Do caso Evandro aos novos detetives: como Ivan Mizanzuk concluiu seu novo livro
Quando se imagina um detetive na vida real, é possível imaginar alguém com um sobretudo, lupa na mão e chapéu combinando. Talvez carregando um monóculo ou um relógio de bolso, como nos clássicos da literatura mundial envolvendo a obra de Sir Arthur Conan Doyle e seu histórico Sherlock Holmes. Esse não é Ivan Mizanzuk.
Jornalista, escritor e podcaster, Ivan se tornou um dos principais nomes associados ao caso Evandro.
O desaparecimento e assassinato de Evandro Ramos Caetano, em 6 de abril de 1992, chocou não apenas a cidade de Guaratuba, mas todo o Brasil. Com apenas 6 anos, o menino sumiu no trajeto entre a sua casa e a escola, e teve seu corpo encontrado 5 dias depois em um matagal.
Quase três décadas depois, a quarta temporada do Podcast Humanos foi lançada, recontando o caso. O projeto de Ivan logo evoluiu para literatura e a investigação levou a diferentes direções; entre elas estava a história de Leandro Bossi, que se tornou o capítulo final da trilogia Crianças.
Leandro, assim como Evandro, desapareceu em Guaratuba em 1992, aos 7 anos. Sua morte, no entanto, só foi confirmada em 2022, após décadas de falhas na investigação e na análise do DNA encontrado na ossada do menino.
"Quando eu terminei o caso de Altamira e a parte da Valentina, o caso de Guaratuba avançou pelo lado do Leandro, que era o mais inesperado. Achei que era um bom jeito de fechar a trilogia e tentar resolver", explica Ivan em conversa com a EXAME. "Sempre que eu lançava alguma coisa, ou as pessoas a série, ou algo do tipo, me diziam: 'Tá, beleza, eles são inocentes, mas, então, quem matou? É nesse livro que eu tento quem matou Evandro.'"
O peso da pergunta e de sua busca pela resposta não é algo que abala Ivan. O autor afirma que sente raiva e se emociona com os acontecimentos de suas investigações, mas "cai de cabeça e vai tranquilo na busca por entender o que aconteceu".
Seu trabalho é a prova disso. Ivan apresenta entrevistas, documentos e observações sobre cada informação que é desvendada e, nos dois primeiros livros, cria um acervo bibliográfico completo do caso Evandro.
Toda essa pesquisa é base para "O caso Leandro Bossi", obra lançada na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O livro é menor e mais dinâmico do que os anteriores, principalmente pela falta de investigação por parte das autoridades na época.
"Não tem tanta revisão de documento técnico para reconstruir tudo do zero, mas o caso e o inquérito são curtos. Então, não há parte do trabalho de ação. Acho que é um livro mais dinâmico e ágil do que os outros, que são mais pesados. A experiência é leve e divertida", descreve o autor.
Enquanto a leitura do trabalho de Ivan pode ser descrita como leve e divertida, seu trabalho nos bastidores pode ter um tom mais sombrio, que o público não vê.
"Eu acho que esse é o trabalho mais interessante que eu posso fazer. A gente vai falar de um crime, uma coisa horrível que aconteceu, então vamos tentar explorar lados que não apareceram nos jornais. A complexidade das emoções humanas e das relações", revela.
Em um mundo em que o True Crime está cada vez mais em alta como entretenimento, uma reflexão sobre o problema que aquele crime representa parece ser o tipo de consumo ideal para Ivan, que afirma não acompanhar conteúdos do gênero.
Como o responsável por um dos maiores podcasts criminais do Brasil não tem interesse em conteúdo de True Crime? Para Mizanzuk, uma coisa não está ligada a outra.
"Eu gosto de pesquisar e de mistérios. O caso Evandro sempre foi um que me instigava e que parecia ter muitos problemas", explica. "A ideia do podcast era estética; eu queria algo que criasse um efeito nas pessoas, mas esse sentimento acabou na primeira entrevista."
O senso estético foi substituído pela vontade de investigar e de resolver aqueles crimes. E a ideia do podcast deu certo.
"Eu nunca gostei de brincar de detetive, polícia e ladrão, ou qualquer coisa que envolvesse charadas. Sempre fui muito ruim no lúdico", conta Ivan. "Mas na vida real dá certo. Eu consigo fazer coisas muito legais."
"O Caso de Leandro Bossi: A investigação que não aconteceu" foi publicado pela HarperCollins.
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