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Wednesday, September 30, 2026

Ciro Nogueira usa alianças com Bolsonaro e com PT para abafar Banco Master e buscar reeleição

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Presidente nacional do PP, o senador Ciro Nogueira busca a reeleição no Piauí com uma campanha à moda do centrão: apoio de prefeitos atraídos por emendas parlamentares, alianças à esquerda e à direita e acenos aos eleitores lulistas e bolsonaristas, enquanto deixa em branco o campo do presidenciável em sua propaganda eleitoral.

Ciro é o principal opositor no Piauí do PT, que estabeleceu como meta derrotá-lo. O senador diz abertamente querer liderar o "maior partido conservador de centro-direita" do Brasil, em contraposição a Lula (PT). Mas, no interior, prefeitos e deputados petistas fazem campanha sem constrangimento para o adversário e ajudam a difundir o nome dele entre os eleitores do estado mais lulista do país —em 2022, Lula venceu em todas as 224 cidades do Piauí e foi eleito com 76,84% dos votos válidos.

Na última quinta-feira (24), Ciro viajou por duas horas de carro a Barro Duro (PI) para pedir votos. Foi recebido por funcionários da prefeitura numa praça e caminhou até a casa de Coronel Elói (PSD) –o prefeito mais velho do país, com 89 anos, e que desde 1994 apoia as candidaturas de Ciro.

O presidente do PP explora em seu discurso o poder que conquistou em Brasília, o que teria lhe permitido distribuir R$ 5 bilhões de verbas federais (nas contas dele) para municípios no Piauí. Neste cálculo, entrariam repasses federais de quando era ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL) e emendas parlamentares liberadas na gestão Lula.

"Eu distribuo 100% para os prefeitos, eles são meus representantes", diz.

Saulo Trajano (PT), prefeito de Passagem Franca do Piauí, cidade vizinha de Barro Duro, diz trabalhar para multiplicar os votos do senador. "Temos que retribuir tudo o que ele trouxe para nossas cidades", discursou.

À Folha o prefeito petista diz que Ciro aporta R$ 3 milhões por ano no município, o que lhe dá condições de fazer mais investimentos.

Pelo menos outros 12 prefeitos dos 50 que o PT tem no estado apoiam abertamente a candidatura de Ciro. O número seria maior não fosse a atuação do governador Rafael Fonteles (PT), favorito à reeleição, para evitar defecções às candidaturas ao Senado de Júlio César (PSD) e Marcelo Castro (MDB).

Ciro aposta na rede de prefeitos que construiu para uma arrancada na reta final da eleição, na tentativa de chegar ao terceiro mandato ao Senado pelo Piauí, o que seria inédito para políticos do estado.

O presidente do PP diz ter o apoio de 200 dos 224 prefeitos do estado. Em 180, diz contar com o apoio também da oposição. A campanha feita "nos bastidores", para não confrontar Fonteles, tem tido eficácia. Na equipe do governador petista, o cálculo é diferente do feito por Ciro. Ainda assim, ele teria o apoio de 140 prefeitos, acima dos 123 de Júlio César, e menos dos 190 de Marcelo Castro.

A rede de apoios foi confeccionada com dinheiro de emendas parlamentares. Como presidente do partido, Ciro direcionou 50% dos R$ 358 milhões do PP da Câmara dos Deputados para o Piauí no ano passado.

Seu aliado, o deputado Júlio Arcoverde (PP-PI), presidiu a Comissão de Orçamento e enviou mais R$ 244 milhões para o estado. Somados, os dois tiveram seis vezes mais emendas de comissão —um tipo de emenda extra, além do que o governo é obrigado a pagar— do que teve o então líder do governo Lula na Câmara, o deputado José Guimarães (PT-CE).

Nesta eleição, a ligação com a família Bolsonaro se tornou indesejada por medo de afastar o eleitor lulista. Ciro não pede votos para Flávio, e um acordo com o presidenciável evitou uma visita dele ao Piauí durante a campanha. O partido de Bolsonaro, por sua vez, decidiu apoiar Ciro, mesmo ele não fazendo campanha para Tiago Junqueira (PL), segundo candidato da chapa ao Senado.

Ciro mantém boas relações com os donos dos principais grupos de mídia do estado e uma rede própria de comunicação formada por blogs, veículos e perfis nas redes sociais que o defendem e atacam adversários. Na maioria das entrevistas locais, ele falou sobre obras e emendas, sem questionamentos sobre a relação dele com Daniel Vorcaro, do Banco Master.

O senador teve viagens de luxo bancadas por Vorcaro, e a Polícia Federal investiga suspeitas de pagamento de propina em troca de atuar em favor do Banco Master.

Ciro diz que as informações reveladas do celular de Vorcaro são falsas e afirma que causam poucos reflexos na eleição. O senador também é mencionado por ter atuado em favor de Ricardo Magro, dono da Refit e considerado o maior sonegador de impostos do país, em Brasília.

Tanto aliados quanto adversários de Ciro no Piauí afirmam que as revelações derrubaram a aprovação dele no momento mais crítico das denúncias, em junho, mas que o envolvimento de mais políticos no esquema de Vorcaro ajuda a diluir os danos.

O maior adversário de Ciro é Lula, de quem o senador se afastou no governo Bolsonaro. Nesta eleição, ele tentou emplacar a vice numa chapa presidencial encabeçada por Tarcísio de Freitas (Republicanos), o que não prosperou.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tentou reaproximá-lo de Lula, por meio de um acordo em que Lula se comprometeria a ficar neutro no Piauí e, em troca, Ciro afastaria o PP de Flávio.

O trato nunca foi selado. O PP acabou fora da coligação de Flávio Bolsonaro, assim como os demais partidos do centrão. Ao visitar o Piauí, em 9 de setembro, Lula pediu votos para Júlio César e Marcelo Castro. "Temos que votar num senador leal", disse, em aparente alfinetada em Ciro. "A gente não aceita vira-lata do nosso lado".

A fala deu fôlego para Júlio César, que tenta adotar o apelido de "Julim do Lula".

Ciro contra-ataca com a defesa de propostas ligadas ao PT, como o fim da escala de trabalho 6x1 (com a ressalva de que o governo deve compensar os empresários). E incita críticas a Júlio César, com o argumento de que ele foi favorável ao impeachment de Dilma Rousseff.

Pesquisa Datafolha divulgada em 17 de setembro apontou empate triplo para o Senado no Piauí: Ciro e Castro aparecem com 17%, Júlio César com 15%.

Abater Ciro no Piauí é parte do projeto que Rafael Fonteles almeja construir com vistas a se projetar como um potencial sucessor de Lula em 2030. O governador sonha em assumir os ministérios da Fazenda ou da Educação, em busca de protagonismo nacional, e aliados dizem que ele abandonaria o mandato no estado para assumir um posto de Brasília.

Após a eleição, Ciro planeja erguer o que pode ser o maior partido de centro-direita do país. O primeiro passo foi a federação com o União Brasil, que uniu sob sua tutela 98 deputados federais e dez senadores.

Seu plano é retomar as conversas para tentar convencer o Republicanos a aderir ao grupo na nova legislatura, o que poderia fazer a sua bancada chegar a um terço da Câmara e comandar as duas Casas do Congresso. O propósito dele é fortalecer a máxima do centrão: quem quer que seja o presidente eleito, será necessário sentar com eles para negociar.

Se sair vencedor nas urnas, dois caminhos se apresentam para o futuro de Ciro Nogueira. Tentar de novo ocupar a vaga de candidato a vice-presidente ou concorrer ao governo do Piauí, aproveitando o racha que deve ocorrer no PT pela disputa entre Fonteles e o ministro Wellington Dias (PT) pela única vaga que será aberta ao Senado em 2030.

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