A Marcha da Europa

Na Netflix há um filme sobre um apagado e tímido funcionário do ministério dos negócios estrangeiros sueco que, ao enrolar os nazis numa teia burocrática, conseguiu levar judeus para a Suécia salvando-os da morte certa nos campos de concentração.
Depois de Ursula von der Leyen ter anunciado que o Canadá será um membro associado da União Europeia, Mark Carney, respondeu que a parceria com a Europa não visa criar um terceiro bloco contra os outros dois, EUA e China, mas um espaço no qual os valores ocidentais, a democracia liberal e o estado de direito estejam protegidos. O primeiro-ministro do Canadá afirmou também que o projecto é ambicioso e ao dizê-lo não ficou longe da verdade.
Apesar de ser um país enorme, o Canadá não é uma grande potência, nem o será com a UE tal como não o foi ao lado dos EUA. Mas a maior dificuldade para que o sonho euro-canadiano se concretize é outro e cinge-se em saber com que Europa é que o Canadá vai negociar.
A União Europeia tem-se apresentado como o baluarte das liberdades, do estado de direito e da democracia. Mas tem-no feito mais em contraposição com os EUA de Trump, a China do PC chinês e a Rússia de Putin que por si própria. E isto sucede porque a União Europeia se tornou numa fortaleza burocrática que dificulta a vida não dos nazis que querem matar judeus, mas de honestos cidadãos europeus que apenas desejam trabalhar. O burocrata com consciência é raro, tão raro que a história de um deu azo a um filme na Netflix.
O problema da União Europeia, e com que Carney possivelmente se vai deparar nos tempos mais próximos, é que o sistema em que Bruxelas se baseia é o do Sacro Império Romano-Germânico (e o seu sucessor austro-húngaro) e não o dos impérios britânico e norte-americano. Bruxelas não é a herdeira de Londres nem de Washington, das liberdades individuais e do livre comércio, mas de Viena e da ordem burocrática tão necessária para unir (ou amarrar) os povos à sua volta em troca de estabilidade e ordem contra as ameaças exteriores.
Com um Imperador eleito por príncipes, à semelhança de uma presidente da Comissão eleita por chefes de estado ou de governo, o Sacro Império, chamado austríaco depois de diminuído na sua legitimidade divina e austro-húngaro quando as nações iniciaram a sua rota de desmembramento da Europa, manteve-se até 1918 fruto de uma burocracia rígida e pesada que ordenava o Império de uma ponta à outra. A Marcha de Radetzky que Franz Von Trotta, o esmerado funcionário descrito por Joseph Roth como capaz de suportar tudo, tinha como plano de vida prolongar no tempo. Ao contrário de Londres e Washington, que sustentaram a sua segurança na expansão permanente, Viena garantia a estabilidade através de uma burocracia fechada que a protegia do exterior.
A prometida associação com um país do outro lado do Atlântico como o Canadá pode ser um desafio, mas também a oportunidade de Bruxelas fazer o que Viena não levou a cabo, que é sair da redoma em que os europeus se fecharam na esperança que as ameaças exteriores não passem de ruído. Se a melhor defesa é o ataque, a salvaguarda do modo de vida europeu, com as suas liberdades e o estado de direito requer que a UE se lance para o mundo lá fora. Por enquanto, e do que se escutou, tanto Carney e Von der Leyen encaram a associação que propugnam como uma barreira contra o exterior e não uma alavanca para o mudar. Tal qual os dirigentes austríacos nos século XIX desejam mais resistir que liderar. Se assim for o prognóstico não é animador. A ver vamos. Até porque na geopolítica quem não desenhar o mundo à sua vontade acaba por perecer da face da terra. É uma história que Viena conhece como ninguém.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.