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Tuesday, September 29, 2026

Crise econômica atinge cinturão agrícola dos Estados Unidos

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John Yeley passou os últimos 26 anos trabalhando na fazenda de sua família, que pertence aos Yeley desde 1852.

Ele é a sétima geração a administrar a propriedade em Illinois, próximo à divisa com Indiana. Embora pretenda continuar no campo, Yeley não sabe se gostaria que o filho de 16 anos e a filha de 12 assumissem os negócios da família, diante das dificuldades econômicas enfrentadas atualmente.

“Do jeito que as coisas estão agora, não. Eu não desejaria isso para eles”, disse, ao falar sobre a atividade agrícola.

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Agricultores como Yeley e especialistas do setor concordam que a agricultura dos Estados Unidos atravessa uma recessão dolorosa. As propriedades rurais enfrentam preços recordes do diesel, combustível essencial para o funcionamento das máquinas. Disputas comerciais reduziram o acesso a mercados importantes.

As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio elevaram os custos dos fertilizantes, enquanto os agricultores também lidam com juros mais altos sobre os empréstimos necessários para financiar o período entre o plantio e a colheita.

Yeley não sabe se terá lucro nesta temporada, mesmo com a alta dos preços do milho e da soja. “Não somos um condado grande, mas três agricultores quebraram este ano”, afirmou Yeley. “Sei que isso está na cabeça de todo mundo: será que realmente vale a pena continuar? O nível de estresse está bastante alto”, disse à CNN.

Custos recordes para manter operação

Atualmente, o preço do diesel é o problema mais urgente para os agricultores.

O diesel é um combustível essencial para o funcionamento de máquinas agrícolas, como tratores e colheitadeiras. A média nacional do preço do diesel subiu mais rapidamente que a da gasolina e está próxima do recorde recente de US$ 6,53 por galão. Em vários estados do cinturão agrícola do Meio-Oeste, o custo é ainda maior. Em Illinois, por exemplo, o preço médio era de US$ 6,82 por galão na sexta-feira.

Os agricultores geralmente compram milhares de galões por ano. Yeley costuma adquirir 8.500 galões duas vezes por ano para abastecer as máquinas.

“Este é o primeiro ano da minha vida adulta em que não compramos uma carga completa de combustível na primavera ou no outono por causa do custo. Temos comprado aos poucos, 1.000 ou 1.500 galões por vez, na esperança de que o preço caísse”, disse. “Infelizmente, isso não está acontecendo”.

“Você trabalha tanto e não ganha dinheiro”

Agricultor, Sammy Tookey cultiva diversos tipos de alimentos como tomates, milho, melões, pimentões, abóboras, alface e pimentas. Em uma área de 10 acres no norte da Califórnia, região conhecida pela produção de vinhos. Ele vende cerca de metade da colheita para uma cooperativa de alimentos e o restante em três feiras de produtores por semana.

Tookey sente o impacto da alta dos preços do diesel, além dos custos de caixas de papelão e fertilizantes, que também subiram dois dígitos no último ano.

Sammy Tookey, à esquerda, e seu padrasto, George Kibby, cultivam vegetais e frutas na fazenda de Tookey, no norte da Califórnia. • Divulgação

A guerra da Rússia contra a Ucrânia interrompeu inicialmente o fornecimento de algumas matérias-primas necessárias para a produção de fertilizantes, elevando os preços. A situação piorou neste ano, quando a guerra no Oriente Médio interrompeu exportações de fertilizantes. Segundo especialistas e agricultores, os preços do insumo estão até 50% mais altos em relação ao ano anterior.

Tookey aumentou os preços de seus produtos, mas não o suficiente para acompanhar a disparada das despesas. Segundo ele, não quer afastar os clientes.

Embora planeje voltar a plantar na primavera, ele não sabe por quanto tempo continuará sendo agricultor. Tookey vai se casar no fim de outubro e se preocupa com a possibilidade de sustentar uma família e, no futuro, os filhos.

“Conseguir ter uma família e uma fazenda parece quase impossível”, disse.

Seu padrasto, George Kibby, tem uma visão ainda mais pessimista sobre a situação atual da agricultura. Ele se aposentou em julho, após 40 anos no setor, porque a terra que arrendava no condado de Orange, na Califórnia, foi vendida para a construção de moradias.

O custo da terra, dos equipamentos e da mão de obra, somado à instabilidade dos preços de itens essenciais, como diesel e fertilizantes, torna impossível ganhar a vida com a atividade atualmente, afirmou.

“Nós, pequenos agricultores, não temos muita chance”, disse Kibby, que se mudou para o norte com a esposa neste verão para ajudar Tookey. “Você trabalha tanto e não ganha dinheiro”, frisou.

Aumento das perdas e das falências

Além do custo das matérias-primas, diversos outros fatores pressionam os agricultores.

A maioria dos produtores contrai empréstimos de curto prazo para cobrir os custos entre o plantio e a colheita. As taxas de juros estão mais altas à medida que os bancos centrais aumentam os juros para conter a inflação, elevando o custo do crédito.

As diversas disputas comerciais dos Estados Unidos, especialmente com a China, reduziram o acesso a mercados importantes para produtos como a soja. Isso pressiona os preços no curto prazo, enquanto os agricultores temem perder participação de mercado no longo prazo.

“Nossa fazenda e a grande maioria das propriedades que conheço esperam ter prejuízo neste ano, e a maioria também teve prejuízo no ano passado”, disse Aaron Lehman, presidente da União dos Agricultores de Iowa e agricultor de quinta geração.

“A agricultura naturalmente tem altos e baixos, mas, quando isso acontece ano após ano, em algum momento você deixa de ser um bom risco de crédito e não consegue mais pegar dinheiro emprestado para continuar produzindo”, acrescentou Lehman, que cultiva milho, soja, aveia e feno.

O número de falências de propriedades rurais aumentou 20% nos 12 meses encerrados em junho, na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados federais de pedidos de falência. Mas o pior ainda está por vir, afirmou Tom Ajamie, advogado que atua no setor agrícola.

Aaron Lehman, presidente da União dos Agricultores de Iowa, cultiva milho, soja, aveia e feno, sendo um agricultor de quinta geração. • Divulgação

“Muitos desses agricultores estão no limite”, disse. “Então, sim, há um aumento de 20% agora, mas o que acontece nos próximos dois, quatro ou cinco meses? Muitos agricultores estão apenas se segurando neste momento. Você verá esse número aumentar, eu garanto”.

Alguns parlamentares de estados agrícolas, como o senador republicano Charles Grassley, de Iowa, pressionaram o governo Trump a proibir as exportações de diesel dos Estados Unidos como forma de oferecer alívio imediato. Muitos especialistas em energia, porém, duvidam que a medida reduza os preços do combustível.

A American Farm Bureau Federation e outras organizações do setor agrícola defendem a aprovação de uma nova lei agrícola, que já foi aprovada pela Câmara dos Representantes. A proposta inclui medidas de apoio aos produtores, como o aumento dos limites dos empréstimos agrícolas federais, que não são alterados desde 2018.

“Quando chegarmos ao período de transição após as eleições, acredito que poderemos encontrar um caminho bipartidário para avançar em muitas questões”, disse John Newton, vice-presidente de políticas públicas e análise econômica da American Farm Bureau Federation, referindo-se ao período entre as eleições de meio de mandato e o início do novo Congresso.

Mesmo que uma nova lei seja aprovada, e mesmo que o preço do diesel caia ainda neste ano, isso não ajudará os agricultores que estão colhendo suas lavouras agora.

Fontes disseram à CNN que se sentem vítimas de acontecimentos iniciados em diferentes partes do mundo e sobre os quais não têm controle.

“Os agricultores estão acostumados a lidar com a imprevisibilidade do clima, das condições do solo e dos animais”, disse Lehman. “Decisões de política econômica que colocaram os agricultores na linha de frente dos danos econômicos, isso é o que causa muita frustração”, destacou.

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