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Friday, October 16, 2026

Nem MBA, nem mindfulness: o próximo hack de liderança é apanhar

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Confesso o viés. Tenho uma longa história com as artes marciais: iniciei aos 8 anos no karatê, tive uma curta experiência na capoeira no tempo de faculdade e até flertei com kung-fu wushu por um tempo. Mas em 2018 conheci, “por acidente”, o jiu-jítsu — e foi paixão à primeira vista. Ou à primeira aula, eu diria.

Estou a duas semanas do meu último campeonato como Master 3 (categoria que engloba competidores de 40 a 44 anos) e, quem sabe, meu último campeonato como faixa roxa (para quem não está familiarizado, as faixas são branca, azul, roxa, marrom e preta), escrevo este texto em meio à preparação física.

Observei nos últimos cinco anos que, aqui no Brasil, mas ainda mais no exterior , o jiu-jítsu conquistou silenciosamente seu lugar como um dos mais eficazes programas de desenvolvimento executivo e de liderança disponíveis hoje — e que praticamente nenhuma escola de negócios fala sobre isso, embora quase todas tenham uma equipe de jiu-jítsu escondida, como encontrei não só na USP, mas em Harvard e Stanford.

Confesso que demorei muito para me render ao jiu-jítsu, pois a imagem que eu tinha do esporte vinha dos anos 90, época do vale-tudo na Globo e dos valentões de briga de rua. Esse estereótipo, graças a Deus, morreu — e morreu há tempos.

O retrato atual é outro: Jean Jereissati, ex-CEO da Ambev e hoje à frente da operação da América Central da AB InBev, é faixa preta de jiu-jítsu, compete em alto nível na divisão Master e levou ouro no Los Angeles Summer IBJJF 2025. Em uma campanha institucional da própria Ambev, ele resumiu a relação com o esporte em uma frase que vale ler com atenção: "Sou tão apaixonado por jiu-jítsu que, no tempo que fiquei na China, dava aula para crianças". Isso é mais do que um hobby de fim de semana!

Quem circula pelas academias da Faria Lima, do Itaim, dos Jardins ou do Brooklin encontra todos os dias uma cena parecida em escala menor: executivos chegando de terno, mochila de quimono na outra mão, alternando entre negócios e o tatame. Isso não é mais uma modinha fitness ou de influencers — até porque, neste esporte, os poucos influencers que existem não são executivos. É uma resposta concreta a um modelo de liderança que ficou pequeno demais para a complexidade atual.

O tatame como reator de pressão controlada

Há uma dicotomia curiosa no mundo corporativo: treinamos executivos para tomar decisões críticas sob pressão, mas raramente os colocamos em situações onde a pressão é real, imediata e física.

Durante meu tempo como professor nos MBAs da FIA (FEA-USP) e da Poli (PECE-USP), apliquei diversos simuladores desenvolvidos em Harvard para treinar gestores e executivos, buscando ‘experimentar’ uma realidade mais próxima do que acontece nos escritórios. Gostei tanto desta técnica que em meu doutorado busquei comparar os resultados das técnicas de ensino tradicionais aos dos chamados métodos ativos, nos quais os simuladores se enquadram.

E para mim, o jiu-jítsu é o melhor simulador da vida corporativa para tomada de decisão sob pressão. Você pode se planejar para uma reunião difícil, mas uma vez que entrou nela, é muito difícil sair sem uma resolução, seja boa ou ruim. No tatame, não é diferente. Quando seu companheiro de treino aplica um estrangulamento, o cérebro precisa decidir em segundos: resistir, afrouxar, apagar ou "bater" — os três tapinhas que sinalizam desistência, o reconhecimento de que o oponente ganhou. É feedback instantâneo, sem espaço para racionalização.

Essa é, em essência, a definição neurocientífica de exposição a estresse controlado, o mecanismo que pesquisadores hoje consideram um dos mais poderosos para recalibrar o sistema nervoso autônomo. A lógica é antiga: o sistema de resposta ao estresse foi desenhado para crises físicas curtas, não para o inbox de e-mail que nunca esvazia, para o Slack que nunca para de notificar, o WhatsApp que vibra a noite toda, o Teams que acumula mensagens não lidas durante uma reunião e já tem outras tantas quando ela termina.

Quando expomos o sistema nervoso a doses repetidas e controladas de estresse físico real, ele aprende a desligar o modo de luta-ou-fuga com mais rapidez. No vocabulário corporativo, isso se chama manter a calma sob pressão. No vocabulário fisiológico, chama-se inoculação ao estresse.

A ciência da remodelagem cerebral

A neuroplasticidade (a capacidade do cérebro de se reorganizar e criar conexões novas ao longo da vida toda) saiu da literatura especializada e virou pauta executiva — hoje ocupa o mesmo espaço que o mindfulness ocupou há dez anos.

Andrew Huberman, neurocientista de Stanford, dedica episódios inteiros do seu podcast à relação entre treinamento corporal e desempenho cognitivo. A tese central é simples: aprender movimentos complexos sob pressão, com leitura constante do que o outro está fazendo, é um dos estímulos mais potentes que existem para reorganizar o cérebro adulto.

Nir Eyal, ex-professor da Stanford Graduate School of Business e autor de bestsellers como Hooked e Indistractable, leva o argumento adiante em Beyond Belief, lançado em março de 2026. Apoiado em neurociência recente, Eyal demonstra que muito do que tomamos por limites físicos é, na verdade, crença aprendida — e que protocolos de exposição controlada podem multiplicar a resiliência percebida em ordens de magnitude. O tatame opera exatamente nesse princípio: você descobre, semana após semana, que o que parecia impossível na semana anterior já virou rotina. É reprogramação de crença operando no corpo, não no discurso.

E não é qualquer exercício que faz isso. Estudos comparativos mostram que correr na esteira ou pedalar em bicicleta estacionária produz ganho cognitivo significativamente menor do que esportes que exigem decisão tática a cada segundo. O jiu-jítsu se encaixa quase com perfeição nesta descrição.

A literatura de neuroimagem já permite afirmações específicas. Praticantes de longa data apresentam mais massa cinzenta em três regiões do cérebro: a área responsável por planejamento e tomada de decisão, a área responsável por memória, e a área responsável por atenção e processamento espacial.

Em linguagem corporativa: as três competências mais cobradas de qualquer executivo. Outros exames mostram, ainda, que os circuitos que ligam decisão estratégica e execução motora ficam mais conectados e mais rápidos. Pensar e fazer passam a operar em maior sintonia.

O achado mais recente é também o mais elegante. Um estudo experimental publicado em fevereiro de 2026 na revista científica Frontiers in Psychology classificou o treinamento de artes marciais como uma intervenção comprovada de auto-regulação emocional. O grupo treinado registrou redução média de quase 60 milissegundos no tempo de reação, uma diferença substancial para qualquer atividade que dependa de decisão rápida. O grupo de controle, sem treino, melhorou apenas 5 milissegundos.

Os autores identificaram três regiões cerebrais transformadas pela prática: a do planejamento estratégico, a do gerenciamento de conflito interno entre impulsos contraditórios, e a da consciência do próprio corpo, a capacidade de perceber e regular o que se passa por dentro antes que vire reação irrefletida. Praticamente um programa de desenvolvimento de liderança esculpido neuralmente.

Na bioquímica, os dados convergem. A prática regular reduz cortisol (o hormônio do estresse) após cada sessão de treino. Eleva a produção de uma proteína associada à formação de novas conexões cerebrais. Melhora resultados em testes de atenção, memória e coordenação motora.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 na Psychology of Sport and Exercise (Ciaccioni e colaboradores) consolidou a evidência de que artes marciais melhoram saúde mental, autocontrole e regulação emocional, com efeito proporcional ao tempo de prática e à qualidade do ambiente de treino. Há ainda evidência crescente do envolvimento da oxitocina, hormônio ligado a vínculo social e cooperação, durante o treino em duplas. Não é por acaso que praticantes tão diferentes quanto Mark Zuckerberg e Sergio Mallandro descrevem o tatame com palavras como "religião", "lealdade" e "família".

Em grupos específicos, os dados são ainda mais reveladores. Uma revisão publicada em 2024 no Sport Journal analisou estudos sobre jiu-jítsu aplicado a veteranos de guerra e socorristas com transtorno de estresse pós-traumático, encontrando reduções clinicamente relevantes em ansiedade, hipervigilância e reatividade emocional. Outra revisão, publicada em dezembro de 2025 na Frontiers in Psychology, mostra que a prática regular em adultos mais velhos preserva — e até reverte — declínios cognitivos típicos do envelhecimento, com destaque para memória e capacidade de decisão.

Nada disso significa que jiu-jítsu seja terapia. Mas é seguro dizer que funciona como uma intervenção corporal ampla, categoria que Bessel van der Kolk popularizou no livro The Body Keeps the Score. A tese central, de que práticas corporais acessam circuitos cerebrais que a conversa não alcança, está sustentada por décadas de pesquisa em neurociência.

O ponto é simples: jiu-jítsu não é apenas exercício físico. É treinamento integrado de corpo, mente e decisão sob pressão real, simultaneamente. Difícil pensar em algo mais relevante para quem lidera.

De Sergio Mallandro a Jereissati: o novo retrato do praticante

No Brasil, o jiu-jítsu também atravessou silenciosamente a fronteira entre o esporte de combate e o capital cultural da elite criativa. Cauã Reymond, ator da Globo, pratica desde os 13 anos e é faixa preta pelas mãos do mestre Alexandre "Gigi" Paiva, quinto grau de faixa preta, ex-bicampeão brasileiro de Jiu-Jítsu pela CBJJ (Confederação Brasileira de Jiu-Jítsu). Malvino Salvador recebeu sua faixa preta em agosto de 2024, em cerimônia simbólica conduzida pela própria esposa, Kyra Gracie, octacampeã mundial e bisneta de Carlos Gracie. Wagner Moura é faixa roxa, embora confesse que não consegue manter a disciplina dos treinos com as gravações. Já Sergio Mallandro, o humorista dos anos 80, treina desde os 18 anos e foi o sexto aluno do lendário Carlson Gracie.

Jean Jereissati Neto, que foi por cinco anos CEO da Ambev e que hoje está à frente da operação da AB InBev na América Central (o maior mercado do grupo), treina e compete em alto nível há anos.

Faixa preta na divisão Master 5 (competidores de 50 a 55 anos), levou ouro no Los Angeles Summer International Open da IBJJF (International Brazilian Jiu-Jitsu Federation) em 2025, na categoria Meio-Pesado, e bronze no Miami Winter International Open IBJJF 2026, na categoria Pesado. Para quem conhece o esporte, a marca é significativa: torneios IBJJF na faixa preta reúnem competidores experientes do mundo inteiro, e nada na trajetória de quem chega lá é improvisado.

Outro caso emblemático é o Andrew Wilson, CEO e Chairman da Electronic Arts. Faixa preta de jiu-jítsu, treina semanalmente, e em entrevista ao podcast Rapid Response (apresentado por Bob Safian, ex-editor-chefe da Fast Company, e parte da família de podcasts da Masters of Scale) fez uma das melhores articulações públicas que já se leu sobre como o esporte molda decisão estratégica.

"Jiu-jítsu te ensina que, com a técnica certa e preparação, você não precisa temer o grande".  Andrew Wilson, CEO e Chairman da Electronic Arts

Wilson aplica isso diretamente à posição da EA no mercado global de games: empresa grande o bastante para sentir a tentação de subestimar competidores menores, e ao mesmo tempo pequena o bastante diante das gigantes da tecnologia para precisar acreditar que pode disputar de igual para igual. É a mesma lição estratégica que Porter e Christensen escreveram em livros, mas Wilson aprendeu no corpo, faixa por faixa.

A tendência é tão consolidada no mundo executivo que está virando indústria própria. Jonathan Anastas, ex-CMO da ONE Championship (uma das maiores empresas globais focadas em artes marciais) e veterano de cargos seniores de marketing na Activision Blizzard e na Atari, hoje compõe o conselho consultivo da Professional Grappling Federation, a PGF. A liga, que se posiciona como "a NFL do jiu-jítsu", já vendeu franquias por valores de sete dígitos e tem em seu conselho figuras como Royce Gracie, Renzo Gracie, Carlos Machado, Jean Jacques Machado e Eddie Bravo. O sinal de mercado é claro: capital inteligente está apostando que o esporte deixou definitivamente de ser nicho e está se tornando produto premium.

Já Mark Zuckerberg, CEO da Meta, foi promovido à faixa azul em 2023 pelo professor Dave Camarillo e já compete em torneios oficiais, inclusive medalhou em sua estreia. Lex Fridman, pesquisador do MIT em inteligência artificial e host de um dos podcasts mais influentes do mundo no tema, é faixa preta. Andrew Huberman, neurocientista de Stanford que popularizou no Ocidente a discussão sobre neuroplasticidade aplicada, treina há anos. Joe Rogan é faixa preta sob Jean Jacques Machado e Eddie Bravo. Não é coincidência que algumas das vozes mais influentes em ciência, tecnologia e cultura intelectual treinem o mesmo esporte. Encontraram no tatame o que nenhuma sala de reunião entrega: a experiência do erro com consequência imediata, sem rede de proteção hierárquica.

E, para quem ainda enxerga o jiu-jítsu como esporte exclusivamente masculino, outro estereótipo que precisa morrer, o exemplo de Gisele Bündchen é muito simbólico. A modelo brasileira, uma das mulheres mais influentes do país globalmente, treina desde 2021 com os irmãos Valente em Miami e foi promovida à faixa roxa em dezembro de 2023, em ritmo notavelmente acelerado para os padrões da modalidade. Em entrevistas, Gisele tem sido explícita sobre o impacto que o esporte teve em sua vida: disciplina, foco, presença, recuperação de uma sensação de domínio sobre o próprio corpo.

Tom Hardy, o ator de Mad Max e Venom, é outro caso curioso: faixa azul competidor ativo, ganhou ouro em três torneios britânicos em um único mês de 2022, frequentemente em torneios beneficentes para veteranos militares.

O jiu-jítsu deixou de ser nicho e no mercado corporativo brasileiro, o fenômeno se manifesta com vigor crescente: aumento expressivo da procura por academias premium em São Paulo (Faria Lima, Itaim, Jardins e Brooklin) entre fundadores de fundos, sócios de bancos de investimento e CEOs de startups. O perfil do aluno mudou — ou talvez tenha voltado para a origem, uma prática da elite. O ambiente, também: ar-condicionado, vestiário com armário privativo, café expresso no fim do treino, agenda flexível e espaço de cowork para encaixar os treinos entre reuniões. Tudo o mais que se vê nos clubes de wellness privados.

As "not so soft skills" que o tatame ensina e o MBA não alcança

A literatura sobre artes marciais e desenvolvimento de caráter já consolidou um conjunto consistente de competências comportamentais associadas à prática regular. As palavras-chave que aparecem repetidas vezes nessas pesquisas são as mesmas que dominam a literatura contemporânea de liderança: responsabilidade, resiliência, coragem, integridade, perseverança, respeito por si e pelos outros, autocontrole, paciência, humildade, lealdade, capacidade de cooperação. Não é eufemismo do esporte. É achado empírico replicado em populações distintas, com instrumentos validados.

Cinco dessas competências merecem destaque especial todas com correspondência direta no exercício da gestão e liderança executiva.

A primeira é a regulação emocional sob pressão real. Aprender a respirar com alguém montado sobre você — em posição de controle total — e te estrangulando é, neurologicamente, uma reprogramação do reflexo de pânico. Depois de meses fazendo isso, uma reunião de board difícil deixa de acionar a mesma resposta autônoma. O sistema nervoso aprende a discriminar entre ameaça real e desconforto. Estudos com praticantes mostram redução documentada do tempo de reação, melhoria na inibição de respostas impulsivas e maior flexibilidade cognitiva, exatamente o que distingue líderes capazes de operar bem em crises daqueles que travam ou explodem.

A segunda é o autoconhecimento corporal. É a capacidade de perceber sinais internos (tensão, respiração, fadiga, frustração nascente) antes que se transformem em ruído ou erro de julgamento. Essa habilidade é hoje considerada por neurocientistas como base biológica da inteligência emocional: você não regula o que não sente.

A terceira é a criatividade sob restrição. No jiu-jítsu, raramente o plano A funciona. O adversário antecipa, neutraliza, contra-ataca. A capacidade de gerar alternativas em tempo real, de improvisar combinações inéditas com peças conhecidas, é exatamente o tipo de pensamento lateral que define inovação corporativa. Não por acaso, McKeown em Essentialism e Collins em Good to Great descrevem padrões análogos: lideranças excepcionais não vencem pela força, vencem pela capacidade de escolher onde investir energia quando o caminho óbvio se fecha.

A quarta é aprender a perder sem se desorganizar. Um faixa-preta pode bater para alguém menos graduado em qualquer dia, acontece mais do que se imagina. Ninguém é infalível no tatame. Você bate, levanta, agradece e tenta de novo. Brené Brown chamaria isso de vulnerabilidade praticada. No mundo executivo, traduz-se na capacidade de receber feedback duro, admitir erro publicamente e recompor sem destruir a equipe no caminho. É também o que torna o tatame um lugar improvável de networking autêntico: as relações se formam pela confiança forjada na vulnerabilidade compartilhada, não pela troca de cartões (ou Linkedins) em eventos corporativos.

A quinta é lidar com as próprias limitações de biotipo. Quem pesa setenta quilos não vai dominar quem pesa cento e dez pela força. Vai precisar de timing, alavanca, leitura e, acima de tudo, da habilidade de alternar entre cooperação e oposição que a prática em duplas exige: treinar com o parceiro de modo seguro, vencer o adversário no campeonato. No cérebro, essa alternância modela exatamente o tipo de comportamento esperado de executivos em ambientes de coopetição. Na estratégia, a metáfora é evidente: pequenas e médias empresas não competem com gigantes pelo músculo. Competem por agilidade, posicionamento e técnica. O tatame ensina, no corpo, o que Porter ensinou no papel: vantagem competitiva nasce da escolha consciente de onde você joga e como.

Em meu artigo anterior para esta coluna, defendi o papel do bridger — o construtor de pontes entre mundos distintos — como peça-chave para a inovação, conceito que Linda Hill introduziu na Harvard Business Review (edição de março-abril de 2026) e que ela, Emily Tedards e Jason Wild aprofundam em Genius at Scale (Harvard Business Review Press, 2026). O praticante avançado de jiu-jítsu treina, no corpo, exatamente esse papel: aprende que adversidade compartilhada cria laços mais fortes que afinidade compartilhada — e que cooperar com quem tenta te finalizar — forçar sua desistência — é a forma mais rápida de evoluir.

Há ainda um ponto que nenhum curso de liderança consegue ensinar com a mesma eficiência: o código ético prático. Em artes marciais, o código de conduta (respeito ao mestre, ao parceiro, ao adversário, à hierarquia) é parte integrante da prática diária e tem consequências reais. Você coloca sua integridade física na mão de outra pessoa, muitas vezes um completo desconhecido, com um combinado simples: se eu bater, você solta. Quem treina aprende, da pior forma, que força, talento ou técnica sem ética é risco para si e para os outros. Que poder sem responsabilidade é convite ao desastre ou até à fatalidade. Que humildade não é fraqueza, é estratégia: o praticante que se acha mestre para de aprender, e quem para de aprender, no jiu-jítsu como nos negócios, em pouco tempo apanha de quem nunca parou. Muriel Wilkins, em Leadership Unblocked (Harvard Business Review Press, 2025), nomeia esses padrões de autossabotagem como hidden blockers — crenças inconscientes como "eu preciso estar envolvido em tudo" ou "eu sempre tenho razão" que sabotam silenciosamente o desempenho de líderes seniores. No tatame, esses blockers não sobrevivem três minutos: a estrangulação não respeita autoimagem.

E talvez seja aí que o tatame entrega o que nenhum MBA alcança: não o diploma que comprova o que você sabe, mas o reflexo corporal que mostra, todo dia, o que você ainda não sabe. Você entra na academia como CEO, é apresentado a um adolescente que treina há algum tempo, e três minutos depois está batendo por uma chave de braço, estrangulamento ou — pior — por falta de gás. Esse nivelamento radical (o desaparecimento do cargo, do título ou do diploma) é uma das experiências mais potentes que eu conheço: no jiu-jítsu, não importa quão importante você seja — dentro do tatame, você vai apagar se não aprender a bater e recomeçar. Ou pior, vai se machucar. Ele é implacável com quem não aprende a humildade.

O novo retrato da liderança

Se antes o mercado valorizava o executivo agressivo, inflexível e dominante, hoje ganha espaço aquele que sustenta pressão, reconhece limites, ajusta rota e mantém serenidade quando o cenário desmorona.

Não é coincidência que esse perfil se sobreponha quase perfeitamente ao que se desenvolve no tatame. O jiu-jítsu não fabrica líderes, mas oferece semana após semana, um ambiente de simulação onde os instintos errados são corrigidos pelo próprio corpo — e os certos, condicionados em camadas profundas que nenhum curso de gestão consegue proporcionar.

Não estou propondo que toda equipe executiva vista quimono. Estou propondo algo mais modesto: que, na próxima vez em que você pensar em desenvolvimento de liderança, considere que talvez o ROI mais alto não esteja no próximo curso ou no próximo coach, mas em algo mais físico — biológico, até. Talvez esteja em duas horas semanais em uma academia perto do escritório, aprendendo a perder com elegância para alguém que não sabe (ou não liga) para quem você é lá fora. Eu garanto: é uma das aulas de gestão e humildade mais baratas e mais transformadoras que existem. E, como bônus, você ainda volta para casa cansado o suficiente para dormir.

A arte suave nunca foi sobre violência. Foi sempre sobre o que fazer quando o controle desaparece. Difícil pensar em uma habilidade mais valiosa para quem lidera em 2026.

Às vezes me pego pensando: será que, no final das contas, os pais das antigas — como os meus — já estavam nos treinando autorregulação e autocontrole, só que sem o paper de Stanford para justificar? Pelo amor de Deus, não deixem os meus saberem disso.

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