmã de Antenor Patiño, o magnata boliviano herdeiro de uma poderosa família do ramo do estanho que mandou construir em 1957 a edificação original do condomínio de luxo Quinta Patiño. O leilão da coleção, composta por 59 lotes de peças como pinturas, mobiliário, porcelana, tapeçaria e ourivesaria dos séculos XVII e XVIII, realizou-se a 23 de setembro e arrecadou quase 40 milhões de euros. Os quatro candelabros foram licitados por 3,4 milhões de euros pelos colecionadores Maria e João Cortez de Lobão, e agora, através da Fundação Gaudium Magnum, já iniciaram os contactos com museus nacionais para os expor publicamente.

▲ Os sátiros esculpidos na base nos candelabros -- os braços terão sido adicionados posteriormente, confecionados pelo filho de Thomas Germain

Christie's.com

Uma encomenda que exigiu 100 artesãos

A história das peças começa ainda em 1729, quando D. João V encomendou a Thomas Germain, o ourives do Rei de França que tinha oficina nas galerias do Louvre, o primeiro conjunto para a corte portuguesa. Entretanto, Germain morreu em 1748, deixando algumas peças inacabadas. É quando o seu filho, François-Thomas Germain, assume a oficina, aos 22 anos. Contudo, em 1755 veio o terramoto e boa parte da coleção em prata foi destruída. É quando se dá a segunda encomenda de D. José I, agora ao filho e sucessor de Thomas Germain — um pedido que tinha como objetivo reconstituir a prataria da Casa Real.

A nova encomenda consistia em quatro serviços de jantar, que correspondiam aos quatro pratos de uma refeição francesa (entrada, assado, prato principal e sobremesa), além de louça de ouro para uso exclusivo do rei e diversos conjuntos de toucador. De acordo com uma carta de D. António de Saldanha, embaixador na corte de Paris, terão sido necessários mais de 100 artesãos para a produção das mais de 1200 peças. Diz-se que este serviço terá sido mesmo a maior encomenda feita por uma corte estrangeira ao ourives francês. Pela dimensão da coleção, as entregas foram divididas em 43 caixas, realizadas através de navios portugueses atracados no porto de Le Havre, e seguiram entre novembro de 1757 e maio de 1765. Contudo, apesar de paga na sua totalidade, devido à falência da oficina Germain em 1765, a encomenda nunca foi completamente entregue.

O conjunto ficou conhecido por baixela Germain. Contava com oito candelabros divididos em dois conjuntos de quatro: os arvoredos e os sátiros, ou modelo 52 e 51. Os candelabros que agora regressam a Portugal faziam parte deste conjunto e serão as únicas peças deste segundo serviço que trazem a marca de Germain pai. São, na verdade, obras conjuntas de pai e filho — as bases, formadas por sátiros sentados costa a costa, foram executadas por Thomas Germain antes da sua morte, entre 1732 e 1735, enquanto ainda produzia a primeira encomenda da corte portuguesa; os braços para as velas foram acrescentados pelo filho entre 1756 e 1757. As bases trazem a inscrição: “Fait par F.T. Germain sculpt orf.re du Roy aux galleries du Louvre a Paris 1757 No 51”.

▲ As bases dos candelabros com a inscrição de confeção de Germain e o monograma de Pedro I do Brasil

Contudo, há uma teoria adicional sobre a proveniência das peças. Os candelabros aparecem na obra “Retrato de Thomas Germain e sua Mulher”, pintada em 1736 por Nicolas de Largillierre, que retrata o ourives e a sua mulher na sua oficina, a apontar para uma das peças do modelo 51, exposta na estante. Existe uma suposição de que, afinal, os candelabros poderão ter sido guardados por Germain para o seu uso pessoal, e que o filho, pressionado pela impaciência do Rei de Portugal, decidiu gravar a sua assinatura nas peças e enviá-las com uma data posterior juntamente com o resto da encomenda. O facto de o estilo e a qualidade dos braços deste modelo não serem semelhantes aos do modelo 52, que atualmente faz parte do acervo do Louvre, reforça a tese.

De Paris a Lisboa, do Brasil à irmã de Antenor Patiño

O caminho dos candelabros até regressar a Lisboa passa pelo Brasil e por Paris. Depois de servirem D. José I, as peças passaram, por sucessão, por D. Maria I e D. Pedro III, D. João VI e D. Pedro IV, até D. Pedro II do Brasil. É o penúltimo proprietário real que tem o seu nome gravado nas bases destes quatro candelabros, na forma do monograma do Imperador do Brasil.

Uma análise realizada ao inventário de bens enviados a partir da corte do Rio de Janeiro em 1821, quando D. João VI regressou do Brasil, revela que o monarca incluiu muitos objetos de prata que faziam parte de um serviço de mesa — potencialmente peças da baixela Germain. Os bens que terão permanecido no Brasil foram gravados com as insígnias imperiais, o que é o caso dos quatro candelabros com sátiros. Além disso, o inventário de regresso não traz referências nem aos pesados centros de mesa que compunham o conjunto, nem às tampas de terrinas mais adornadas ou aos candelabros decorados — o que pode significar que nem sequer foram para o Brasil, ou que não regressaram.

▲ O retrato de Thomas Germain e a sua esposa, em que o candelabro de sátiros aparece ao fundo

O facto de as peças terem permanecido na família imperial brasileira indica que os quatro candelabros com sátiros ficaram mesmo na corte do Rio de Janeiro. É a partir de D. Pedro II do Brasil que os quatro candelabros são separados em dois pares — um deles foi oferecido à sua filha, a princesa Isabel, e posteriormente comprado em Lisboa pelo colecionador Ricardo Espírito Santo da Silva. Já o outro par não tem paradeiro documentado, tendo permanecido com Pedro II até à proclamação da república no Brasil, em 1889. Mais de 50 anos depois, o antiquário parisiense Jacques Helft, especialista de referência na ourivesaria antiga francesa, conseguiu reunir os dois pares, adquirindo o primeiro de Ricardo Espírito Santo da Silva em 1956, e o segundo um ano depois. Foi pelas mãos de Helft que as quatro peças chegaram à coleção privada de Graziella Patiño de Ortiz Linares e Jorge Ortiz Linares.

Os candelabros já estiveram expostos no passado: um dos pares chegou ao Museu de Artes Decorativas para uma exposição temporária entre 1954 e 1955, e depois ainda entrou numa exposição de ourivesaria portuguesa e francesa na Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, em Lisboa. A última vez que os candelabros estiveram disponíveis para a visita pública foi em 1974, numa exposição sobre Luís XV em Paris.

Agora a Fundação Gaudium Magnum procura disponibilizar novamente as peças para a apreciação pública, e está em contacto com três museus em Lisboa: o Palácio Nacional da Ajuda, que detém o Museu do Tesouro Real, onde está exposta a maior parte da baixela Germain; o Museu Nacional de Arte Antiga, com quem já tem um protocolo de colaboração; e a Fundação Calouste Gulbenkian, onde está o retrato de Germain no qual aparecem os candelabros. A colecionadora Maria Cortez de Lobão destaca em comunicado que “estas peças foram feitas para a corte portuguesa, num momento em que Lisboa se reerguia da tragédia e da devastação do terramoto e era preciso dar a todos um sinal de que era possível reconstruir uma normalidade. O lugar natural delas é aqui em Portugal. Neste momento, tornámo-nos guardiães de um património que pertence à história de Portugal”.

View the original on Observador Desporto →

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.