Lens vence PSG e conquista Supertaça Francesa

O futebol francês abria a temporada 2026/27 com uma Supertaça em jogo e um encontro de gerações entre os dois melhores clubes da última Ligue 1. No Stade Bollaert-Delelis, em Lens, o campeão PSG defrontou o vencedor da Taça de França num Trophée des Champions que opôs, pela primeira vez desde 2011, os dois primeiros classificados do campeonato anterior.
Os parisienses chegaram ao norte de França com um título já no bolso antes do apito inicial. Na quarta-feira anterior, em Salzburgo, tinham batido o Aston Villa por 2-1 e conquistado a Supertaça Europeia, com golos de Kvaratskhelia e Doué. Era o segundo título consecutivo na prova e um sinal claro de que Luis Enrique mantinha a equipa em modo competitivo apesar do verão atribulado. Na conferência de imprensa de antevisão, o técnico espanhol optou pelo humor quando pressionado a revelar o onze: “O que querem que diga? Que dê pistas ao adversário? Tenho de falar com a minha mulher para saber quem vai jogar“, afirmou, sorridente, antes de adotar um tom mais sério: “Amanhã vamos jogar um dos jogos mais difíceis da época contra o Lens, num estádio incrível”.
Do outro lado estava um Lens diferente do de anos anteriores. Em maio, o clube tinha conquistado pela primeira vez na sua história a Taça de França, ao bater o Nice por 3-1 na final. A classificação para a Liga dos Campeões — a primeira desde 2023/24 — e a chegada do novo treinador Dino Toppmöller, que substituiu Pierre Sage após este ter partido para o Crystal Palace, davam ao clube do norte de França uma dimensão nova. Na antevisão, Toppmöller não fugiu à realidade, mas também não se rendeu: “Sabemos que o PSG é o favorito. São campeões, e os campeões estão sempre prontos. Mas disse à minha equipa que nós também estaríamos. Temos de mostrar que não temos medo de ninguém“, afirmou.
Luis Enrique apresentou um PSG sem João Neves, não convocado, e com Nuno Mendes no banco — dois habituais titulares. Para o meio-campo, o técnico espanhol escolheu Vitinha, que continua a ser peça central no jogo parisiense, independentemente da competição. Do outro lado, Toppmöller apostou numa linha de cinco atrás. Para a frente escolheu, além de Sima, o ex-Marselha Thauvin e Franjo Ivanovic — cedido pelo Benfica aos franceses. No banco do Lens sentou-se ainda Mezian Soares, médio de 16 anos, filho de pai argelino e mãe portuguesa, nascido em França e internacional pelas seleções jovens de Portugal — o mesmo jogador que, em maio, marcou ao primeiro toque na estreia profissional, aos 79 minutos frente ao Nantes, o golo que valeu ao Lens a qualificação para a Liga dos Campeões.
Se os homens da casa estavam na prova milionária, do outro lado encontravam não só um homólogo, como o detentor do troféu das últimas duas edições da Liga dos Campeões. As diferenças confirmavam-se em campo: nos minutos iniciais, a equipa visitante repetia com alta frequência as presenças na área contrária, com destaque para uma arrancada de Akliouche, que viu Nawrocki evitar que a bola fosse ao encontro da baliza de Risser, quando o atleta do PSG estava praticamente isolado e em boa posição para mudar o resultado pela primeira vez. O defesa polaco conseguiu evitar o primeiro golo do jogo e anular a melhor oportunidade dos primeiros 20 minutos de Supertaça Francesa. A espaços, o Lens tentava responder nos entretantos, com as saídas a terminarem muitas vezes no corredor esquerdo, de onde Ivanovic partia. A primeira tentativa resultou num cruzamento inconsequente. Na segunda, aos 24 minutos, Ivanovic conseguiu ganhar espaço para fletir para o corredor central e, já à entrada da área, puxar para o pé direito, mas nunca chegou a conseguir rematar nesse lance.
Mas não era preciso mais do que um ou outro sinal de vida para transformar as investidas à vez numa realidade que sorria às pretensões do Lens. Matthieu Udol recebeu a bola à entrada da área parisiense e acabou por não conseguir a melhor execução no remate, que saiu enrolado. O pontapé transformou-se num cruzamento rasteiro ao segundo poste. Só Thauvin acreditou que podia reaproveitar o esférico. Nem os seus colegas, nem os seus adversários. Só ele. E só ele correu para o caminho daquela bola que, a curta distância do alvo, só precisou de encostar para adiantar a equipa da casa e colocá-la mais perto da Supertaça. Aos 32 minutos, o favorito não deixava de ser favorito. Mas era o underdog quem vencia.
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Não houve muito tempo para o Lens celebrar. Não porque houve um golo do adversário, mas porque aos 39 minutos Kyllian Antonio viu um cartão vermelho direto depois de fazer uma falta sobre Akliouche no meio-campo. Já estava a ser difícil lidar com os campeões europeus no onze para onze. A partir dali, tornava-se ainda mais complicado. Mesmo com um Lens mais desnorteado por ter menos uma unidade, a verdade é que o PSG não conseguiu capitalizar na primeira parte essa expulsão. Mas esteve perto, quando Doué atirou à trave da baliza de Risser, num lance em que o avançado francês tinha pouco ângulo de remate, a segundos do intervalo. A equipa da casa misturou crença com felicidade e seguiu para os balneários em vantagem.
A segunda parte trazia a mesma tónica, mas com uma intensidade ainda maior, agora que o Lens se apresentava com menos uma unidade para toda a etapa complementar. O domínio territorial era ainda mais vincado e, agora, com a presença do Ballon d’Or Dembélé em campo, que entrou com Nuno Mendes à hora de jogo. O lateral português entrou com uma das melhores oportunidades do PSG, a aparecer em zonas de ponta de lança para atirar de pé esquerdo para um notável defesa de Risser, em quem o Lens ia fiando a vantagem quando a boa organização defensiva dos da casa sucumbia à desorganização ofensiva intencional dos visitantes.
Mas, mesmo antes desse lance, foi uma vez mais Thauvin a servir de contrapeso a um PSG cada vez mais balanceado na frente e a um Lens remetido à sua baliza. O número 10, já sem Ivanovic em campo, conseguiu espaço numa resposta rápida pelo corredor central e, a menos de 30 metros da baliza, acabou por atirar ao lado, com um Bollaert-Delelis em bruá como pano de fundo. Entre o sofrimento de esperar que o PSG não marcasse e as repetidas investidas parisienses, o Lens continuava, como e quando podia, a visar a baliza de Safonov, embora com muito menor frequência face ao que conseguiu na primeira parte.
Aos 76′ um choque de realidade: uma bola enviada para Doué, nas costas da defesa anfitriã, deixou o Bollaert-Delelis. Na discussão do lance estava apenas Risser, Doué e Fabian Ruiz. Doué deixou para Ruiz que, de baliza aberta, atirou para o empate. Afinal não era a realidade, era um fora-de-jogo. Segundos depois de a bola entrar, a bandeirola do assistente levantou. A casa do Lens entrou em festa como se de um golo se tratasse. A festa duplicou quando o VAR confirmou a decisão. Ainda antes, Dembélé já tinha ameaçado o empate, mas Risser, atento, protagonizou uma boa intervenção. Minutos depois do golo anulado, o mesmo Dembélé, na cara do golo, já dentro da pequena área e sem qualquer marcação, acabou por desperdiçar a melhor oportunidade dos visitantes, que passavam a ter Rayan Fofana no papel de contrapeso, depois de Thauvin ter saído aos 75′. E foi com Fofana que o Lens esteve perto de dilatar a vantagem, depois de um movimento de transição rápida, à boleia do ritmo do jovem avançado francês, que serviu o polaco Michal Skoras, que chegou à área mais tarde e atirou a centímetros do poste direito da baliza do PSG.
Aos 87′, uma grande festa em Lens. Outra vez, não por um golo, mas porque Nuno Mendes deu uma cotovelada na cara de um adversário, num momento em que a bola estava longe do português, e foi expulso. Curiosamente, também na zona central do terreno. Com o moral mais elevado e agora com o mesmo número de jogadores que o adversário, o Lens chegou mesmo a colocar a bola na baliza de Safonov outra vez, mas a equipa de arbitragem já tinha interrompido o lance, devido a uma falta de Vitinha sobre Fofana.
O apito final de Jérémie Pignard transformou o Bollaert-Delelis num caldeirão de alegria. O Lens segurou o 1-0 até ao fim e conquistou o Trophée des Champions pela primeira vez na sua história — juntando ao troféu inédito da Taça de França conquistado em maio e à qualificação para a Liga dos Campeões. O todo-poderoso PSG, bicampeão europeu, campeão francês e vencedor da Supertaça Europeia há apenas quatro dias, saiu de mãos a abanar do norte de França. Thauvin, o homem que acreditou quando ninguém acreditou, ficou como o símbolo de uma tarde-noite em que o futebol lembrou que os underdogs não precisam mais do que apenas sinais de vida para ganhar, independentemente do adversário.
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En infériorité numérique pendant 50 minutes, mais solidaires de bout en bout, les Sang et Or dominent le champion d'Europe en titre et remportent le premier #TrophéeDesChampions de l'histoire du club. Bravo Messieurs ! ???? #RCLPSG pic.twitter.com/iwkhe8T7Sl
— Racing Club de Lens (@RCLens) August 16, 2026
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