IA turbina economia de países ricos, mas pressiona avanço dos emergentes, diz FMI

Impulsionada pela corrida por investimentos em inteligência artificial, a economia mundial deve crescer mais do que o previsto em 2026, segundo o FMI. A institituição, porém, alerta para um cenário cada vez mais desigual: enquanto economias avançadas, especialmente na Ásia, colhem os efeitos do avanço tecnológico, países emergentes enfrentam os impactos da alta dos preços da energia causada pela guerra no Oriente Médio.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) elevou ligeiramente sua previsão para o crescimento da economia mundial em 2026, mas advertiu que a atividade global continua pressionada por forças opostas: de um lado, o aumento dos investimentos em inteligência artificial; de outro, a disparada dos preços da energia provocada pela guerra no Oriente Médio.
Em suas projeções atualizadas, divulgadas nesta terça-feira (13) em Bangcoc, na Tailândia, o FMI passou a prever crescimento global de 3,1% em 2026, alta de 0,1 ponto percentual em relação à estimativa divulgada em julho. Em 2025, a economia mundial avançou 3,5%. Para 2027, a previsão foi mantida em 3,4%.
Segundo o Fundo, a revisão para cima reflete principalmente o desempenho melhor do que o esperado das economias avançadas, sobretudo na Ásia, impulsionadas pelo forte aumento dos investimentos ligados à inteligência artificial.
Já os países emergentes enfrentam dificuldades decorrentes da alta dos preços do petróleo e do gás causada pelo conflito no Oriente Médio. Em muitos casos, governos têm recorrido a subsídios para reduzir o impacto da energia mais cara sobre consumidores e empresas, comprometendo recursos públicos já limitados.
O FMI observa que os países dependentes da importação de energia e que não participam diretamente da onda de investimentos em inteligência artificial permanecem entre os mais vulneráveis. O resultado é uma economia global marcada por diferenças cada vez maiores entre os ritmos de crescimento.
"A economia mundial demonstrou capacidade de resistência, mas essa resiliência está sendo colocada à prova, e os riscos continuam apontando para uma piora do cenário", afirmou Silvana Tenreyro, economista-chefe do FMI.
O Brasil ficou na contramão da revisão positiva promovida pelo FMI para a economia global. O organismo reduziu sua projeção para o crescimento brasileiro em 2026, de 2,4% para 2,2%, e para 1,9% em 2027. Segundo o Fundo, a desaceleração reflete, entre outros fatores, os efeitos dos juros elevados, a retirada gradual dos estímulos fiscais e as incertezas do cenário internacional.
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Dívida pública e inflação preocupam
O relatório também chama atenção para o aumento da dívida pública em diversas regiões do mundo, inclusive nas economias mais desenvolvidas.
Segundo Deniz Igan, diretora da divisão de pesquisa do FMI, os governos precisam conciliar medidas para enfrentar problemas imediatos, como inflação, segurança alimentar e energia mais cara, com o objetivo de preservar a estabilidade econômica nos próximos anos.
Para a instituição, uma guerra prolongada no Oriente Médio e a continuidade das tensões geopolíticas podem voltar a pressionar a inflação, deteriorar as contas públicas e atingir com mais intensidade os países de baixa renda e dependentes de importações de energia.
Ao mesmo tempo, o FMI adverte que o forte entusiasmo em torno da inteligência artificial também envolve riscos. Caso investidores reduzam suas expectativas sobre ganhos de produtividade e lucratividade do setor, o fluxo de investimentos poderá diminuir rapidamente, com efeitos sobre a atividade econômica e os mercados financeiros.
Em entrevista à AFP, Silvana Tenreyro afirmou que a inteligência artificial respondeu por quase metade do crescimento do comércio mundial entre 2023 e 2025, mas ressaltou que esse impulso poderá enfraquecer caso o mercado reveja suas projeções para o setor.
Alemanha e Espanha impulsionam melhora na Europa
A zona do euro apresentou desempenho melhor do que o previsto anteriormente. O FMI elevou sua estimativa para 2026, que agora supera 1%.
A principal contribuição veio da Alemanha. Depois de três anos difíceis, incluindo dois de recessão, a maior economia europeia deverá crescer 1,3% em 2026, uma revisão para cima de 0,6 ponto percentual.
A Espanha também teve sua previsão elevada e deverá registrar expansão de 2,5%. A França seguiu na direção oposta. O FMI reduziu em 0,2 ponto percentual sua expectativa para a economia francesa e agora prevê crescimento de apenas 0,4% neste ano. Para 2027, a projeção foi reduzida para 0,7%.
Segundo o Fundo, a desaceleração francesa está ligada aos efeitos de eventos climáticos extremos, como ondas de calor e incêndios durante o verão europeu, além das incertezas políticas.
Guerra provoca forte retração no Oriente Médio
As economias mais diretamente afetadas pela guerra no Oriente Médio registraram as revisões mais negativas. A Arábia Saudita deverá encerrar o ano com retração de 3,3%, resultado cinco pontos percentuais inferior ao previsto anteriormente.
O FMI também projeta queda de 16% para o Iraque, quase o mesmo percentual para o Catar, retração de 16,7% para o Kuwait e de 11,3% para o Bahrein. No caso do Irã, a expectativa é de contração de 7,6%.
Apesar do cenário atual, o Fundo avalia que a região poderá se recuperar relativamente rápido quando o conflito terminar, embora ressalte que persiste um elevado grau de incerteza.
China perde força enquanto Índia acelera
Entre as principais economias do mundo, a China continua desacelerando. O FMI agora prevê crescimento de 4,5% em 2026 e de pouco mais de 4% em 2027. Segundo a instituição, a fraqueza do consumo interno continua sendo um dos principais obstáculos para a expansão da economia chinesa.
Na direção contrária, a Índia teve uma das maiores revisões positivas do relatório. A previsão de crescimento foi elevada em 0,6 ponto percentual, para 7%. O FMI atribui o desempenho à força do mercado consumidor doméstico e à expansão do setor de serviços, fatores que vêm sustentando o crescimento indiano.
FMI mantém apoio a Mali, Burkina Faso e Níger
Paralelamente à divulgação das projeções econômicas, o FMI reafirmou a continuidade de sua cooperação com Mali, Burkina Faso e Níger, três países da África Ocidental governados por juntas militares que formam a Aliança dos Estados do Saara (AES).
Em 8 de outubro, a instituição aprovou um novo programa de financiamento para o Níger, no valor de US$ 203 milhões ao longo de três anos. Apesar de terem deixado a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao) e enfrentado sanções nos últimos anos, os três países continuam mantendo programas com o FMI e com o Banco Mundial.
Segundo a instituição, as relações com os governos de Bamako, Ouagadugu e Niamey permanecem "sólidas e construtivas". Desde a chegada dos atuais regimes militares ao poder, Mali, Burkina Faso e Níger receberam cerca de US$ 1 bilhão em desembolsos vinculados aos Direitos Especiais de Saque (DES), instrumento financeiro criado pelo FMI para reforçar as reservas dos países-membros.
O Banco Mundial também anunciou neste ano novos programas de cooperação com os três países, concentrados em áreas como geração de empregos, infraestrutura e desenvolvimento do setor privado.
Em dezembro, Mali, Burkina Faso e Níger lançaram uma instituição financeira própria, apresentada pelos governos como uma ferramenta para ampliar sua autonomia em relação aos organismos internacionais. Até agora, porém, essa instituição ainda não realizou nenhum desembolso.
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