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Saturday, September 12, 2026

Não basta trabalhar: “o Luís” tem de correr

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A nossa classe política vai para a cama todas as noites e adormece sem precisar de contar carneirinhos, embalada por um pensamento tranquilizador: por mais que André Ventura berre e esperneie, ele nunca — nunca, jamais, em tempo algum — chegará ao poder. Esta convicção baseia-se em dois mandamentos, inscritos em pedra, que podiam ter sido trazidos por Moisés do Monte Sinai. Primeiro mandamento: os eleitores do Chega votam em André Ventura para ele protestar, mas nunca votariam nele para governar. Segundo mandamento: entre os portugueses, a taxa de rejeição a Ventura é tão estratosférica que impedirá sempre que ele reúna os votos suficientes para entrar no palacete de São Bento com a bandeira do Chega na mão. Não pretendendo tirar o sono a ninguém, convém assinalar que tudo isto, obviamente, é um misto de ilusão e ignorância de quem acha que o mundo começa no Cabo da Roca e acaba em Paradela.

É inegável: neste momento, uma parte substancial da mobilização de voto no Chega tem como combustível o protesto. Mas as duas palavras mais importantes daquela frase são “neste” e “momento”. Durante incontáveis anos, os eleitores do partido da família Le Pen também eram franceses com vontade de tomar a Bastilha e de afiar a guilhotina, mesmo que apenas metaforicamente. Mas, a dada altura, isso mudou. Um estudo recente sobre o comportamento dos eleitores concluiu que, nas legislativas de 2022, os apoiantes da União Nacional foram aqueles que mais votaram por “adesão” e menos votaram por “oposição”. Ou seja: não foram a correr para as urnas com o objetivo de castigar “o sistema”, mas com a vontade de efetivamente ajudar o partido a chegar ao poder. Na Alemanha, aconteceu a mesmíssima coisa com a AfD. Na mais recente campanha eleitoral, na Saxónia-Anhalt, o partido fez uma mudança de slogans que revela uma mudança de atitude: antes, os apoiantes da AfD iam para os comícios gritar “Já chega!”; agora, entusiasmam-se com um poético “Tudo é possível!”.

A taxa de rejeição do Chega também é uma dificuldade ultrapassável. Para que ela se eclipse, basta que André Ventura tenha a sorte de encontrar o adversário perfeito. Quando, nas últimas presidenciais, Ventura enfrentou António José Seguro, estava a combater um misto de frade e santo: o socialista não assustava ninguém; o socialista não enfrentava ninguém; o socialista, na verdade, nem era bem socialista e, em certo momento, até duvidou, ele próprio, que fosse de esquerda. Mas, noutros países, os astros já se alinharam para ajudarem os candidatos da direita radical. No Brasil, Flávio Bolsonaro tem como adversário Lula da Silva, que arrasta consigo suspeitas, casos, acusações de corrupção e uma passagem pela cadeia. Em França, Marine Le Pen vai defrontar Jean-Luc Mélenchon, que é conhecido por insultar jornalistas (de “fascista” a “filho da mãe”), que é regularmente denunciado por comportamentos antissemitas e que pretende tratar a economia francesa como se fosse o seu pequeno kolkhoz. Se André Ventura tiver paciência, um dia, mais cedo ou mais tarde, a esquerda irá cometer a imprudência de achar que a melhor forma de derrotar o Chega é arranjando um candidato igualmente radical. Aí, forçados a escolher, muitos eleitores passarão a considerar Ventura o último bastião de resistência contra um outro político que os intimida e assusta.

Há duas formas de chegar ao poder: a rápida e a lenta. A rápida passa pela entrada direta nos partidos do regime. A lenta passa pela substituição dos partidos do regime. Presumo que, ao decidir sair do PSD e fundar o Chega, André Ventura tenha tido consciência de que ia seguir o caminho mais lento. Por isso, em princípio, não terá pressa. Já Luís Montenegro pode estar aprisionado numa fantasia: se achar que as coisas são e continuarão a ser aquilo que sempre foram, estará a cometer um erro irreversível. Na última campanha, o PSD pediu aos eleitores que deixassem “o Luís trabalhar”. Foi suficiente para ganhar as últimas legislativas, mas dificilmente será suficiente para ganhar as próximas. Não basta trabalhar: “o Luís” tem de correr. Se não mudar drasticamente o país, pode dar-se o caso de ser o país a mudá-lo a ele.

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