The Daily Newsstand · Free, Always
Monday, October 5, 2026

Antes de cada médico houve um professor

Translate

Pode parecer estranho que um médico escreva sobre professores. Não é. O 5 de outubro não é importante apenas por assinalar a Implantação da República. É também o Dia Mundial do Professor, que este ano celebra os 60 anos da Recomendação da UNESCO e da Organização Internacional do Trabalho relativa ao estatuto dos professores. É uma boa ocasião para lembrar uma evidência. Antes de cada médico houve um professor.

E antes de cada enfermeiro, de cada engenheiro, de cada juiz, de cada cientista. São os professores que iniciam a formação de todos. Em 1970, um em cada quatro portugueses não sabia ler nem escrever. Em 2021 eram 3%. Essa mudança não se fez num dia. Fez-se aula a aula, e é dela que vem o que o país conquistou desde então, na ciência, na economia, na saúde e em tantas outras áreas. Nenhum país se desenvolveu sem escola e nenhuma escola existe sem professores.

A saúde deve-lhes mais do que costuma reconhecer. A promoção da saúde começa muito antes da consulta. Começa na escola. É lá que se criam hábitos para a vida inteira e que se ganha a capacidade de compreender uma doença, pesar um risco e confiar na ciência. Quem estuda mais vive, em regra, mais anos e com melhor saúde. E é muitas vezes um professor o primeiro a reparar que uma criança não vê bem para o quadro, que anda triste ou que chegou à escola sem ter comido.

Falo também por experiência própria. Fui aluno e sou pai. Conheço o valor de um professor dos dois lados, o de quem aprendeu e o de quem lhe confia os filhos.

Em Portugal, 38% dos professores do ensino secundário têm 55 ou mais anos. E apenas 9% sentem que a sociedade valoriza a sua profissão. O primeiro pede planeamento: não se fabrica um professor em setembro, como não se forma um médico no dia em que faz falta. O segundo pede algo mais simples e mais difícil: respeito. Das famílias, dos alunos e, sobretudo, de quem decide.

Uma escola pode ter melhores edifícios, computadores e inteligência artificial. Nada disso substitui alguém capaz de despertar a curiosidade, exigir esforço, reconhecer uma dificuldade ou ajudar um jovem a descobrir aquilo quer e de que é capaz.

Valorizar os professores não é uma causa só deles. É uma causa das famílias, da economia, da democracia e da saúde de todos. Um país que quer bons médicos, bons engenheiros e bons cidadãos tem de começar por querer bons professores e valorizá-los.

Sem a Escola e os seus professores não há médicos. E não há país.

View the original on Observador Desporto →

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.