O que famílias passaram a cobrar da escola além de um bom boletim
Samuel Szejnfeld terminou o ensino médio com 44 pontos de 45 possíveis no International Baccalaureate (IB), programa internacional de formação escolar adotado por instituições de diferentes países. O resultado dá continuidade a uma sequência de notas de destaque obtidas, desde 2025, por alunos da The British College of Brazil, escola privada com duas unidades na Zona Sul de São Paulo.
Apesar do resultado, não era esse o principal critério de Patrícia Szejnfeld quando escolheu a escola do filho. O desempenho acadêmico importava, diz ela, mas a expectativa também era encontrar um ambiente que desenvolvesse autonomia, pensamento crítico e capacidade de conviver com outras culturas.
O caso ajuda a ilustrar uma mudança na régua usada pelas famílias para avaliar a formação dos filhos. Uma pesquisa de 2025 divulgada pelo Center for Education, dos Estados Unidos, constatou que, embora 53% das famílias ainda esperem que a escola prepare para o ensino superior, 61% dizem valorizar a aprendizagem socioemocional no ambiente escolar. O estudo ouviu quase 10 mil famílias de 16 países, incluindo o Brasil.
Entre os educadores, a formação para além de notas, provas e acesso à universidade é ainda mais urgente. Cerca de 45% acreditam que o objetivo da escola é formar cidadãos e 37,4% valorizam a formação socioemocional. Para pais e professores, boletim e universidade continuam no radar, mas já não resumem tudo o que se espera da escola.

Samuel e Patrícia Szejnfeld: desempenho acadêmico divide espaço com autonomia e pensamento crítico (Arquivo pessoal/Divulgação)
Sucesso além das notas
A The British College of Brazil acompanha esse movimento. O currículo mantém disciplinas tradicionais, mas adota uma lógica menos centrada apenas na memorização de informações. Segundo a instituição, os estudantes são estimulados a pesquisar, construir argumentos, relacionar diferentes áreas do conhecimento e sustentar as próprias conclusões.
É nesse processo, diz a escola, que competências como pensamento crítico, comunicação, adaptabilidade, resiliência e empatia passam a fazer parte da formação.
A proposta não é substituir o conteúdo acadêmico, mas ampliar sua aplicação: preparar o aluno para usar o que aprende em contextos diferentes, trabalhar com outras pessoas e tomar decisões com mais autonomia.
Para as famílias, a expectativa é que essa formação ajude os filhos a lidar não apenas com a etapa seguinte da vida acadêmica, mas também com escolhas difíceis de antecipar. Profissões mudam, novas tecnologias surgem e trajetórias profissionais se tornam menos lineares. Nesse cenário, saber aprender, rever decisões e se adaptar ganha importância ao lado do domínio de conteúdos específicos.
Uma formação com perspectiva global
Outro elemento que entrou nessa equação é a capacidade de conviver com diferentes culturas e perspectivas. Na BCB, essa convivência começa dentro da própria escola.
Segundo a instituição, metade dos alunos e 75% dos professores são estrangeiros, em uma comunidade que reúne mais de 38 nacionalidades.
Isso coloca diferenças culturais, de idioma e de repertório dentro da rotina dos estudantes. O contato ocorre em sala de aula, nos trabalhos em grupo e nas relações cotidianas, em situações que exigem ouvir outros pontos de vista, explicar as próprias referências e conviver com formas diferentes de pensar.
A proposta se estende também para fora da escola. Integrante da Nord Anglia Education, a BCB participa de iniciativas desenvolvidas em parceria com instituições como MIT, Juilliard e Unicef, além de oferecer experiências internacionais e atividades que aproximam seus alunos de estudantes de outros países.

Formação global: escola aproxima alunos de instituições e estudantes de diferentes países (The British College/Divulgação)
Da escola para o mundo
Essa dimensão aparece na trajetória de Maria Eduarda Pedroso, ex-aluna da escola. Hoje, ela cursa Engenharia Elétrica na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Antes disso, aos 12 anos, passou por um internato na Suíça.
Para os pais, a experiência da filha mudou a forma como passaram a pensar a educação do filho mais novo, Rodrigo, atualmente no Year 6. “Na idade do Rodrigo, com a Maria Eduarda, eu entendia educação simplesmente como parte acadêmica”, diz a mãe, Fernanda Pedroso. “O que fazia sentido para mim era ter notas boas nas matérias curriculares.”
Hoje, ela diz prestar atenção também à capacidade de debater, falar em público, participar de projetos, estudar arte e música e desenvolver uma visão crítica sobre o que acontece ao redor.
A mudança ganhou uma dimensão prática quando Maria Eduarda chegou à Pensilvânia. Lá, encontrou uma universidade com alunos de diferentes países e uma estrutura que permite rever escolhas acadêmicas ao longo do curso. Entrou com interesse em ciência e engenharia de materiais, migrou para Engenharia Elétrica e passou a avaliar também uma formação em negócios na Wharton.

Rodrigo, Maria Eduarda e Fernanda Pedroso: família passou a valorizar formação que vai além do desempenho acadêmico (Arquivo pessoal/Divulgação)
Para os pais, a adaptação foi facilitada por experiências anteriores à graduação, como estudar fora, conviver com diferentes nacionalidades e tomar decisões com mais independência.
O pai Rodrigo Pedroso destaca outro aprendizado. Durante o processo de candidatura para universidades no exterior, percebeu que o histórico escolar era apenas uma parte da avaliação. Projetos, interesses, atividades extracurriculares e experiências fora das disciplinas regulares também entravam na análise.
A experiência passou a influenciar o que o casal espera agora da formação de Rodrigo. Eles querem que o filho tenha bom desempenho em matemática, ciências e inglês, mas também que aprenda a formular opiniões próprias, defender ideias e conviver com pessoas que tiveram experiências diferentes das dele.
O que vem depois das notas
Uma nota alta no IB ou a aprovação em uma universidade disputada continuam sendo sinais objetivos de desempenho. Mas são marcos de uma trajetória que não termina ali.
A expectativa dessas famílias é que, ao deixar a escola, o aluno também consiga tomar decisões, mudar de direção quando necessário, se comunicar com pessoas diferentes e enfrentar situações para as quais não existe uma resposta pronta.
O boletim continua importante. Só deixou de ser a medida inteira do que significa estar preparado para o futuro.
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