Jesus ou Cristiano? Escolho vem aí o diabo

Antes de mais, e porque anteontem foi 5 de outubro, viva a República! Ou será “viva, a República?” Ao nosso excelentíssimo Presidente da dita pode não se vislumbrar mais nenhuma virtude além da de demonstrar, através da sua “acção”, como uma simples vírgula pode mudar todo o sentido de uma frase. Mas, isso, ninguém lhe tira.
Vem isto a propósito de mais um inspirador discurso de António José Seguro, do qual se destacou o premente apelo a uma “nova cultura política”, a inaudita crítica ao eterno “voltar ao início” a cada mudança de legislatura, e o elogio ao entendimento AD/PS para o Orçamento do Estado. Ou seja, Seguro apela a uma nova cultura política e critica o eterno voltar ao início, enquanto elogia o tipo de entendimento AD/PS que cristaliza uma caquética cultura política e nos condena a um eterno nunca sair do mesmo sítio.
Para Seguro, a alternância democrática é mesmo óptima, desde que respeite duas condiçõezinhas de nada: a primeira é que a alternância seja, idealmente, entre PSD e PS; a segunda é que, seja a alternância entre quem for, é fundamental, não a apresentação de propostas políticas distintas, não a concorrência entre ideias, mas o consenso. Com sonsos destes em Belém, pelos vistos o máximo a que podemos aspirar é uma “democracia” de “partido único”. A haver por aqui vestígios de República, será mais da Segunda…
Não é à toa que, à conta de nunca se lhe ter notado vontade de fazer algo que contribua para a melhoria da vida dos portugueses, há quem chame a Seguro o Renitente da República. “A sério? Mas quem é que lhe chama isso?” Hum… Pois, é possível que seja só eu. E que tenha acabado de acontecer pela primeira vez.
A propósito de chefes de Estado: no Brasil é bem possível que o próximo seja Flávio Bolsonaro, que venceu a primeira volta contra o Lula. Confesso a minha surpresa com este resultado que deixou o país praticamente dividido entre os dois candidatos. Como (mais do que) consta — (mais do que) alegadamente — que o Lula roubou tudo o que havia para roubar no Brasil, nunca esperei ver tanta coisa ficar para um dos Bolsonaros juniores. Lula é bem capaz de ter reinventado o provérbio popular: “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é porque não há mesmo mais nada para fanar, ou não tem arte.”
É como os franceses, que parecem ter perdido toda a arte, menos a que tornaram célebre na Segunda Guerra Mundial: a de se renderem. Estes são dias do acenar de uma bandeira branca simbólica, exibida às forças da aliança entre a esquerda revolucionária e os extremistas islâmicos, apostados em transformar a França numa versão pouco apetitosa de crème brûlée.
Já a arte que levou o país a co-criar o Concorde, essa, foi à vida em velocidade supersónica. Mas não irremediavelmente, calma. As imagens que têm chegado de França das “manifestações” de “estudantes” em “protesto por melhores condições nas escolas” mostram que as jovens promessas de engenheiros gauleses já estão bem avançadas, pelo menos, no que respeita ao domínio do fogo. Não há nada a que não toquem fogo, incluindo a cara de uma senhora que tentou impedir, xenofobamente, a destruição de uma paragem de autocarro. Vão ver: neste momento está dominado o fogo; mais umas décadas e talvez já consigam levar a cabo uma agricultura de subsistência; e mais, quê?, 10, 12 mil anos ainda reinventam o Citroën 2CV. Deixem-nos terraplenar!
Por falar em “dois cavalos”, em Espanha, o chefe de governo, Pedro Sánchez, bem tentou cavalgar o caso Maricarmen — a famosa idosa desalojada — num derradeiro esforço para unir a mistura, literal e metaforicamente explosiva, de comunistas, terroristas e separatistas (mas talvez me repita) que suportam o seu governo, que já ninguém suporta. A cavalgada, épica como só umas voltas no cavalinho do carrossel, culminou com a convocação de eleições antecipadas, que podem pôr fim a oito anos de ciclo socialista em Espanha.
E o que já aprendemos sobre longos ciclos socialistas? Que não é preciso termos medo que venha lá o diabo. Não, o mafarrico já cá está há muito tempo, a ganhar corpinho atrás das cada vez mais inflamáveis pilhas de dívida, qual proteína hidrolisada para o belzebu, só à espera do mais pequeno espirro da economia mundial, sob a forma, por exemplo, de uma forte subida dos juros para aparecer em todo o seu esplendor. E aí, onde estarão os socialistas? Já terão abandonado o local, com a celeridade de um Cristiano Ronaldo.
Já agora, da polémica do Cristiano com Jorge Jesus, destaco o que achei mais giro: de repente, ver tanta da malta que acha condição suficiente para ser português aparecer na AIMA em dia à escolha das 9 às 17, tão empolgada na defesa do que crê ser o superior interesse da Selecção Nacional.
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