Partido Democrata mais ao centro ou à esquerda?
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Os republicanos saem muito encharcados deste tsunami? Como é que secam depois desta noite eleitoral? Que trabalho há a fazer?
Eu julgo que nos próximos dois anos pouco há a fazer, porque do ponto de vista do Donald Trump, ele não estará muito preocupado com o que se passa hoje. Na medida que o mandato dele tem mais dois anos, muito provavelmente ele não quererá repeti-lo e sendo uma pessoa, podemos defini-lo dessa forma, egocêntrica, preocupa-se mais com ele e já não estará tão preocupado com o Partido Republicano. Aliás, ele nunca foi propriamente um político no sentido antigo da palavra, de carreira, e nem sequer era um republicano e portanto nem sequer terá essa relação. Será curioso ver como é que daqui para diante, J.D. Vance e Marco Rubio se vão posicionar perante esta situação. E será muito curioso analisar essa questão.
Isso é chave para o Partido Republicano?
Sim, será. Porque são políticos que têm uma grande presença. Falando de um ponto de vista meramente objetivo, são excelentes políticos, sabem comunicar muito bem.
Têm posições diferentes.
Têm posições diferentes.
Alas diferentes dentro do Partido Republicano.
Exatamente, sim, é isso. Depois não se pode dizer que o J.D. Vance será o mais prejudicado com tudo isto, porque se nós fizermos a leitura que a grande responsável por este mau resultado republicano é a guerra no Irão, o J.D. Vance era mais contrário a essa intervenção e o Marco Rubio um dos grandes responsáveis por ela. Portanto, não sabemos como é que isto vai ser lido futuramente pelo eleitorado republicano. Agora, também gostava de salientar uma coisa: há alguns republicanos moderados que infelizmente perdem. Eu salientava aqui o caso da Susan Collins no Maine, que irá perder. É verdade que já era uma senadora muito antiga e, portanto, poderá aqui haver um certo cansaço, mas ela era uma pessoa relativamente moderada, por exemplo, no que toca à intervenção dos Estados Unidos na Venezuela. E essas decisões do Donald Trump entrarem nos conflitos, em guerras, intervenções armadas sem querer saber do Congresso, nomeadamente do Senado, ela sempre criticou esse facto. Chamar a atenção depois também para a possível derrota no Iowa de Ashley Hinson. Aliás, eu estou aqui a trocar, a Ashley Hinson é que tinha esta posição. A Susan Collins tinha outras posições mais moderadas dentro do Partido Republicano. Salientar estas duas derrotas republicanas, salientar do ponto de vista dos moderados, dois democratas moderados que ganham, Adam Hamilton no Kansas, que nós não conhecemos muito bem, mas é um pastor e toda a sua campanha foi a defender causas relativamente moderadas e do centro, e o John Ossoff da Geórgia, que é o senador, e que é uma das grandes promessas do Partido Democrata para o futuro, e que tem tido posições extremamente moderadas. Aliás, ele tem procurado sempre, na política local ou estadual, não confundir tanto o que se passa com o Donald Trump, não personificar tanto as questões políticas do Senado e na Geórgia com a política federal, com o Donald Trump, com a Casa Branca, mas preocupar com que a política e o discurso, as campanhas sejam mais sobre soluções concretas para os problemas. Isto é curioso. E já agora, alguns radicais democratas que acabam por ser eleitos, podemos não chamar radicais, mas que nós não podemos esquecer que o radicalismo americano ou certo extremismo é só do lado republicano, também há do lado democrata e isso poderá ser perigoso também. No Texas, James Talleyrico, que é muito na onda do Bernie Sanders, e o Abdul El-Sayed, que é no Michigan, portanto temos aqui pessoas que têm posições essencialmente econômicas, às vezes até próximas do Trump, quando ele defende as tarifas e críticas ao comércio internacional, ao livre-comércio. Este não é um democrata, mas é um independente no Nebraska, ao que parece poderá, pelo menos pelas projeções, ainda não tendo a contabilidade toda feita, mas está à frente, o Dan Osborne, que é um crítico acérrimo do comércio livre, ele basicamente, não dizendo a mesma coisa, defende as tarifas do Trump, defende o ordenado mínimo federal, por exemplo, que é algo que é estranho na América, porque basicamente seria colocar todos os Estados Unidos da América a esquecer todas as especificidades dos estados e das localidades, que os ordenados não são todos iguais e por todas as pessoas a ter o mesmo ordenado mínimo, e é favorável ou defende o maior controle das fronteiras. E depois também temos o Josh Toric, no Iowa, que também tem políticas econômicas que muitas vezes se assemelham às de Donald Trump.
E isso mostra essas diferenças entre partidos.
E isso demonstra, de facto, que as pessoas podem dizer que há determinadas questões políticas, decisões econômicas que estão a ser tomadas pelo eleitorado a criticar Donald Trump, mas depois acabam por ir para a mesma linha, mas do lado contrário.
Ricardo Silvestre, nós temos falado aqui do Congresso como um todo, ou seja, do Senado e da Câmara dos Representantes, mas é importante referir que no Senado era um terço dos lugares que ia a votos, portanto, 35. E havia aqui sete onde a luta era mais interessante, onde havia essa viragem possível, e que de fato se está a confirmar em muitos desses estados, a viragem, neste caso, dos republicanos para os democratas. Na Câmara dos Representantes, na Casa dos Representantes, todos os lugares vão a votos. Nós há pouco falávamos que era diferente vencer por 218, que é o número mágico, ou 220, ou 225, ou 230. Tudo aponta já para números acima dos 245. O que nos diz esta fotografia da Câmara dos Representantes? Mostra-nos que existe, de facto, um enorme descontentamento com a governação de Trump e que indicadores nos deixa isto, de facto, para esse próximo ciclo eleitoral que começa já amanhã?
Isso é uma excelente pergunta. Deixa-me responder-te usando um exemplo do Senado. Iowa, e há bocado o André falava de Iowa. Donald Trump ganhou Iowa em 2022 com 16 pontos percentuais. Felizmente, boas notícias, Rob Sand é eleito governador com mais 13 pontos percentuais. Portanto, repara, foi uma diferença de mais 16 para Trump, para mais 13 de Rob Sand. E Turck, neste momento, tem quase nove pontos percentuais de diferença. Respondendo à tua pergunta, sim, o eleitorado americano está claramente a enviar um sinal para Washington, neste caso, para o Capitólio, para a Casa Branca, a dizer assim: "Isto não é maneira de governar a América". E respondendo à tua pergunta agora em particular relativamente à Casa dos Representantes, sem dúvida que, e aqui sim, é um mini tsunami, porque se tu tens um número tão elevado de representantes, há muito mais espaço de manobra, que foi, por exemplo, que o Speaker of the House, Mike Johnson, neste momento dos republicanos nos últimos dois anos, não conseguiu passar nada porque não tinha votos para isso. Apesar de ter a maioria, tinha um ou dois votos que podia dispensar e bastava haver um representante que fosse contra, por exemplo, como foi no caso Epstein, tiveste vários representantes republicanos a dizer assim: "A gente vai votar contra a maioria". Teres 246, podes ter dois ou três, e o André conhece-os bem, que são os socialistas democratas, que podem falar, falar, falar, e o Hakeem Jeffries dizer assim: "Ó meus amigos, vocês podem dizer o que quiserem, eu tenho os votos que preciso para passar as leis que quero". Portanto, há essa grande vantagem. Deixa-me só fazer aqui uma pequena nota, uma provocação ao André, ele não vai levar a mal, seguramente. Eu não posso concordar com ele com a apreciação de que Taylor Rico e Abdul El-Sayed são extremistas. Eu acho que eles são centristas. Claro que naturalmente há a diferença entre os Estados Unidos e a Europa, no que a gente considera ser um centrista ou ser mais de esquerda, mas eu acho que eles até tiveram campanhas que, principalmente o El-Sayed, em Michigan, que foram campanhas muito centradas naquilo, principalmente, que eram as trocas econômicas e as tarifas com o Canadá. Portanto, ele nesse aspecto é claramente um tipo de liberal a nível principalmente do comércio livre. Taylor Rico, no Texas, também tinha que ter uma linguagem que naturalmente tem que ser uma linguagem mais ajustada a um eleitorado que é muito mais conservador. Portanto, o Taylor Rico não se podia apresentar como um progressista desalmado, digamos assim. Portanto, aqui uma pequena provocação ao André, se quiseres, Miguel, também podemos argumentar um pouco mais.
Podemos e eu até vou chamar aqui também nesta conversa, no seguimento do que disseram ambos, o Ricardo Ferreira Reis, para perceber se, de facto, nesses dois candidatos, tanto no Texas como no Michigan, é aqui onde Trump acaba por sofrer as maiores derrotas e é aqui onde começa uma maior clivagem para os ideais do Partido Republicano.
Para já, um pouco de calma, porque ainda não fecharam as contagens do Michigan e do Texas também não. Ou seja, neste momento há uma vantagem de 18 pontos para Taylor Rico sobre o Ken Paxton no Texas, mas ainda não contaram o voto rural quase todo, que será fortíssimo para o Ken Paxton, sendo que a probabilidade de Taylor Rico ganhar continua acima dos 95% no New York Times. Mas a vantagem não vai ser tão grande quanto é agora. Eu tenho estado a seguir esta na última hora e meia e cada vez que eles fazem uma recontagem, o valor aproxima-se. Ele já esteve em 20 pontos de avanço, ou mais de 20 pontos de avanço. Já agora, também desculpa, André, não quero deixar-te sozinho nisto, mas vou deixar mesmo. Eu também concordo com o que o Ricardo disse, que o Taylor Rico não é tão extremo quanto isso. E se tirarmos a questão da Palestina ao El-Sayed, o que é quase impossível de tirar, ele também fica com discurso bastante mais moderado do que aquilo que o André estava a dizer, sendo que a minha defesa nesta posição é dizer que há bem pior do que eles no Partido Democrata em termos de radicalismo de esquerda. Quanto a isto ser um reflexo de uma derrota de Trump, é claramente, sobretudo na política protecionista do Michigan e na cintura da ferrugem, que era uma cintura que gosta bastante do discurso protecionista. E daí o André provavelmente ter encontrado alguns lives dessa natureza nesses discursos, porque é onde está a indústria americana, indústria automóvel e um conjunto de outras indústrias, que viviam bem com o protecionismo que o pôr a América em primeiro lugar lhes oferecia. Esse discurso, sobretudo com a questão das tarifas, ficou claro que não é a melhor maneira de proteger quem quer que seja, fez com que esse eleitorado de colarinho azul, que chegou a votar Trump várias vezes, agora o esteja a abandonar. E na parte rural também acontece a mesma coisa, sobretudo nos estados que são mais agrários, portanto não tão pecuários, mas mais agrários. Aí também a questão
Das tarifas e dos custos da energia têm afetado imenso estas populações. E estamos a assistir a um tsunami que entrou pelo campo adentro também. Portanto, nesse aspecto, dando razão ao que o Miguel estava a dizer, são as zonas onde mais vemos o efeito do Trump não conseguir encontrar soluções para o americano médio que hoje foi votar.
Sendo que vamos continuar com este tema, até porque quero voltar a ouvir o André sobre este assunto, depois de dois Ricardos terem que contrariar um pouco a ideia que estava a defender, mas rapidamente deixar aqui uma nota de um tweet. Não é um tweet, é um post na rede Truth Social.
É um truth.
De Donald Trump, que acaba de dizer: "Eu não estava no boletim de voto. Se estivesse, certamente os republicanos iriam ganhar." Sendo que Donald Trump, ao longo das últimas semanas, pediu aos eleitores que imaginassem que o nome dele estava no boletim de voto. Essa foi a expressão utilizada ao longo das últimas semanas.
Parece que imaginaram mesmo.
Exato. André Branco Samara, tanto o Ricardo Silvestre nos últimos minutos e o Ricardo Ferreira Reis falaram sobre estes candidatos no Partido Democrata e sobre suas inclinações mais à esquerda ou mais ao centro. Estamos a falar aqui de estados, Michigan e Texas, onde uma viragem muito à esquerda seria difícil. Ainda assim, na sua leitura, estes candidatos são mais à esquerda do que seria de perspetivar nestes estados, é isso?
Não, é aí que é curioso. Eu estou a falar em matérias de economia, essencialmente. E aquilo que estes candidatos demonstram é que aquilo que eles defendem, que é restrições ao comércio livre, para defender os empregos nos Estados Unidos, que geralmente é aquilo que nós vemos defendido à esquerda, foi aquilo que nos últimos anos vimos a ser defendido à direita e agora cada vez mais, até na Europa, vemos a ser defendido pela direita. E aquilo que eu estava a referir é que há semelhanças entre estes candidatos que vão ganhar estas eleições, ou que todas as projeções indicam que vão vencer, em termos destas matérias, que são muito semelhantes à do Donald Trump. E isso não deixa de ser curioso. Por exemplo, agora até estava aqui a abrir a página do Abdul El-Sayed, da sua campanha, e ele critica a NAFTA, por exemplo, que é um acordo de comércio livre que durante décadas foi desejado pelo establishment e por Washington e por todo o continente norte-americano, e era encarado sempre como algo extremamente positivo, que iria acrescentar valor às economias. E hoje o que temos visto é um discurso contrário, e é isso que eu gostava de salientar. O eleitorado continua a acreditar neste tipo de discurso, que é a ideia de que tudo que tenha a ver com o comércio livre, em vez de acrescentar valor à economia, faz com que a economia perca valor, nomeadamente que as pessoas percam os seus empregos. E isso não era aquilo que se falava anteriormente e que se defendia há uns anos. E de facto, é revelador de uma situação que não me parece que esteja a mudar com estas eleições.
Temos ainda mais 13 minutos para continuarmos a conversa, antes de voltarmos a atualizar resultados, sendo que já temos essa confirmação que na Câmara dos Representantes já não escapa aos democratas. O Senado encaminha-se para a mesma situação. E Ricardo Silvestre, está praticamente confirmado também no Senado e a fotografia vai ficando cada vez mais clara deste tsunami. Donald Trump já está a reagir e reage nos últimos minutos. Isto já dá esta indicação de que está praticamente garantido para os democratas.
Eu vou pegar nisso que tu disseste, mas antes deixa-me fazer mais um momento bonito de democracia. A Carolina do Sul tinha ido para Trump por 12 pontos percentuais. O senador do Estado era Lindsey Graham, era aliás um dos clássicos, digamos assim, do Senado, da parte dos republicanos, apesar de depois daquilo que vimos no seis de janeiro, ele disse que já não queria mais trabalhar com Trump, depois virou ao contrário, mas era um grande defensor da Ucrânia, ele tinha valor nisso. Pronto, o senador morreu, vai acontecer a todos, e o Trump disse assim: "Ok, vamos convidar a irmã dele, que não tem qualquer qualificação para o lugar, para ocupar temporariamente, até às eleições, o lugar dele." Claro que o governo da Carolina do Sul tinha seguramente um candidato que estava preparado para avançar, até o presidente Trump dizer assim: "Eu acho que até ela, mais do que isso, devia concorrer a um mandato completo de seis anos." Annie Andrews, mais uma vez, uma pediatra, uma mulher que é uma mulher voluntariosa, uma mulher corajosa, tinha, ó Miguel, 12 pontos de distância a superar. Fez uma campanha brilhante. Eu segui a campanha dela e é com grande satisfação que eu posso dizer que ela, neste momento, já está confirmada a vitória dela, vai ser senadora pela Carolina do Sul, o que é um momento brilhante, na minha opinião. Respondendo à tua pergunta, e em modo de provocação Se tu antes da noite me dissesses assim: "Ó Ricardo, qual é a probabilidade do presidente Trump, no seu primeiro post pós resultados eleitorais, dizer que se eu estivesse no boletim de voto, tinha sido uma vitória esmagadora." Eu dizia-te: "Epá, Miguel, 98%, mais ou menos." Portanto, não é nenhuma surpresa. Deixa-me dizer uma última coisa, que é importante, porque eu estava com receio, aliás, tenho artigos de opinião escritos sobre isso. Continuo com receio que vá haver problemas pós os resultados eleitorais, a nível de certificação. Mas o que vai acontecer é uma coisa: há bocado o Ricardo estava a falar em tsunami. Se eu continuo com dificuldade na palavra tsunami a nível global, os tsunamis estatais que estamos a ver começam a fazer com que as diferenças percentuais sejam tão grandes, que acontece como aconteceu na Hungria, ou como aconteceu na Sérvia, ou como aconteceu no Brasil. É que mesmo que os republicanos queiram causar problemas, o fosso é demasiado grande.
Pois. André, estavas a referir?
Sim, só referir aqui a questão que o Ricardo estava a mencionar, a New Andrews, que é especialista em saúde, pediatra, e é curioso porque ela vai ser uma técnica no Senado. Isso é importante, porque um dos problemas que a política norte-americana está a ter hoje em dia, isso é muito mencionado, é que os políticos, tanto na Câmara dos Representantes como no Senado, estão mais preocupados a falar com o eleitorado, no sentido de fazer vídeos, que muitas vezes são polêmicos pra ganhar likes, e não tanto a fazer trabalho de casa. E isto poderá ser um bom sinal de ter finalmente alguém a juntar-se ao grupo daqueles que lá estão a procurar soluções concretas e a trabalhar, e não tanto nesta onda hoje em dia populista do político que tem que estar sempre a comunicar com o eleitorado. É quase como imaginar um advogado, em vez de estar no escritório a resolver os problemas e a estudar os processos, tem que estar sempre a falar com os seus clientes, e depois não faz aquilo que é devido.
E aqui deixa-me dizer que concordo completamente com o André. Ainda bem que estamos a elevar um pouco mais o nível dos eleitos, realmente.
Sim, Ricardo Ferreira Reis, olhando para estes resultados, ficam já aqui algumas dúvidas sobre como é que eles se concretizam, porque nós também temos falado isso ao longo desta emissão. Há uma coisa que é o resultado percentual das eleições, que está a dar essa clara vantagem ao Partido Democrata, e outra coisa é o número de pessoas que votam efetivamente nos partidos. Falou-se disto antes da eleição, de que muitos republicanos não iriam votar e portanto vamos ter de esperar naturalmente por esses números de abstenção pra perceber qual é que foi a dimensão desse número de eleitores republicanos que não foi às urnas ou que escolheu não votar nesta eleição. Mas que impacto é que isto pode ter, de facto, para esse cenário que tem sido escrito ao longo dos últimos anos de que a política norte-americana está cada vez mais polarizada, se isso se acaba por confirmar ou se não, se de facto este bloco central sempre existiu, nunca deixou de existir, são os candidatos que se polarizaram e esta eleição pode voltar a mostrar isso, de que existe uma tendência nos Estados Unidos para numa eleição votar de um lado, noutra eleição votar do outro.
Isso que está a dizer tem a ver também com a capacidade de desmobilização, que era o que estava a dizer. O que está a acontecer é os republicanos terem ficado em casa, mas também de mobilização. Ou seja, nós estamos a ver uma mobilização do voto democrata bastante extenso. Lembre-se que como o Congresso é todo eleito de dois em dois anos, isso permite-nos nessas eleições comparar o voto popular. E eu sei que o voto popular não conta pra nada pras decisões dos Estados Unidos, mas dá-nos um termômetro interessante e importante para o estado político de mobilização e de desmobilização, que era exatamente a sua pergunta. Neste momento, de acordo com a estimativa do New York Times, prevê-se que os democratas vão ganhar o voto popular nessa eleição com mais 13 pontos de avanço sobre os republicanos, o que é muito considerável neste contexto. Olha, até a fazer fé, considerando que no Nebraska nem sequer tinha um candidato. Portanto, há aqui uma expressiva presença dos democratas nesta eleição. Já agora, é uma imprecisão, não tinha um democrata para o Senado, para o Congresso.
Para a Câmara dos Representantes tinham.
Pronto. Agora vou discordar do Ricardo Silvestre. Não muito, mas eu não punha em 98% a probabilidade do primeiro tweet ou truth ser esse, do Trump. Eu até punha com grande probabilidade eu ouvir dizer que a eleição tinha sido viciada e que era uma batutice e uma grande maldrabice. O fato dele dizer o que disse e não ter dito que era uma maldrabice, é já um ótimo sinal pros próximos dias. Ou seja, vamos ter um resultado tão expressivo que o próprio Trump, a primeira coisa que diz é: "Perdemos". Ou pior, "teríamos ganhado se estivesse lá eu, portanto, quer dizer que perdemos." É esse o discurso dele. É um reconhecimento implícito da derrota, o que é uma surpresa até pra fazer fé lá no livro que ele escreve sobre negociação, que é nunca reconhecer a derrota. E portanto, eu acho que vai haver incerteza em algumas votações e vai haver aqui problemas e areia a ser atirada para alguma desta engrenagem, nomeadamente no Alasca, isso parece mais ou menos evidente, embora a gente não saiba nada do Alasca, porque ainda nem sequer fecharam as urnas. Mas parece-me positivo que o resultado seja tão expressivo Que não vai haver a contestação que eu antecipava que ia haver. Ao contrário do que eu imaginava, que era isso vai demorar algumas semanas até sabermos o resultado final, daqui por poucas horas já temos tudo mais ou menos alinhavado, com exceção de uma ou outra corrida que já não serão relevantes para muita coisa.
Sobre esse assunto, o New York Times acaba de revelar que falou com Donald Trump, com a presidência, e que Trump disse que vai aceitar os resultados desta eleição e já dá esse sinal.
Era o bom sinal que desmentia a minha expectativa. Eu estava com a expectativa que esse fosse o tom dos primeiros tweets. E vai reforçar também, já agora, esta é a minha forma de dizer que eu tinha razão, que o tsunami está mesmo a molhar, pelo menos aos pés ao presidente, aos dedos com que ele escreve os tweets. Parece que a onda é mesmo azul.
Ricardo Ferreira Reis, obrigado por esta participação na Rádio Observador, também já em jeito de despedida. André Abrantes Amaral, antes de nos despedirmos, este sinal é importante de Donald Trump não contestar os resultados?
Sim, é importante, claro. E é bastante diferente do que aconteceu da última vez em que ele perdeu.
Em 2016.
É um sinal importante. Mas eu acho que é o seguinte: o Donald Trump, neste momento, e sendo que ele será presidente por mais dois anos, ele está mais preocupado naquilo que ele vai deixar para o futuro do que propriamente nestas eleições. Sendo que também vamos ver uma coisa. Eu questiono-me, e no que toca à política externa, por exemplo, se este resultado vai acabar por ter algumas implicações nas decisões de Donald Trump, porque nós temos um presidente que também não respeitou muito o Senado nesta matéria e não me parece que vá ter esses cuidados nos próximos dois anos, até porque, como disse, ele estará a terminar o seu mandato como presidente, não vai regressar. E isso é também uma questão de saber como é que ele se vai comportar na medida em que ele se vai sentir liberto de qualquer necessidade de reeleição e se este resultado vai ter implicações, ou seja, se o vai refrear ou se vai, pelo contrário, até o estimular para ainda ser mais impulsivo.
Sim, principalmente nos casos de política externa.
Mas sem dúvida. Agora respondendo só à questão muito específica, é um bom sinal, sem dúvida.
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