'Mercosul ficou para trás', diz presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira
O Mercosul não acompanhou a transformação das economias de Brasil e Argentina e precisa aproveitar o acordo com a União Europeia para se modernizar. A avaliação é de Federico Servideo, presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo (Camarbra).
"Temos que reconhecer que, nos 30 anos do Mercosul, o bloco ficou para trás. Não conseguiu acompanhar a evolução dos negócios e a transformação que o Brasil e a Argentina vivenciaram", afirmou à EXAME.
Os números reforçam o diagnóstico. De janeiro a setembro de 2026, as exportações brasileiras para o Mercosul caíram 10,4%, enquanto as vendas para a União Europeia cresceram 20%, para US$ 44,1 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Com a Argentina, a queda é maior. As exportações brasileiras ao vizinho somaram US$ 11,58 bilhões no período, recuo de 18,5%. A corrente de comércio, que soma exportações e importações, ficou em US$ 21,54 bilhões, queda de 9,3%. O recorde foi de US$ 39,6 bilhões, em 2011.
Acordo com a UE como chance
O acordo entre Mercosul e União Europeia é aplicado de forma provisória desde 1º de maio. Entre maio e setembro, as exportações brasileiras de produtos beneficiados pelo tratado cresceram 21%, segundo o MDIC.
Para Servideo, o acordo é "uma brilhante oportunidade" para o bloco "arrumar a casa" e deixar de ser "simplesmente uma barreira que protege os mercados internos".
"O acordo é tão importante pela abertura dos mercados europeus quanto por olhar para dentro e dizer que o Mercosul tem que se atualizar. Isso é um tema de vontade política, e hoje não existe vontade política de fazer isso", disse.
Ele cobra mudança sobretudo de Buenos Aires. "Todos esperamos que o bom senso de todas as partes, e notadamente o bom senso que mais se requer está do lado argentino, volte a ser preponderante."
Crise sem embaixadores
A relação entre os dois países se deteriorou em julho, quando Javier Milei atacou Lula na convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro. O Itamaraty convocou o embaixador brasileiro em Buenos Aires e, depois, rebaixou o nível das relações. O retorno dos embaixadores está descartado no momento.
"A relação bilateral tem 200 anos, e este deve ser um dos pouquíssimos momentos da história em que não temos embaixadores", afirmou Servideo. Segundo ele, os negócios "não se paralisaram", mas o impacto pode vir no futuro, porque a falta de interlocução dificulta resolver barreiras não tarifárias.
A queda no comércio se concentra no setor automotivo: as vendas de automóveis à Argentina recuaram 32%, e as de tratores, 51%, segundo o Comex Stat, do MDIC.
Cada um por si
Mesmo sem coordenação, os dois países vendem mais ao mundo. O Brasil acumula superávit de US$ 62,4 bilhões até setembro, e o MDIC projeta US$ 84,4 bilhões em 2026. A Argentina superou pela primeira vez US$ 10 bilhões de exportações em um mês, em setembro, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC).
"Isso demonstra que, mesmo trabalhando descoordenadamente, os dois países conseguem avançar. A pergunta que fica é: quanto mais poderiam avançar trabalhando de forma coordenada?", disse.
Para Servideo, falta visão de médio prazo. "Estamos do lado, é inevitável. Então vamos fazer uma boa integração pensando no médio e longo prazo."
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