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Thursday, October 1, 2026

Porque é que ninguém reconhece Jesus depois de ressuscitar?

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Muito bem-vindos a mais um episódio especial de "As Histórias da Bíblia", nesta terceira temporada. Todas as semanas, às quintas-feiras, continuamos a responder a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia. Temos recebido muitas questões no nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt e também nos comentários do YouTube e das plataformas de podcast. Portanto, já sabem, nós estamos aqui todos os domingos às 9h da manhã, na antena da Rádio Observador e sempre em podcast. Também às quintas-feiras, neste episódio que é mais curto e é exclusivamente em podcast pra responder às dúvidas dos ouvintes. Todos aqueles que quiserem colocar perguntas aos padres João Bastos e Daniel Nascimento sobre a Bíblia, podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt. No episódio do último domingo, estivemos a falar sobre Moisés, a figura que resgatou o povo hebreu do Egito. Se não ouviu na Rádio Observador, pode encontrar o episódio em podcast em todas as plataformas. E esta semana vamos tentar responder a uma pergunta que nos foi enviada pela nossa ouvinte Anita Silva. Mandou-nos um e-mail que, como muitos dos nossos ouvintes, começa por nos agradecer pelo podcast e pelo que temos feito com o comentário e a análise à Bíblia todas as semanas na Rádio Observador. E a pergunta vai direto ao ponto: por que razão ninguém reconhece Jesus depois da ressurreição? Vem num corpo diferente? Por quê? Tem um corpo? A nossa ouvinte está a tocar num aspecto, Daniel, que realmente é interessante. Os Evangelhos têm vários momentos destes. Por exemplo, quando Jesus, depois de ressuscitar, pergunta à Madalena: "Por que choras?" Ela não percebe que é ele que lhe está a perguntar.

Pensa que é o jardineiro.

Quando aparece junto aos discípulos que estavam à pesca, também só o reconhecem quando a rede vem cheia de peixes. Obviamente, há a célebre história de Emaús, em que os dois discípulos não reconhecem Jesus. Vamos aqui mesmo direto à pergunta da ouvinte: por que isso acontece? Ressuscita num corpo, é um corpo diferente?

Não, mas é preciso reconhecer que aqui estamos no limite da linguagem. Ou seja, quando falamos da ressurreição, aliás, estes capítulos finais dos Evangelhos que nos narram o que é que acontece depois da ressurreição, estamos aqui no âmbito de algo único, que de certa forma, mais do que o resto da vida de Jesus, ou diferentemente do resto da vida de Jesus, não pode ser bem colocado ou descrito por palavras. E se é verdade que os evangelhos também, às vezes, nos falam de ressurreição pra referir outras coisas, por exemplo, a ressurreição de Lázaro, a do filho da viúva de Naim, que no fundo é gente que estava morta volta à vida, mas depois volta a morrer. Aqui trata-se de algo único, trata-se de algo especial e que é descrito, de certa forma historicizado pelos evangelistas, mas que corresponde a algo que, em última análise, não é captável por palavras. O que os evangelistas se esforçam por nos dizer é que é o mesmo Jesus, não é um outro Jesus, não é um fantasma, não é um espírito. Por exemplo, quando aparece, diz-nos São João, aos discípulos reunidos, quando Tomé não está com eles, inicialmente Tomé não está, depois só o reconhece na vez seguinte, sublinha-se esta importância de se verem os cravos, os sinais da paixão. Daí que, até na estatuária cristã, o Cristo ressuscitado tem essas marcas. Não é um outro corpo, é o mesmo corpo. No entanto, não é reconhecível, como dizias, e bem, nesses outros episódios, não é imediatamente reconhecível. Depois, na teologia cristã, por exemplo, no catecismo da Igreja Católica, esta sistematização da fé católica feita nos anos 90, seguindo também uma linguagem já clássica na Igreja, é um corpo glorificado, é um corpo ressuscitado, é um corpo da glória, que é o corpo autêntico e real de Jesus Cristo, mas de certa forma é um corpo que não está sujeito aos ditames do espaço e do tempo e que por isso aparece e desaparece seguindo outro tipo de leis. Portanto, os evangelistas, de certa forma, tentam sublinhar a continuidade e a descontinuidade, porque a ressurreição é o mesmo Jesus, mas já não é este Jesus. Este Jesus terreno, este Jesus reconhecível e palpável. Já está no domínio de Deus e não no domínio das coisas da Terra. Como é que nesses relatos é feito o reconhecimento? Como é que Jesus depois se revela? É pela fé, é pela palavra, é pelos gestos. Se pegarmos neste episódio dos discípulos de Emaús, que no fundo é uma catequese sobre a Eucaristia, se quiseres. Estes dois discípulos desiludidos encontram este Jesus. O leitor sabe que é Jesus, porque o narrador não o diz, mas eles não o reconhecem. Esse reconhecimento é feito quando Jesus pega no pão, parte o pão, distribui o pão, evocando assim o gesto da Última Ceia, o gesto da Eucaristia.

Nessa história em específico, a história nem faria sentido se eles o reconhecessem à partida. Ou seja, a história e toda a narrativa desse episódio bíblico assenta na ideia de que eles achavam que ele ia ressuscitar, ele parece que não ressuscita, e eles vão desiludidos a pensar: "Então, prometeram-nos aqui uma coisa e não acontece nada", e aparece este estranho Eles vão desabafando essa ideia a um estranho, falando de Jesus na terceira pessoa. Até mesmo do ponto de vista dos evangelhos, pra narrativa literária dos evangelhos, é importante nesses episódios que Jesus não seja reconhecido imediatamente pelas outras personagens.

Exatamente. E depois, nesse episódio, vai explicando, vai fazendo uma exegese, uma hermenêutica das escrituras no que toca ao Messias esperado. E vai iluminando com a Palavra, com a explicação da Palavra, esses dois discípulos desiludidos. E depois é no gesto do pão que se revela e depois desaparece ao fazer isso. No fundo, mais do que propriamente um acontecimento histórico observável por um observador externo que estivesse ali a ver acontecimentos, os evangelistas tentam dizer o que não pode ser dito, mas transportar-nos pra esta experiência de Jesus, que é a plena revelação da vida do Pai.

A ressurreição é um tema complicado, no sentido do fato que o Daniel diz, ou seja, está de certa maneira no limite da linguagem. Dá vontade de citar Wittgenstein quando se diz "de que não há palavras é melhor pessoa se calar", de certa maneira. É dos temas que às vezes são mais recorrentes na caixa de comentários e às vezes até comentários muito menos simpáticos do que o da Anita, a dizer que estão aqui pessoas que não têm fé nenhuma. Mas é preciso ver que as histórias da ressurreição e a Bíblia, nesse sentido, como a fundadora desta história de Jesus, enquanto corpo literário, querem tentar colocar de parte dois grandes extremismos e duas leituras um bocadinho radicais da ressurreição. Uma é a ideia de que a ressurreição é meramente uma metáfora, uma espécie de espiritualismo, que isto da ressurreição, na verdade, é uma história edificante sobre como é que um homem consegue vencer todos os seus problemas e que no fim, independentemente do que aconteça, do mal que sofra, vai ficar tudo bem, numa espécie de coisa cósmica, espiritual.

Sim, no fundo, fisicamente não aconteceu nada, isso foi só uma ressurreição na fé dos discípulos. Um fenômeno meramente interior, simbólico.

Simbólico. E depois há o outro extremo, que é: isto é histórico, real, material, no sentido que Jesus está a falar comigo depois de ressuscitado, como eu estou a falar contigo, João Francisco, e como eu estou a falar aqui com o Daniel. Ora, a Bíblia quer confundir estas duas leituras. Jesus realmente não pode estar a falar com os discípulos como falava antes. É o mesmo Jesus, porque eles depois reconhecem-no, mas antes não o reconhecem. Portanto, há qualquer coisa em Jesus que é diferente e que não é imediata. E nesse sentido, a ressurreição recapitula tudo aquilo que já vimos na história da Bíblia, desta ideia de não dominar Deus. E Deus, na ressurreição, não se deixa dominar. A ressurreição não corresponde à ideia de que a minha avó, que já morreu, levanta-se e está igual à Maria Eduarda que eu conhecia. Isso não faz sentido nenhum. É preciso retirar isso, que a Bíblia não diz isso. Nós temos de ser 100% fiéis à palavra de Deus. A Bíblia não diz isso. A ressurreição não é isso. Mas também não é a minha avó que só está presente na minha vida quando eu me lembro dela em pensamentos, a minha avó assalta-me quando eu estou a cozinhar, porque eu cozinhava com a minha avó. As coisas não são só assim. A Bíblia quer retirar esses dois extremos e colocar no centro Jesus, que não é dominável, que não é imediatamente reconhecido, que não é evidente, mas que é o mesmo Jesus, com este corpo glorioso, que tinha quatro propriedades na doutrina antiga, que era transparência, claridade, subtileza e impassibilidade. É um corpo diferente. Reparem como eu andei a estudar.

Muito bem, fica por aqui este episódio especial em que procuramos responder à dúvida enviada pela nossa ouvinte Anita Silva. Muito obrigada, Anita, por nos ter enviado esta questão. Já sabe, se quiser enviar uma pergunta pro podcast "As Histórias da Bíblia", escreva-nos para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt ou pode deixar um comentário na plataforma onde nos estiver a ouvir. Nós voltamos no próximo domingo com mais um episódio da nossa terceira temporada. Vamos falar sobre o profeta Daniel e o tempo que passou no exílio na Babilônia. E na próxima quinta-feira voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.

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