Nossa Senhora virou cabo eleitoral; bem-vindos ao Inferno de Dante

Mas arrastar Nossa Senhora para a enxurrada de escândalos pré-eleitorais foi a gota d'água para nos afogarmos no baixo nível. Nem água benta nos livra desses demônios.
Demônios? Para entender o Brasil de hoje, talvez seja preciso pedir ajuda a Dante Alighieri. Estamos atravessando O Inferno, da Divina Comédia.
Logo na entrada, o aviso: "Deixai toda a esperança, ó vós que entrais". O Brasil está lá no oitavo círculo do inferno: Dante o chama de Malebolge. É talvez a parte mais criativa e politicamente venenosa do Inferno.
Malebolge possui dez fossos, destinados a diferentes tipos de fraudadores: sedutores, aduladores, falsos profetas, corruptos, hipócritas, ladrões, semeadores de discórdia. Segundo Dante, quanto mais consciente e calculada é a perversidade, mais profunda será a queda.
Na urna. Foram esses perversos que lançaram fake news sobre Nossa Senhora Aparecida. Disseram que ela deixaria de ser a padroeira do Brasil.
Corruptos, hipócritas, ladrões.
Eles simplesmente ressuscitaram um projeto de 2007, apresentado pelo então deputado Victorio Galli, que pretendia alterar a forma como a legislação se referia à Padroeira do Brasil. O projeto foi arquivado em 2008. Está morto há quase duas décadas.
Mesmo assim, reapareceu agora como se tivesse acabado de sair da gráfica do Congresso — só que com um detalhe novo: deram a ele o nome de Flávio Bolsonaro.
O projeto não é dele, não foi apresentado por ele e não está tramitando. Flávio, aliás, negou qualquer proposta nesse sentido. Ainda assim, a história foi transformada em munição eleitoral.
Mas quem precisa de realidade quando uma boa mentira produz indignação instantânea? Sedutores, aduladores, semeadores da discórdia.
Não é de mais fogo do inferno que o Brasil precisa. Mas não faltam os incendiários.
Poucos crimes são tão satânicos como enganar alguém de que seu adversário não ameaça apenas seus interesses, mas aquilo em que você acredita.
Nesse terreno, o debate deixa de ser sobre governo. Passa a ser de caráter.
Mesmo desmentida, a história ganhou aquilo de que toda narrativa eleitoral precisa: exposição. Com a devida ajuda pecadora do ministro Flávio Dino, que autorizou que a postagem falsa continuasse a circular.
"Depois que colocam a toga, eles se sentem Deus", decretou o presidente e candidato Lula, em entrevista ao Canal Livre, da Band.
Ironia. A política descobriu que até o sagrado pode funcionar como ferramenta de medo. Se o adversário ameaça sua igreja, seus valores e sua fé, já não é necessário apresentar argumentos. Basta apontar o Satanás.
E há algo particularmente indecente nisso. Nossa Senhora Aparecida atravessou séculos sem precisar de Lula, Flávio, Alckmin, Janja ou qualquer partido. Vai sobreviver também a esta campanha.
O que não sobreviveu é o respeito por certos limites. E é justamente aí que a indignação deveria começar.
Os indiferentes também estão no Inferno. Aqueles que, em vida, nunca tomaram posição diante do bem ou do mal.
Mensagem aos eleitores: a neutralidade também é um mal.
Mas Dante vai além. Em O Inferno, há uma ideia perturbadora: os pecados mais graves não são necessariamente os mais passionais, mas aqueles cometidos com consciência, cálculo e inteligência.
E talvez seja justamente essa a grande ironia de Dante: no fundo do inferno não estão os que perderam completamente a razão. Estão aqueles que souberam muito bem o que estavam fazendo.
Opinião
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