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Thursday, October 8, 2026

Nordeste recebeu 27 milhões de postagens ofensivas após eleição, diz estudo

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Imagem coloca uma imagem de burro na região Nordeste em um dos ataques
Imagem coloca uma imagem de burro na região Nordeste em um dos ataques Imagem: Reprodução

Nas primeiras 72 horas após a votação do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, as redes sociais brasileiras registraram uma onda massiva de hostilidade regional. Segundo o estudo especial "O Nordeste no Banco dos Réus", elaborado pela Ativaweb DataLab, foram 32,8 milhões de menções, links e compartilhamentos que associavam o Nordeste ou os nordestinos ao cenário eleitoral.

Do volume total monitorado, impressionantes 82,2% apresentaram tom crítico ao voto da região, o que equivale a 27 milhões manifestações hostis em apenas três dias. Apenas 17,8% (5,8 milhões) das menções foram classificadas como neutras ou saíram em defesa do povo nordestino.

O volume de publicações equivale a uma média de 456 mil menções por hora —ou mais de 7.600 por minuto durante os três dias seguidos à apuração. O impacto é comparável aos maiores eventos de comoção nacional nas redes.

"Quando o Brasil passa a apontar o dedo para uma de suas regiões, a disputa eleitoral já ultrapassou a política e chegou à dignidade", afirma Alek Maracajá, CEO da Ativaweb DataLab e responsável pela pesquisa.

Para o executivo, a dimensão do ataque demonstra um ambiente orquestrado. "Vinte e sete milhões de críticas em três dias não são opinião espontânea: são um clima, e clima se fabrica", destaca.

O monitoramento abrangeu dados públicos coletados no Facebook, Instagram, TikTok, X, Kwai e comentários do YouTube em todo o território nacional. Os ataques partiram de usuários espalhados por todo o país, com forte presença no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

"O preconceito regional encontrou nas redes o seu megafone mais eficiente: ele fala de todos os cantos do país, ao mesmo tempo, contra o mesmo alvo", avalia o cientista de dados.

A anatomia do discurso

A análise baseada em amostragem revelou que o ataque raramente recorre a palavrões explícitos. Em vez disso, a hostilidade se estrutura na construção de estereótipos de inferioridade e dependência. As principais formas foram:

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  1. Vergonha e autodepreciação (26,9%): lidera as ocorrências, envolvendo expressões de vergonha, desgaste e pedidos de desculpas;
  2. Estigma da pobreza e dependência (22,1%): termos que associam o voto à miséria, fome, "curral eleitoral" ou venda de voto;
  3. Inferioridade intelectual (18,3%): ofensas relativas à capacidade mental, como "burro", "analfabeto" e "ignorância";
  4. Desumanização (12,5%): comparações extremas, retratando a região como "doença", "lixo" ou "câncer do Brasil";
  5. Segregação territorial (12,5%): defesas explícitas de separação do país, divisão territorial ou construção de muros.

O ódio regional raramente grita palavrão. Ele prefere a frase que parece análise e entrega desprezo.
Alek Maracajá, CEO da Ativaweb DataLab

Flávio usa frase na camiseta sobre o Nordeste
Flávio usa frase na camiseta sobre o Nordeste Imagem: Divulgação

Vergonha atribuída

Um dos achados mais marcantes do estudo foi a adesão de parte dos próprios nordestinos ao discurso pejorativo. Publicações com frases como "tenho vergonha de ser nordestina" e "peço desculpas por ter sangue nordestino" acumularam dezenas de milhares de interações.

Esse comportamento acaba servindo de gatilho e "aval" para que perfis de outras regiões reproduzam e legitimem o preconceito.

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"O preconceito atinge seu estágio mais perigoso quando a vítima passa a repeti-lo como se fosse opinião própria", diz Maracajá.

O relatório lembra que incitar a discriminação ou preconceito de procedência nacional é crime, com pena agravada pela Lei nº 14.532/2023 quando cometido no ambiente de redes sociais.

"Liberdade de expressão protege a crítica ao voto. Não protege o desprezo por quem vota", afirma o CEO da Ativaweb DataLab.

Pernambucano, Lula usa chapéu de cangaceiro durante título honoris causa recebido da UFPI
Pernambucano, Lula usa chapéu de cangaceiro durante título honoris causa recebido da UFPI Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação

União necessária

Ao projetar os desdobramentos para a reta final da campanha, a análise aponta que o discurso segregacionista costuma gerar efeito reverso, fortalecendo a coesão do eleitorado atacado e transformando ofensa em voto de resposta.

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Dados não têm sotaque. E o que eles mostram é que o Brasil precisa, com urgência, voltar a se reconhecer inteiro.
Alek Maracajá

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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