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Tuesday, September 22, 2026

Mais maduro, Sant volta a refletir sobre ‘O Que Separa os Homens dos Meninos Vol. 2’

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Onze anos após o EP que abriu a trilogia, o rapper carioca retorna mais maduro e troca a raiva do primeiro capítulo por paternidade, saúde mental e perdão

Kadu Soares (@kadusoares__)

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Sant
Sant (Foto: Ciro Neves)

Em 2015, aos 16 anos, Sant lançou O Que Separa os Homens dos Meninos, um EP carregado de raiva, mágoa e da urgência de processar erros ainda recentes. Onze anos depois, o Vol. II chega como uma continuação natural dessa conversa — só que narrada por outra pessoa: alguém que virou pai, atravessou perdas e ganhou a distância necessária para revisitar o próprio passado sem a pressa de justificá-lo.

Essa maturidade define o novo tom temático do disco. Se o primeiro volume girava em torno da dor recente e do crescimento forçado, Vol. II amplia o espectro para pertencimento, saúde mental, paternidade e perdão — temas que Sant reconhece só conseguir tratar com essa profundidade agora, depois de mais de uma década de estrada. A mudança aparece também na forma de cantar: a cadência de Sant ganhou calma. Onde antes a urgência do primeiro volume pedia versos mais acelerados e nervosos, aqui ele rima com uma cadência mais contida, quase deliberada, como quem já não precisa provar nada com pressa. É uma entrega consciente do próprio peso, que deixa espaço para a letra respirar em vez de atropelar o ouvinte.

A faixa-título abre o álbum com participação de Emicida, um dos encontros mais simbólicos do projeto. Sant retoma o conceito original da trilogia — de que a diferença entre “homens” e “meninos” não está na idade, mas em como cada um encara a adversidade — e aplica esse olhar ao amadurecimento precoce imposto pela realidade das periferias, agora observado com a consciência de quem já viveu tempo e perda suficientes para entender o próprio processo. “Ó, várias ruas, mesmo ensinamento / Saiba controlar teu sentimento / Dê valor pro que tem no momento / Talvez amanhã se vá com o vento”, reflete.

Carta de Amor” é o outro grande pico emocional do disco. Dedicada ao filho, a faixa constrói a metáfora de pontes e equilíbrio para falar sobre conexão familiar e gratidão, em um dos momentos mais desarmados da carreira de Sant. Junto com “Fronteiras”, um samba dentro de um álbum de rap, criam um lado mais leve do disco.

Meio” é onde a produção mais impressiona: a instrumentação orgânica, quase jazzística, sustenta a reflexão de Sant sobre ocupar um papel intermediário entre gerações — nem jovem, nem veterano —, sofrendo por coisas banais e sorrindo de assuntos mais sérios. “Sofro por coisas banais / Sorrio de assuntos mais sérios / Passeio entre gerações / Sou tipo filho do meio”, canta na introdução. A faixa reúne MC Marechal, da velha guarda, e L7NNON, da nova geração, colocando Sant entre as duas pontas que descreve na letra.

Apesar do número alto de participações, o disco evita a armadilha do excesso. “Corre”, com Duquesa, 2ZDINIZZ, ADL, Clara Lima e Pecaos, funciona em crescente, com cada verso empurrando a tensão adiante em uma reflexão direta sobre sobrevivência e a rotina da periferia. KL Jay também marca presença em “Pergunta Se Eu Consegui”. Mas é Céu quem rouba a cena em “Vida Real”, trazendo uma camada de MPB que aprofunda o tom sincero do álbum e expõe o choque entre o peso do cotidiano e a busca por equilíbrio mental — talvez a tarefa mais difícil descrita em todo o disco.

A saúde mental atravessa o álbum de ponta a ponta: da abertura com Emicida à participação de Whindersson Nunes — que aborda abertamente a própria depressão e a pressão de viver sob exposição pública constante —, até a carta dedicada ao filho, na quinta faixa. É um fio condutor que dá ao disco uma coerência temática ainda mais notável em um projeto com um elenco tão extenso de convidados. O Que Separa os Homens dos Meninos Vol. II confirma que Sant encontrou a distância certa do próprio passado pra reescrevê-lo com mais nuance. Onze anos depois do primeiro capítulo, o rapper prova que virar homem não significa deixar de sentir como menino, apenas aprender a nomear o que antes só doía em silêncio.

Sant já confirmou que a trilogia terá um terceiro e último volume, ainda sem data definida. Depois desse salto de maturidade entre o primeiro EP e essa sequência, fica a curiosidade de onde essa história vai parar: se aqui ele já soa como alguém que fez as pazes com boa parte do próprio passado, resta saber o que mais o tempo ainda vai revelar até o capítulo final.

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Kadu Soares (@kadusoares__)

Kadu Soares é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, possui um perfil no TikTok e um blog no Substack, onde faz reviews de projetos musicais.

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