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Saturday, October 3, 2026

Os médicos que não querem ter redes sociais

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O CFM só permitiu que os profissionais divulgassem seus serviços nas redes, seguindo as normas da entidade, a partir de março de 2024. No entanto, muitos médicos já tinham perfis antes disso, mas sem regulação do conselho, que possuía diretrizes consideradas muito restritas para a publicidade da área.

"Antes, a regulamentação era feita com base no Código de Ética Médica, sem normativas específicas. Depois de março de 2024, a resolução elucidou pontos controversos e estabeleceu regras mais específicas", diz Katiuscia Fogaça, que é médica e publicitária, com doutorado em comunicação social.

Regulamentação do CFM

Antes de 2024, a regulação do uso das redes sociais de modo profissional era um pedido frequente de muitos médicos. "Havia essa necessidade, até mesmo pela mudança social, por causa dessas relações que são tratadas também virtualmente. A internet se tornou um cartão de visita importante para muitos médicos", afirma Fogaça, que integra a Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos (Codame) do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR).

Para muitos médicos, as redes se tornaram uma obrigação e eles tratam o assunto de forma cada vez mais profissional. Muitos investem em empresas especializadas em marketing para produzir os conteúdos para as plataformas.

Não há um levantamento sobre quantos profissionais possuem perfis em redes como Instagram e TikTok. "Nos nossos cadastros não colocamos a obrigatoriedade do médico informar as mídias sociais próprias", explica Rivello. O CFM já tentou implementar um selo especial para os médicos nas redes sociais, mas o pedido não foi atendido pela Meta, dona do Instagram, WhatsApp e Facebook.

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Enquanto há médicos que gostam de estar nas redes sociais, outros afirmam que estão nelas por pura obrigação. Já aqueles que não estão nessas plataformas tentam, ao máximo, continuar distantes delas.

Fora das redes

Alves é dermatologista, uma das especialidades médicas que mais recorrem às redes sociais, segundo o CFM. Os conteúdos sobre procedimentos estéticos, comuns em áreas como dermatologia e cirurgia plástica, estão entre os mais difundidos nas plataformas digitais.

"Toda vez que você mistura interesses comerciais com áreas sensíveis, como a medicina, pode haver indução a erros e vieses. Há gente que acerta no que faz nas redes, mas já me mostraram algumas condições bem questionáveis de colegas", afirma Alves. "A medicina demanda uma explicação, uma proteção e uma sinceridade que, muitas vezes, não consegue ser passada em um vídeo curto. Muitas vezes, o que precisa ser feito não é algo glamouroso para as redes."

Nas consultas, muitos pacientes do dermatologista costumam se queixar que não o encontraram no Instagram. "Aí eu explico que não tenho rede social. Já faz mais de dez anos que escuto que tenho que fazer um Instagram, que é fundamental e tudo mais. E o tempo vai passando, eu continuo sem redes e as coisas continuam funcionando", conta.

O dermatologista atende diversos funcionários de empresas de tecnologia próximas ao consultório dele, na região do Itaim Bibi, em São Paulo (SP). "Tenho vários pacientes dessas empresas, muitas delas da área de mídia social, e o pessoal vem aqui mesmo que eu não tenha um perfil em rede social. Acaba sendo, basicamente, indicação interna, um indica para o outro", diz.

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"Eu não conseguiria fazer vídeos todos os dias, responder 400 perguntas no Instagram, atender e tal. Eu não tenho tempo para isso. E eu acho estranho terceirizar esse tipo de serviço, porque a pessoa que entra em contato com o médico quer falar comigo, não com um terceiro que vai responder. Isso é um negócio curioso."

Alves avalia que perde pacientes por não ter redes sociais, mas pontua que há outras formas de ser descoberto. "Dias desses, uma paciente disse que me encontrou porque foi pesquisar o meu nome para ver a minha formação, o que eu já tinha feito e quem eu era, por isso me escolheu. Isso também é uma forma importante para um paciente."

As redes para médicos iniciantes

Não são apenas os médicos que atuam na área da estética que estão em massa nas redes. Nas plataformas há também inúmeros profissionais como psiquiatras, ortopedistas, nutrólogos, endocrinologistas, ortopedistas, entre outros. "Há profissionais de todas as especialidades. É uma questão de demanda e oferta. Como isso tem crescido cada vez mais, muitos sentem essa necessidade de também fazer a publicização do trabalho", afirma Fogaça.

Os médicos mais novos estão entre aqueles que mais sentem necessidade de abrir um perfil nas redes, dizem os especialistas. Além da questão geracional – os mais jovens costumam ter maior familiaridade com o tema –, isso ocorre porque esses profissionais precisam ser descobertos por possíveis pacientes, além de fortalecer a própria marca, principalmente os que atendem em clínicas particulares.

Mas nem todo jovem médico está nas redes. Emilio Abelama Neto, de 31 anos, não cogitou ter um perfil no Instagram ou no TikTok quando concluiu a residência médica em psiquiatria, no início de 2023. "Não tenho nenhuma rede profissional, só um Instagram pessoal, mas nem tenho o aplicativo no meu celular, acho que nunca postei nada."

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A dinâmica dessas plataformas é um dos motivos para que ele evite utilizá-las. "Eu acho que as redes têm alguns problemas. É difícil manter o controle sobre o uso delas, porque há um mecanismo que pode levar as pessoas a se viciarem. E é um ambiente muito voltado à propaganda, que ganha muito com o tempo das pessoas. É uma lógica que não me interessa", afirma.

Neto atende em consultórios particulares, mas a sua principal atuação é a área da pesquisa. Ele afirma que sem redes sociais, médicos e pacientes podem ter contato, quando necessário, por meio do WhatsApp ou por ligação telefônica. "Antigamente, podia ser comum até por e-mail, caso o paciente precisasse entrar em contato para questões mais técnicas."

Ele diz que tem notado um movimento na psiquiatria de profissionais que usam as redes para serem encontrados por novos pacientes. "Só que tem muita gente que posta conteúdos de qualidade muito baixa, ou por pouco conhecimento, ou pela maneira ali que vai tentar aplicar, acaba virando muito comercial. É preciso ter um cuidado grande."

Os problemas das redes dos médicos

Os médicos que usam as redes profissionalmente precisam seguir algumas condições apontadas pelo CFM como fundamentais para a categoria. Para divulgar imagens e resultados de procedimentos, por exemplo, é preciso que o paciente não seja identificado e as informações sobre a intervenção precisam estar claras na publicação, como as indicações, fatores que influenciam os resultados e as possíveis complicações.

O conselho não permite que o médico prometa resultados, divulgue informações falsas ou atribua eficácia privilegiada a técnicas e equipamentos. Os comentários elogiosos de pacientes ou terceiros, compartilhados pelos profissionais, também são consideradas como publicações do médico e ficam sujeitos às mesmas regras.

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Na prática, essas regras do CFM nem sempre são respeitadas. Isso pode levar a punições. O conselho orienta que o profissional faça correções, mas caso as adequações não sejam feitas, o caso pode até mesmo virar um Processo Ético-Profissional (PEP).

Nos últimos anos, os conselhos de medicina passaram a receber inúmeras denúncias referentes a publicações de profissionais que não seguem as normas estabelecidas. Segundo Rivello, os números de processos relacionados a irregularidades nas redes sociais superaram os de erros em procedimentos médicos ou falta de assistência aos pacientes, que eram os mais comuns no passado. O CFM informou que não tem levantamentos sobre esses processos em todo o país até o momento.

Normalmente, segundo o conselho, os profissionais são notificados, fazem as adequações necessárias e os procedimentos são encerrados. Muitos desses médicos notificados por irregularidades alegam que contrataram agências que não seguiram as regras da categoria.

Mudança na rotina

Entre os alvos dessas notificações dos conselhos estão as publicações que propagam desinformações. Esse tipo de conteúdo sem base científica prejudica até mesmo a rotina de outros profissionais.

Sofia Moreira, de 31 anos, é médica de família e comunidade (MFC), no Sistema Único de Saúde (SUS), e vivencia o impacto da desinformação divulgada por colegas nas redes. "Passo grande parte das consultas tendo que desmentir falas de médicos do Instagram. Infelizmente, tem muito médico fazendo conteúdo que não é baseado em evidência científica, que não tem sentido com a realidade das pessoas, muitas vezes para ganhar dinheiro em cima disso."

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"O problema é que há muitos profissionais que querem apresentar soluções fáceis, simplistas, sobre problemas que são muito mais profundos do que, por exemplo, uma falta de vitamina", completa.

Mas as redes não são apenas desinformação, frisa Moreira. Ela diz que também há conteúdo positivo nessas plataformas. "Muitos pacientes vêm com informações corretas e interessantes que olharam em perfis de médicos. Existem conteúdos interessantes."

"O ideal seria que as redes sociais não fossem vistas como lugar para angariar pacientes, mas sim para compartilhar informações e promoção de saúde, com medicina baseada em evidência. Mas sei que isso é algo utópico", afirma.

A médica não tem redes sociais e não planeja usá-las profissionalmente. Apesar disso, ela não descarta que, no futuro, se sinta na obrigação de criar um perfil profissional. "Enquanto eu conseguir estar no SUS, não faz parte dos meus planos ter uma rede social. Mas se eventualmente eu migrar para uma clínica, pode acontecer de criar um perfil, mas seria a contragosto", diz.

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