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Tuesday, October 6, 2026

Como Ibrahim Traoré se livrou dos franceses

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O Império Persa achava que podia controlar o destino dos outros financiando as suas guerras, alimentando as suas divisões e lucrando com a sua fraqueza mútua. Resultou durante décadas.

Financiava alternadamente Atenas e Esparta e desta forma fomentou a desconfiança mútua entre as potências gregas, e garantiu que nenhuma ficasse forte o suficiente para a ameaçar.

Até que de um mundo grego enfraquecido e dividido saiu Alexandre Magno. Em dez anos varreu o Império Persa da face da terra.

Ibrahim Traoré não estava nos planos dos franceses.

Aos 36 anos, o Coronel que governa o Burkina Faso desde 2022, é provavelmente o líder mais inconveniente para a narrativa que sempre dominou o continente africano, porque em vez de ser mais um ditador africano dependente da ajuda externa e da tutela das antigas potências coloniais, deixou de o ser.

O que Traoré está a fazer é simples e radical em simultâneo:

  • Soberania sobre os recursos naturais do país, principalmente o ouro, o mais abundante mas também o zinco, manganês e outros minerais, tendo produzido este ano 94 toneladas de ouro e inaugurado a sua primeira refinaria para processamento interno do mineral.
  • Expulsão das bases militares francesas, afastando os franceses das mediações externas que durante décadas sugaram a riqueza do Sahel em troca de uma estabilidade que nunca chegou.
  • Laicidade do Estado, sendo ele muçulmano, mantendo a religião fora do poder, rompendo com o islamismo político que avança pela região e garantindo a liberdade religiosa da sua população.

É Ibrahim Traoré a aplicar o Sistema Americano de Henry Clay e Alexander Hamilton ao Sahel. O mesmo que Trump está a trazer de volta à América: protecionismo, industrialização, soberania sobre os recursos e recusa de tutela externa. O Trumpolitics chegou a África, com menos Truth Social e mais pragmatismo, mas com a mesma lógica de fundo.

A França, que durante décadas geriu o franco CFA como instrumento de controlo económico sobre as suas antigas colónias com uma moeda cunhada em Paris, garantida pelo tesouro francês e que mantinha África francófona numa dependência elegantemente disfarçada de parceria, e sempre que os líderes regionais fugiam do diapasão, ou os limpavam literalmente, ou arranjavam outros lacaios para os servirem, está a descobrir pela primeira vez o que a Pérsia descobriu. A armadilha que preparou para os outros voltou-se contra o próprio.

Todas as noites, espontaneamente, cidadãos do Burkina Faso montam guarda à porta do quartel onde Traoré dorme, com medo de o perderem para os mercenários que já por mais de uma vez o tentaram eliminar. Não se decreta este tipo de amor. Não se compra. Acontece. Patrice Lumumba jamais.

O Sahel está a sair da esfera francesa. O ouro, o urânio, o algodão estão a ser renegociados. E Paris, que durante sessenta anos foi o “árbitro indispensável” da África Ocidental, está a tornar-se irrelevante para a conversa que está a acontecer.

E Traoré não age sozinho, pois se perdermos um pouco do nosso tempo a escutar as suas intervenções e discursos, na maior parte sem guião e em discurso direto, percebemos imediatamente a sua inteligência e a sua determinação.

Conseguiu reunir um consenso com os seus vizinhos do Mali e do Níger e formar a Aliança dos Estados do Sahel, entretanto formalizada como Confederação dos Estados do Sahel. A arquitetura institucional que transforma uma rutura em projeto: Carta de Liptako-Gourma como fundação, uma força militar conjunta de cinco mil efetivos, moeda própria, passaporte comum, canal de televisão partilhado.

E a saída formal da CEDEAO, a comunidade económica regional que Paris sempre usou como câmara de compensação dos seus interesses no continente.

É uma rotura total do sistema saído da Segunda Guerra Mundial e que manteve o colonialismo encapotado durante anos e assim os interesses dos antigos senhores intactos e intocáveis. Até agora…

A França achava que a CEDEAO era uma instituição africana. Era no fundo a instituição francesa com bandeira africana. Perdeu definitivamente o último mecanismo formal de influência sobre o Sahel.

Traoré sabe que a Françafrique não dorme. A DGSE mantém-se alerta, com as suas manigâncias de sempre, os mesmos métodos que liquidaram Lumumba e depuseram Sankara, que instalaram e desinstalaram presidentes ao ritmo dos interesses de Paris.

Traoré conhece o manual de cor. Por isso dorme num quartel com o povo à porta.

Giorgia Meloni, num discurso que correu o mundo, disse em voz alta o que África sussurrava há décadas: que a França saqueia o continente em nome da ajuda ao desenvolvimento, que o franco CFA é uma corrente dourada e que a hipocrisia tem nome e endereço: Paris.

Traoré deve regressar a este discurso mais do que uma vez, e não esquece!

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