Por que reaproximação da Espanha com China provoca tensões na União Europeia

- Author, Katya Adler
- Role, Editora de Europa da BBC News
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Tempo de leitura: 11 min
Nas ruas de Barcelona, na Espanha, dragões chineses em vermelho e dourado dançavam em meio à multidão — provavelmente com pessoas suando bastante dentro das fantasias. Acrobatas chineses arrancavam expressões de espanto ao fazer lanternas esféricas rolar, girar e voar pelo ar. Como num passe de mágica, a vela dentro de cada uma permanecia sempre na vertical.
Nesta semana, a cidade chinesa Xangai fez história ao se tornar a primeira metrópole asiática escolhida como cidade de honra do La Mercè, o famoso e animado festival cultural de Barcelona. Os grandes desfiles de rua da festa tradicionalmente celebram costumes catalães centenários. Por isso, chamava a atenção a presença dos artistas chineses, com suas roupas coloridas, ao lado dos gaiteiros catalães vestidos de veludo. Nas principais avenidas da cidade, as melodias medievais dos gaiteiros se misturavam à música suave que acompanhava os grupos chineses.
O vice-prefeito de Xangai, Lu Shan, foi a Barcelona para discursar na abertura do La Mercè. As tradições culturais chinesas e catalãs têm formas diferentes, afirmou, mas compartilham "um espírito comum".
Espanha e China vivem um período de aproximação e simpatia mútua. Mas esse clima amistoso está longe de ser compartilhado pelo restante da União Europeia.

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, visitou o presidente chinês, Xi Jinping, quatro vezes em quatro anos. Desde a reeleição do colega americano Donald Trump, há dois anos, Sánchez defende que toda a União Europeia melhore suas relações com a China.
A iniciativa de Sánchez provocou ressentimento e desaprovação entre vários parceiros europeus, que veem a China como um rival estratégico e uma possível ameaça geopolítica à União Europeia. Em conversas reservadas, eles questionam se a postura receptiva do governo espanhol, ao abrir seu mercado às empresas chinesas, também está permitindo que a China se torne um inimigo econômico dentro do bloco.
Sánchez não é o único líder europeu a seguir um caminho próprio. Diante da instabilidade mundial, outros países do bloco se sentem pressionados e vulneráveis, sem saber se podem contar com os EUA sob Trump. As políticas comerciais e de defesa do presidente americano são vistas como imprevisíveis e, por vezes, agressivas. Nesse cenário, os países da União Europeia buscam parceiros estratégicos que consideram adequados às suas necessidades nacionais, mesmo que essas escolhas afastem ou irritem outros integrantes do bloco.
Essas novas alianças podem comprometer de forma permanente a unidade da União Europeia ou até da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)?
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Alemanha e França, as duas maiores potências da União Europeia, acabam de se unir em defesa de uma postura mais dura em relação à China. Querem dar à União Europeia instrumentos para barrar a entrada, no mercado europeu, de concorrentes chineses que recebem subsídios. O objetivo é conter o crescente desequilíbrio comercial com a China, que, segundo a Comissão Europeia, já chega à expressiva cifra de € 1 bilhão por dia (cerca de R$ 5,6 bilhões).
Outros países da União Europeia se preocupam com os laços estreitos entre China e Rússia. A China nega ajudar a Rússia na guerra na Ucrânia, mas especialistas em defesa apontam que o apoio tecnológico e econômico chinês tem permitido à Rússia manter sua ofensiva militar.
Por isso, ao buscar com entusiasmo uma aproximação com a China, a Espanha é acusada de colocar seus próprios interesses à frente dos interesses europeus.
"É um pouco como a questão do ovo e da galinha: a Espanha se afastou dos aliados europeus ou eles se afastaram de nós?", questiona Victor Cortizo, advogado e acadêmico especializado nas relações entre China e Espanha.
E ele mesmo tem uma resposta: "Acho que fomos nós. Foi a Espanha. Mas por razões legítimas. A política é também uma questão de pragmatismo. Se a aproximação com a China atrai investimentos chineses e fortalece minha economia, ela é mais interessante do ponto de vista estratégico do que apoiar aliados que também só cuidam dos próprios interesses."
Cortizo conversou com a BBC em um local cercado por pilhas de caixotes no ponto final da mais longa ligação ferroviária de cargas do mundo. O trajeto percorre mais de 13 mil quilômetros entre Yiwu, no leste da China, e Madri. Os trens levam principalmente peças de automóveis e produtos elétricos à Espanha e, na volta, transportam iguarias como presunto espanhol e vinho tinto à China. A ligação simboliza a expansão das relações entre os dois países.
"Nosso primeiro-ministro decidiu priorizar os ganhos para o país em relação aos laços com a União Europeia", disse Cortizo. "Só no último ano, o investimento chinês na Espanha dobrou."
Investimento chinês em alta
Segundo a Icex, agência de comércio e investimentos do governo espanhol, os investimentos chineses na Espanha crescem rapidamente, impulsionados sobretudo pela construção de grandes fábricas de baterias e de automóveis.
Cortizo acredita que a Espanha pode se tornar o destino preferido da China para investimentos na Europa, agora que a Hungria já não é governada por Viktor Orbán, um defensor da aproximação da União Europeia com a China. Durante seu governo, a Hungria ficou conhecido como a "porta de entrada da China na Europa".
"O investimento dos EUA está caindo, e o da China está ganhando importância por aqui", disse Cortizo.
Os EUA continuam sendo o maior investidor estrangeiro na Espanha, mas o investimento líquido caiu cerca de € 1 bilhão (aproximadamente R$ 5,6 bilhões), segundo o Ministério da Economia espanhol.
A sociedade espanhola hoje vê a China de forma muito mais favorável do que os EUA, seu aliado tradicional. Segundo uma pesquisa do Pew Research Center publicada neste verão europeu, 54% dos espanhóis disseram ter uma opinião favorável da China, ante 30% que viam os EUA de forma positiva.
Cortizo disse à BBC que a China facilita o comércio, enquanto os EUA o tornaram muito mais difícil, tanto pelas tarifas de Trump quanto pelos efeitos da guerra no Irã. Os espanhóis também têm visto o presidente americano ameaçar seu primeiro-ministro com sanções econômicas quando ele se recusa a atender às exigências de Trump: elevar os gastos com defesa a 5% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país) ou permitir o uso de bases americanas na Espanha em ataques ao Irã.
Por isso, muitos espanhóis consideram a China mais confiável do que os EUA.
Há dois anos, quando a Chery Automobile, uma das grandes fabricantes chinesas de automóveis, escolheu a Espanha para instalar seu primeiro centro de produção e operações na Europa, a iniciativa deu nova vida à marca espanhola Ebro, então inativa.
"As empresas chinesas estão investindo na fabricação de automóveis na Espanha e preenchendo as lacunas que tínhamos", disse Cortizo.
Os críticos, no entanto, temem que a instalação de fábricas chinesas em território espanhol enfraqueça o mercado único da União Europeia.
Além da Chery, em Barcelona, a Hithium, empresa chinesa que fabrica baterias e sistemas de armazenamento de energia em instalações fixas, planeja investir em Navarra, no norte da Espanha. Já a fabricante de baterias CATL participa da construção de uma grande fábrica de baterias de fosfato de ferro-lítio em Zaragoza, cerca de 320 quilômetros a oeste de Barcelona.
Os críticos temem que esses projetos façam parte dos esforços das empresas chinesas para produzir dentro da União Europeia e, assim, evitar as tarifas sobre a importação de veículos elétricos chineses.

Crédito, Reuters
Miguel Otero, especialista em China do Instituto Real Elcano, em Madri, acusa os aliados europeus da Espanha de tratar o país com superioridade e hipocrisia.
"França, Itália e Alemanha têm, cada uma, sua própria relação estratégica com a China", disse Otero. "A Espanha não está indo muito além. Conseguiu alcançar esses países."
Segundo Otero, agora que a Europa já não pode contar plenamente com os EUA, a prioridade da Espanha é diversificar suas relações. O país quer fazer negócios com a China, mas também com Canadá, Brasil, Índia e países africanos. A Espanha não está obcecada pela China, disse.
Mas há também a questão da segurança.
Em sua visita mais recente à China, em abril, o primeiro-ministro Sánchez se reuniu com o fundador da fabricante chinesa de turbinas eólicas Ming Yang. A empresa acabava de ter barrado, por razões de segurança nacional, seu projeto de abrir na Escócia a maior fábrica de turbinas eólicas do Reino Unido.
Antes desse encontro, um contrato firmado pelo Ministério do Interior da Espanha com a gigante chinesa de tecnologia Huawei havia provocado reação negativa na União Europeia. O acordo, fechado no ano passado por € 12,3 milhões (cerca de R$ 68,9 milhões), previa que a empresa armazenasse e gerenciasse dados sensíveis obtidos por meio de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça.
Deputados de vários grupos políticos do Parlamento Europeu afirmaram que o contrato espanhol poderia colocar toda a União Europeia em risco.
"Ao recorrer a um fornecedor de alto risco... não corremos apenas o risco de um vazamento de dados restrito a um país, mas de comprometer todo o compartilhamento de informações de inteligência na Europa", disse em fevereiro Markéta Gregorová, eurodeputada do Partido Pirata tcheco, que integra o grupo dos Verdes no Parlamento Europeu.

Crédito, Reuters
Juan Ignacio Zoido Álvarez, integrante do principal partido de centro-direita da oposição espanhola, afirmou que a decisão coloca "toda a União Europeia em risco".
O Ministério da Defesa da Espanha continua negando que haja qualquer risco. Julianne Smith, ex-embaixadora dos EUA na Otan e cofundadora da consultoria de estratégia geopolítica Clarion Strategies, alerta que o episódio pode comprometer seriamente a coesão europeia.
"À medida que os países da União Europeia procuram maneiras de reduzir a dependência do que alguns consideram ser EUA imprevisíveis e pouco confiáveis, precisam tomar cuidado para não correr em direção a alternativas que possam enfraquecer a posição do bloco como um todo", afirmou Smith à BBC.
"Algumas dessas relações em expansão, como a aproximação cada vez maior do Canadá com a União Europeia, podem trazer benefícios concretos", acrescentou Smith. "Outras, como a decisão da Espanha de estreitar os laços com a China, podem prejudicar ainda mais a capacidade da União Europeia de agir de forma coordenada e aumentar os riscos de segurança tanto para a Espanha quanto para o restante da Europa."
Novas alianças em formação
A Espanha está longe de ser o único país da União Europeia a buscar alianças controversas.
A Finlândia, que compartilha uma fronteira terrestre de 1.300 quilômetros com a Rússia, passou a se sentir ainda mais vulnerável desde a invasão russa em larga escala da Ucrânia, em 2022.
O país já tem o maior número de armas de fogo em mãos de civis por habitante da União Europeia e o maior contingente de reservistas tanto do bloco europeu quanto da Otan. Sob suas pontes, construiu cavidades que podem receber explosivos caso veículos blindados russos entrem em seu território. Para os finlandeses, a preparação militar é uma questão de sobrevivência.
Em 2022, o governo finlandês concluiu que o país estaria mais seguro em uma aliança militar. Abandonou sua tradicional neutralidade estratégica e acelerou a adesão à Otan.
Agora, há receio de que os EUA não cumpram a cláusula de defesa mútua da aliança caso um dos países-membros seja atacado.
Com menos confiança de que receberia ajuda dos EUA em caso de necessidade, a Finlândia recorreu a Israel para comprar equipamentos militares avançados, entre eles o sistema de defesa aérea conhecido como David's Sling e os mísseis antitanque Spike.
A Finlândia renovou seu contrato com Israel no auge da recente guerra em Gaza, apesar de o governo finlandês ter manifestado publicamente fortes ressalvas à atuação israelense nos territórios palestinos ocupados por Israel. A renovação ocorreu num momento em que muitos outros países da União Europeia também manifestam profundo desconforto ou insatisfação com as políticas e ações de Israel em Gaza e na Cisjordânia.
"Há na Finlândia a sensação de que nem sempre podemos nos dar ao luxo [de assumir] uma posição de superioridade moral. Sobreviver tem um preço", afirmou Minna Alander, pesquisadora do Programa de Defesa e Segurança Transatlântica do Centro para Análise de Políticas Europeias (Cepa).
"Os finlandeses e os partidos de oposição questionam se querem apoiar a indústria de defesa de Israel [por causa de suas ações em Gaza e na Cisjordânia], mas o governo finlandês tem evitado esse debate e afirma que o acordo com Israel atende às necessidades da Finlândia", disse Alander à BBC.
No fim das contas, afirmou Alander, seus compatriotas têm "uma postura menos sentimental".
A mudança de posição da Grécia
A Grécia também se sente ameaçada por um vizinho muito maior: a Turquia. O país a considera um "perigo constante e significativo para sua segurança nacional e soberania", afirmou Nick Malkoutzis, cofundador do site de análise política MacroPolis, à BBC.
No passado, os EUA mediavam as disputas entre os dois países, ambos membros da Otan. Mas, sob Trump, fontes ligadas à aliança afirmam que os EUA são cada vez mais vistos como ausentes da atuação política e diplomática, com a atenção voltada para outras questões.
No fim de agosto, Grécia e Israel assinaram um dos maiores acordos de exportação de armamentos da história dos dois países. Chamado Achilles Shield (Escudo de Aquiles, em tradução livre), o acordo prevê o fornecimento de tecnologia israelense à Grécia para protegê-la de ameaças como drones, aeronaves e mísseis.
A causa palestina tem uma longa tradição de apoio popular na Grécia, onde muitos veem com desconfiança a aproximação com Israel. Ainda assim, segundo Malkoutzis, do MacroPolis, a reação dos políticos e da população ao "mega-acordo" foi "mais discreta do que se poderia esperar".
Para Malkoutzis, a explicação está no entendimento de que a Grécia precisa reforçar sua segurança diante da Turquia, uma prioridade que se sobrepõe às demais questões.
Como Israel é um aliado próximo dos EUA, a Grécia também espera que a compra de equipamentos israelenses ajude a manter uma boa relação com os EUA, mesmo em um período de turbulência.
Mas é um equilíbrio delicado. Segundo Malkoutzis, tanto a Grécia quanto a Finlândia querem ser vistas como países comprometidos com o projeto europeu e dispostos a contribuir para os esforços conjuntos do continente.
Malkoutzis afirmou que, quando os países da União Europeia "correm em todas as direções" em busca de soluções próprias, fica mais difícil chegar a uma posição comum e coordenar ações de defesa e segurança. Isso contraria justamente o que as instituições da União Europeia e a Otan dizem buscar.
Ainda assim, a formação de grupos menores de países europeus para defender interesses comuns não é novidade. O E3, que reúne Reino Unido, Alemanha e França, surgiu em 2003 para coordenar as negociações diplomáticas com o Irã em busca de um acordo nuclear. Hoje, funciona sobretudo como um canal informal de diálogo entre as três maiores potências militares e econômicas da Europa.
Os países nórdicos e do Ártico também têm mecanismos próprios de cooperação em defesa. O Grupo de Visegrado, formado pela República Tcheca, Hungria, Polônia e Eslováquia, atuou por muitos anos como um conhecido bloco de pressão dentro da União Europeia.
Mas a Otan e a União Europeia avaliam que o continente enfrenta uma pressão sem precedentes desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45). Seus líderes defendem que o momento exige uma frente unida.
De um lado, a Rússia, com sua postura agressiva e o apoio da China, representa uma ameaça crescente. De outro, os EUA, por décadas o principal aliado externo da Europa, parecem, na melhor das hipóteses, voltados para outras prioridades.
Na avaliação dessas lideranças, a fragmentação da Europa e a multiplicação de alianças entre pequenos grupos de países só beneficiariam os adversários do continente. China e Rússia acompanham de perto esses movimentos.
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