A empresa mais antiga do Brasil aposta na escala 4x3: 'Sem inovação, não estaríamos aqui'
Uma empresa que atravessou Império, Proclamação da República, duas guerras mundiais, hiperinflação, mudanças de moeda e uma pandemia poderia ser associada a tudo, menos a uma startup.
Mas é justamente assim que Luiz Otávio de Lima, CEO da AngloGold Ashanti Latam, define a mineradora que iniciou sua história no Brasil em 1834 e hoje é considerada a indústria em operação contínua mais antiga do país.
Aos 192 anos, a companhia decidiu que tradição não precisa ser sinônimo de rigidez. Nos últimos anos, passou a apostar em modelos de trabalho mais flexíveis, como jornadas reduzidas no escritório e novas escalas nas minas, ao mesmo tempo em que amplia o uso de inteligência artificial, equipamentos operados remotamente e sistemas de monitoramento em tempo real.
“Quando você pega uma empresa de mineração com 192 anos e pensa em uma escala 4x3 ou 4x4, isso é totalmente fora da caixa. Somos uma startup de 192 anos”, afirma Lima, em entrevista exclusiva ao podcast De Frente com CEO, da EXAME.

Luiz Otávio de Lima, CEO da AngloGold Ashanti Latam: “Os nossos indicadores de segurança melhoraram exponencialmente. Uma pessoa que está saudável, física e mentalmente, consegue entregar muito mais” (Matheus Jammal / EXAME/Divulgação)
Uma empresa que nasceu durante o Império
A história da AngloGold Ashanti no Brasil começou em 1834, quando uma companhia inglesa chegou a Minas Gerais para explorar o chamado segundo ciclo do ouro.
“A nossa história começou com uma empresa inglesa que veio para o Brasil no segundo ciclo do ouro, o ciclo do ouro mecanizado”, afirma Lima.
As primeiras operações ocorreram em São João del-Rei. Anos depois, a empresa transferiu suas atividades para Nova Lima, onde adquiriu a Mina Velha e passou a operar como São João del Rey Mining Company.
Ao longo das décadas, a companhia mudou de nome e de controle acionário. Passou a operar como Morro Velho na década de 1960 e, no fim dos anos 1990, foi incorporada pela AngloGold Ashanti.
“Estamos falando de uma história bicentenária, que passou por todas as transições da indústria que você imaginar, como Proclamação da República, duas guerras mundiais, diferentes ciclos econômicos brasileiros, períodos de hiperinflação, mudanças de moeda e pandemia”, diz o executivo.
Hoje, a operação brasileira está concentrada em Minas Gerais e reúne as minas subterrâneas de Cuiabá e Lamego, além da planta metalúrgica de Nova Lima. Segundo Lima, o Brasil é também a única operação global da companhia com processo 100% verticalizado, da pesquisa mineral ao refino da barra de ouro pronta para venda.
Da escala 6x1 para novos modelos de trabalho
Se a história da companhia remonta ao século 19, algumas das práticas de gestão adotadas atualmente tentam acompanhar as discussões mais recentes do mercado de trabalho.
No escritório corporativo, em Nova Lima, os funcionários trabalham de segunda a quinta-feira desde 2024, em um modelo que também prevê dois dias de home office.
Nas minas, a antiga escala de seis dias trabalhados para um de descanso foi substituída por uma jornada de quatro dias de trabalho por quatro dias de folga.
Segundo o CEO, as mudanças foram implementadas após pesquisas internas, períodos de teste e conversas com os próprios funcionários. Para a empresa, o resultado apareceu também nos indicadores de segurança.
“Os nossos indicadores de segurança melhoraram exponencialmente. Uma pessoa que está saudável, física e mentalmente, consegue entregar muito mais”, afirma Lima.
O executivo diz que a própria rotina mudou com a flexibilização e que hoje consegue, por exemplo, levar os filhos para a escola.
A redução nos incidentes, segundo ele, ocorreu principalmente nos acidentes de alta frequência e baixo impacto, como torções, prensamentos de dedos e ocorrências relacionadas ao cansaço e à falta de atenção.
Tecnologia para trabalhar a 1.600 metros de profundidade
A mudança na jornada acontece paralelamente à transformação tecnológica da mineração.
Na mina Cuiabá, em Minas Gerais, a operação chega a 1.600 metros de profundidade. Para efeito de comparação, seria quase o equivalente a colocar dois Burj Khalifa — o prédio mais alto do mundo, com 828 metros — um sobre o outro.
Chegar ao ponto mais profundo exige tempo. O trajeto começa com cerca de quatro minutos de elevador até o nível 11, a aproximadamente 900 metros de profundidade. De lá, são mais 25 minutos de carro ou van para alcançar os níveis inferiores.
O elevador utilizado na operação tem dois andares e capacidade para transportar até 50 pessoas por viagem. Cerca de mil trabalhadores passam diariamente pela mina, distribuídos em diferentes turnos.
E a quantidade de material movimentado ajuda a mostrar a dimensão da atividade: para produzir apenas 6 gramas de ouro, é necessário desmontar cerca de uma tonelada de rochas.
“Sem inovação, a gente não estaria aqui hoje. A mina Cuiabá está entre as cinco minas subterrâneas mais tecnológicas do mundo”, afirma Lima.

O ouro produzido pela AngloGold Ashanti entra no mercado internacional de ouro, principalmente por meio de bancos de metais (bullion banks) e outros compradores institucionais (EyeEm Mobile GmbH/Getty Images)
Uma mina conectada por Wi-Fi
Uma das prioridades da transformação tecnológica é reduzir a exposição dos trabalhadores às áreas de maior risco.
A mina Cuiabá é conectada por Wi-Fi e conta com mais de 400 roteadores instalados no subsolo. A infraestrutura permite que a empresa utilize um sistema chamado People Tracking, capaz de identificar em tempo real a localização dos trabalhadores.
“Hoje eu sei exatamente onde cada funcionário está na mina. Se acontece qualquer evento, a nossa velocidade de resposta é muito rápida”, diz Lima.
O sistema também é usado para buscar eficiência operacional. Como a companhia consegue saber quantas pessoas estão em cada frente de trabalho, pode ajustar a ventilação de determinadas áreas.
“Como eu sei a quantidade de pessoas em cada frente de serviço, consigo alterar ou desligar a rotação dos ventiladores. Com isso, temos uma economia de quase 25% da energia.”
Outro exemplo são as carregadeiras operadas remotamente. Os equipamentos conseguem movimentar até 130 toneladas de material por hora e podem ser controlados da superfície por funcionários usando joysticks, em uma dinâmica semelhante à de um videogame.
“O nosso primeiro valor é a segurança. A tecnologia existe para tirar as pessoas das áreas de maior risco operacional”, afirma o CEO.
Do Brasil para uma operação global
A operação iniciada em Minas Gerais hoje faz parte de um dos maiores grupos de mineração de ouro do mundo.
A AngloGold Ashanti mantém 11 operações distribuídas entre África, Austrália e América Latina. A África responde por cerca de 60% a 65% da produção global do grupo, enquanto a Austrália representa aproximadamente 19% e a América Latina, formada pelas operações no Brasil e na Argentina, responde por cerca de 16%.
Apesar da participação menor no volume produzido, a América Latina tem peso relevante na geração de caixa. Segundo Lima, a região respondeu por 26% do fluxo de caixa livre da companhia no último ano.
“Isso evidencia que a nossa região é austera nos custos, tem disciplina operacional e segurança, o que garante a estabilidade das nossas operações”, afirma.
Ao todo, são cerca de 10 mil funcionários diretos e indiretos na América Latina. Além das operações brasileiras, o grupo controla na Argentina a mina Cerro Vanguardia, que produz ouro e também volumes relevantes de prata.
Nos Estados Unidos, a companhia ainda desenvolve um projeto em Nevada, que aguarda aprovações para entrar em produção.

Parte do ouro extraído pela AngloGold Ashanti no Brasil também chega às vitrines de uma das maiores joalherias do país. Desde 2019, a mineradora fornece o metal para a Vivara (Shopping Mueller/Divulgação)
Ouro em alta, estratégia de longo prazo
A transformação da empresa acontece em um momento de valorização do ouro no mercado internacional.
Guerras, inflação e instabilidade econômica costumam aumentar a procura pelo metal como ativo de proteção. Nos últimos anos, conflitos como a guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões no Oriente Médio ajudaram a ampliar as incertezas globais.
Para a AngloGold Ashanti, porém, a alta do ouro não deve ser o principal fator na definição da estratégia.
“A premissa da AngloGold Ashanti é sempre não focar no preço do ouro. Os nossos planos são de longo prazo. O ouro tem uma flutuação de preço e a gente não pode depender disso. A gente tem que depender da eficiência operacional, da disciplina de custos e da produtividade”, afirma Lima.
Segundo o executivo, os conflitos internacionais não provocaram, até agora, impactos relevantes na produção ou na logística. O efeito apareceu principalmente nos custos, com a alta do diesel e de outras commodities usadas pela mineração.
No Brasil, a expectativa da companhia é produzir 290 mil onças de ouro em 2026, ante 273 mil onças em 2025.
Globalmente, a AngloGold Ashanti encerrou 2025 com US$ 9,9 bilhões em receita. No primeiro trimestre de 2026, o fluxo de caixa livre chegou a US$ 1,2 bilhão, alta de 190% na comparação anual.
Depois de quase dois séculos de atividade, Lima afirma que a longevidade da companhia está menos ligada à capacidade de prever o preço do ouro e mais à disciplina para manter a operação funcionando em diferentes cenários.
“O grande diferencial da AngloGold Ashanti é entregar exatamente o que promete. Isso mostra que temos uma operação estável, bons controles, conhecimento geológico do ativo e um planejamento de longo prazo. É essa credibilidade que sustenta o nosso negócio há quase dois séculos.”
Veja a entrevista exclusiva com Luiz Otávio de Lima, CEO da AngloGold Ashanti Latam, direto de Minas Gerais:
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.