Por que chimpanzés e bonobos carregam filhotes mortos por semanas ou meses
Quando um filhote de chimpanzé morre, a mãe o carrega nas costas por dias, semanas ou até mesmo meses. O mesmo acontece entre os bonobos, outra espécie do gênero Pan, parentes mais próximos dos humanos. Este é um comportamento que intriga cientistas há décadas e levanta questionamentos sobre o quão conscientes sobre a morte essas espécies talvez sejam.
Um novo estudo publicado em setembro na revista científica Biology Letters analisou dados de 83 casos documentados em 15 lugares. Os cientistas da Universidade de Oxford, na Inglaterra, apontam que o comportamento dos primatas não deve ser interpretado como uma evidência de que essas espécies compreendem a morte em si, mas que ele pode indicar para existência de fortes vínculos entre mães e seus filhotes.
"Os vínculos maternos em nossos parentes vivos mais próximos são notavelmente poderosos e persistentes, o comportamento de cuidado não necessariamente cessa quando o filhote morre", aponta Thomas A. Püschel, professor de antropologia evolutiva em Oxford e um dos autores do estudo, em entrevista à Folha. "Isso nos lembra que a vida social dos primatas não humanos é complexa, mas também ilustra por que precisamos ter cuidado ao traduzir seu comportamento diretamente para conceitos humanos como luto ou uma compreensão da mortalidade."
No levantamento, o grupo percebeu diferenças na duração do ato de carregar os filhotes, de apenas 30 minutos a até 126 dias, com uma média geral de cerca de 11 dias.
Para formular hipóteses sobre as causas não só do comportamento quanto de sua duração, os pesquisadores aplicaram modelos estatísticos para testar nove hipóteses correntes na primatologia: causa da morte, idade do filhote no momento da morte, investimento materno, transmissão cultural, decomposição lenta, experiência materna (quantos filhotes ela já teve), idade materna, facilitação social e sexo do filhote.
A causa do óbito foi o que mais influenciou a duração do comportamento. Filhotes que morreram por doenças tendem a ser carregados por mais tempo do que aqueles mortos por infanticídio, uma prática comum entre machos de chimpanzés.
Segundo os autores, mortes traumáticas criam um contexto social tenso, envolto em disputas e perigo iminente em torno do corpo, o que pode forçar o abandono imediato. Já nas mortes por enfermidades, a ausência de ameaças externas permite que a mãe mantenha sua rotina de cuidados sem sobressaltos.
Filhotes mais velhos também foram carregados por mais tempo, assim como em locais onde o intervalo médio entre nascimentos é maior. Segundo Püschel, esse último padrão sugere que a persistência do comportamento está ligada à força do vínculo mãe-filhote e ao quanto de investimento reprodutivo aquela população normalmente dedica à prole, e não, necessariamente, a uma reflexão sobre a morte em si.
"Nossos achados não nos dizem que chimpanzés e bonobos carecem de uma compreensão da morte, acho provável que eles possuam ao menos algum grau dessa compreensão, mas isso permanece uma questão em aberto", afirma o pesquisador.
Para Püschel, é mais útil pensar em um espectro de compreensão da morte ao invés de nos perguntarmos se eles entendem ou não o que é a morte de maneira binária. "Os animais podem reconhecer que um indivíduo deixou de funcionar normalmente, ou distinguir vivos de mortos, sem necessariamente elaborar o conceito abstrato de irreversibilidade biológica."
Por serem os parentes vivos mais próximos dos humanos, chimpanzés e bonobos funcionam como um espelho evolutivo.
"Se respostas prolongadas a indivíduos mortos podem emergir de sistemas de apego e cuidado parental poderosos, sem exigir uma compreensão plena da irreversibilidade da morte, então alguns dos fundamentos emocionais e comportamentais que consideramos tipicamente humanos diante da morte provavelmente são evolutivamente muito antigos", explica Püschel.
Isso significa que a estrutura cognitiva mais complexa que os humanos usam para entender a morte pode ter se desenvolvido mais tarde na linhagem dos hominídeos, depois que nossa linhagem se separou do último ancestral comum que compartilhamos com chimpanzés e bonobos.
Os autores ressaltam, no entanto, que o trabalho é observacional, ou seja, baseado majoritariamente em dados de populações selvagens, e não experimental, o que impede concluir com precisão o que os animais efetivamente compreendem sobre a morte.
"Nossos achados podem identificar os fatores associados à variação no comportamento de carregar o corpo, mas não podem, por si só, estabelecer os processos cognitivos por trás desse comportamento", atenta Püschel.
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