'Não estamos dispostos a voltar pra casa', diz presidente da UNE sobre atos

Nas três semanas entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial ao menos 200 atos de estudantes tiveram a participação da UNE. Ainda não há um levantamento oficial porque, segundo Bianca, alguns foram totalmente orgânicos.
O retorno às ruas já está marcado para hoje (1), com seis manifestações convocadas em comemoração à vitória e em defesa da soberania do Brasil com "s" —em referência ao erro contido na carta divulgada pelo candidato derrotado Flávio Bolsonaro. Em São Paulo, os estudantes vão se reunir na Praça Roosevelt, a partir das 12h.
Após a festa, o ritmo deve ser reduzido e escalar diante do debate de projetos de interesse ao país, especialmente na área da educação.
Tivemos no governo Lula 3 avanços importantes para o ensino superior, mas o nosso horizonte vai além. Queremos, por exemplo, criar a tarifa zero no transporte para os estudantes a semana inteira e aprovar a regulamentação do ensino superior privado, hoje nas mãos de conglomerados de capital estrangeiro.
'Pé-de-Meia universitário não é suficiente'
Anunciada às vésperas do segundo turno, a universalização do Pé-de-Meia para as universidades públicas é proposta bem-vinda pela líder estudantil, mas ela destaca que oferecer uma "bolsa" não é suficiente para manter os alunos na universidade.
Nós somos mais ambiciosos. Para ter permanência, a gente precisa pensar em um ecossistema maior, com restaurantes universitários de baixo custo em todos os campi, por exemplo, e moradia estudantil digna, além do passe livre

Ampliar o orçamento para as universidades federais é outra demanda considerada urgente, segundo Bianca. Ao longo deste ano, a UNE reivindicou um aporte extra de quase R$ 2 bilhões para suprir uma série de déficits observados no dia a dia que não foi atendido. Para 2027, a demanda deve se repetir.
Já estamos estudando a proposta orçamentária para o próximo ano. A educação não pode ser vista como secundária, como uma despesa a ser cortada ou alvo de ajuste fiscal. A educação é estratégica para o desenvolvimento econômico, científico e industrial do nosso país, mas é também um elemento imprescindível para que a defesa da soberania não seja só um slogan.
Acostumada a "brigar" por melhorias desde os 14 anos, quando iniciou sua trajetória como líder estudantil na ETEC (Escola Técnica Estadual) de Praia Grande, na Baixada Santista, Bianca considera que a sensação de se sentir pertencente a um movimento coletivo foi a chave para conquistar a confiança dos jovens durante a jornada do segundo turno.
A gente fala que começa na luta para consertar o bebedouro da escola e, de repente, estamos na luta pela defesa da democracia, da soberania, da integração latino-americana. O pertencimento, sem dúvidas, é fundamental para o engajamento das pessoas.
'Diretas Já, Caras-Pintadas e a Passeata dos Cem Mil serviram de inspiração'
De acordo com Bianca, mobilizações populares que contaram com a participação de estudantes em diversos momentos da história brasileira serviram de inspiração para a organização dos atos e o convencimento das pessoas a sair às ruas.
Quando iniciamos tudo isso nos inspiramos nas Diretas Já, nos caras-pintadas e na Passeata dos Cem Mil, durante a ditadura militar. Estamos muito felizes em saber que a nossa geração protagonizou também manifestações tão massivas e que se espalharam por todo o país.
A líder estudantil conta que a fagulha inicial surgiu ainda na noite do primeiro turno, em 4 de outubro, quando a UNE lançou uma convocatória pelas redes sociais. O pedido era para que os universitários organizassem assembleias com o intuito de incentivar a participação na campanha petista.

Já no dia seguinte, em 5 de outubro, alunos da UFF (Universidade Federal Fluminense) fizeram a primeira passeata pela vitória de Lula.
Ninguém sabia a proporção que aquilo tomaria, já que o centro acadêmico havia convocado uma assembleia. Mas a assembleia ficou tão grande que não coube dentro do auditório da faculdade. Então, a galera decidiu ir para a rua. Foi aí que nós vimos o potencial que os estudantes tinham de levantar uma sociedade que estava, de certa forma, resignada com o resultado.
Bianca conta que daquele primeiro ato nasceram duas iniciativas: a ampliação das manifestações para todo o país e a organização de brigadas estudantis com representantes dispostos a panfletar, conversar com as pessoas pessoalmente para virar voto e tentar convencer indecisos e quem não tinha ido votar no primeiro turno.

'Teve gente que torceu o nariz, dizendo que pregávamos para convertidos'
As duas iniciativas fizeram com que, na avaliação de Bianca, a mensagem pró-Lula furasse a "bolha da esquerda" e alcançasse eleitores que haviam votado no candidato adversário, Flávio Bolsonaro (PL).
Teve gente que desconfiou do potencial das nossas mobilizações, que torceu o nariz, dizendo que era pregar para convertido. Mas o que vimos é que as manifestações fizeram algo que foi muito importante, que foi mudar a temperatura política do país, fazer com que as pessoas se corresponsabilizassem e assumissem a responsabilidade de virar voto.
E isso aconteceu porque as pessoas entenderam verdadeiramente o que estava em jogo, que era a democracia brasileira, o futuro do nosso país e a derrota da barbárie que, mais uma vez, pretendia se instalar no governo federal.
Entre os que desconfiaram estavam integrantes da própria campanha de Lula — que Bianca não cita nominalmente. Aos poucos, no entanto, a força das ruas fez com que mudassem de opinião e passassem a incentivar a participação até mesmo do presidente. Foi assim no dia 11 de outubro, quando Lula anunciou presença em ato organizado também pela UNE na Avenida Paulista, em São Paulo, apenas na véspera.
Para líder estudantil, a escalada das manifestações fez com que o presidente Lula ganhasse espaço entre a juventude.
Essa juventude não só ocupou as ruas, mas mostrou eleitoralmente a sua força também. E eu acredito que dessa mobilização se revelarão novas lideranças políticas forjadas na luta do movimento estudantil, forjadas na mobilização de ruas. E isso é fundamental para a gente seguir disputando a política e seguir construindo o Brasil que nós queremos, com plena representação da juventude.
Sobre o futuro dos atos, Bianca evita definir novas pautas.
A mobilização social não responde exatamente a um calendário muito previsível. Mas o fato é que em casa nós não estaremos, a gente não se contenta mais em voltar para casa. O movimento estudantil vai da sala de aula à Avenida Paulista, à Candelária, à Cinelândia. Vai onde for necessário e no momento certo.
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