Ideal de magreza na gestação, chamado de gravidez só na barriga, pode fazer mal à saúde da mãe e do bebê
"Que barriga linda!", comentou uma seguidora de Malu Borges em um dos últimos vídeos da gravidez antes do nascimento da filha da influenciadora, em julho deste ano. "Nunca vi uma barriga assim. É literalmente só o bebê ali e nada de gordura."
Entre os milhares de comentários, alguns usuários elogiavam "uma das melhores gestações na internet", destacavam a ausência de estrias, e outros diziam estar com "agonia". Algumas dessas mensagens acumulavam dezenas de milhares de curtidas.
O vídeo no TikTok ultrapassou 6,4 milhões de visualizações e se tornou uma das publicações mais vistas do perfil secundário de Malu, dedicado a lifestyle e acompanhado por mais de 2,8 milhões de pessoas. No principal, voltado à moda, são mais de 6,3 milhões de seguidores.
A exaltação de um corpo grávido que parece ganhar volume apenas na região abdominal tem nome: "belly-only pregnancy", ou "gravidez só na barriga". O fenômeno foi analisado em um estudo alemão publicado, em 2022, na revista Eating and Weight Disorders, que associou esse ideal a pressão estética, controle do peso, alimentação monitorada, exercícios e expectativa de rápida recuperação depois do parto.
Foram analisadas 351 postagens do Instagram. Embora a maioria estivesse em inglês, havia publicações em outros idiomas, como português, espanhol e chinês.
Psicóloga-chefe do Centro Médico Universitário Hamburgo-Eppendorf e coautora do trabalho, Angelika Weigel afirma que a discussão vai além dos benefícios da atividade física ou de uma alimentação equilibrada na gestação. "O problema é transformá-las em ferramentas para alcançar um ideal estético."
Segundo a pesquisadora, a repetição desses corpos nas redes pode fazer com que sejam internalizados como a forma "certa" de passar pela gestação. Para mulheres vulneráveis a transtornos alimentares, as mensagens poderiam reforçar restrições alimentares ou exercícios excessivos. Ela reforça que o tema deve ser mais aprofundado com outros estudos.
Consultada sobre a postagem, Malu Borges respondeu, por meio de assessoria, que não perseguiu uma meta de peso específica na gravidez e que nunca pretendeu usar o corpo como referência.
Segundo Weigel, a intenção de quem publica e o impacto sobre quem acompanha não são necessariamente iguais. "Isso não significa que influenciadores sejam responsáveis pelas reações individuais, mas sim que devem estar atentos ao que o conteúdo deles pode comunicar implicitamente."
Malu Borges afirma estar ciente dos comentários como os mencionados, mas diz que tentou não transformá-los em conquistas.
Psicóloga e mãe há menos de dois meses, Bárbara Capecce, 36, diz que os padrões são cíclicos e que corpos muito magros voltam ao centro do ideal estético de tempos em tempos. O efeito psicológico, segundo ela, pode ser ainda mais intenso na gestante. "É o momento mais vulnerável da vida de qualquer ser humano."
Capecce diz ter visto perfis nas redes incentivando a prática de engordar apenas na barriga durante a gravidez. "É uma cobrança muito grande para que as mulheres levem uma vida que não é acessível para a maioria da população."
Quanto peso uma gestante deve ganhar?
O ganho excessivo ou insuficiente de peso na gestação está associado a riscos para a mulher e o bebê. Thaís Rangel, pesquisadora do Observatório de Epidemiologia Nutricional da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), explica que o ganho excessivo no início da gravidez se associa à diabetes gestacional e a síndromes hipertensivas. Já o ganho insuficiente se relaciona ao maior risco de prematuridade.
A obstetra Giuliane Lajos, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), explica por que o aumento de peso não se refere apenas ao bebê: "Os vasos sanguíneos da gestante aumentam para a placenta fazer o fluxo de sangue e nutrir o feto. A mulher acaba, por exemplo, ficando mais inchada."
Lajos afirma que outras mudanças fisiológicas, como alteração na frequência cardíaca, podem acontecer mesmo com mulheres que mantêm um estilo de vida saudável.
O peso, em diferentes etapas da gestação, pode ser usado pelos obstetras como monitoramento da saúde da mulher. "Depois de 28 semanas, um sinalzinho de alerta pode ser a mulher ganhar mais do que 500 gramas por semana", diz Lajos.
Até 2021, o Ministério da Saúde utilizava as recomendações da Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos (antigo Instituto de Medicina Americano). Para quem engravidava com IMC (índice de massa corporal) normal, a faixa era de 11,5 kg a 16 kg. Hoje, a recomendação brasileira para esse grupo é de 8 kg a 12 kg.
Sobre o mito de que a grávida deve "comer por dois", Lilian de Paiva, presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência Pré-Natal da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), diz que o gasto metabólico aumenta ao longo da gestação. Isso, porém, não significa comer dobrado, mas comer melhor.
"É preciso combater dois extremos que considero prejudiciais: a ideia de que a gestante pode comer sem limites porque está grávida e, no outro extremo, o medo de ganhar peso que leva à restrição alimentar."
É preciso combater dois extremos que considero prejudiciais: a ideia de que a gestante pode comer sem limites porque está grávida e, no outro extremo, o medo de ganhar peso que leva à restrição alimentar
Os desejos típicos da gestação não devem ser vilanizados, mas precisam ser equilibrados em uma dieta balanceada, afirma Paiva. "O que determina a qualidade nutricional da dieta é principalmente o padrão alimentar ao longo do tempo, e não um alimento ingerido de forma isolada."
Abordagens do peso variam entre países
Capecce e Rangel, que vivem fora do Brasil, comparam como a gravidez e o peso gestacional são tratados no exterior.
Rangel afirma que o Brasil tem recomendações nutricionais mais rigorosas do que o Reino Unido, onde trabalha. "Até pouco tempo atrás, o NHS, Serviço Nacional de Saúde daqui, não recomendava nenhuma discussão sobre peso gestacional e nem indicava que grávidas fossem pesadas."
Capecce teve recentemente um filho no Canadá e, antes disso, uma gestação no Brasil. A diferença foi notável para a psicóloga. "No Brasil e em outros lugares da América Latina, talvez na Coreia do Sul, há essa pressão estética muito grande."
Ela conta que, na primeira gravidez, no Brasil, seu peso era acompanhado de perto pela equipe médica, com recomendação de manter o limite de ganhar 1 kg por mês. No Canadá, muitas vezes, o peso não era mencionado nas consultas.
A psicóloga diz que a busca pela gravidez "só na barriga" e outros conteúdos do tipo nas redes sociais podem ser lidos como controle social da mulher.
"No momento em que você olha apenas se o bíceps da gestante está tonificado, se a mulher está ganhando mais ou menos peso, você tira o foco principal de quão poderoso é o gestar."
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