'Não tem discussão, tem especulação', diz CEO do Itaú sobre mudança nos juros
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O CEO do banco Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, afirmou nesta quarta-feira, 4, que mudanças nas políticas fiscal e monetária e uma redução acelerada da Selic ainda são especulação. O executivo prevê juros restritivos por período prolongado e defende a recuperação do grau de investimento. Maluhy também vê pouca perspectiva de retomada do mercado de capitais.
O CEO do Itaú Unibanco (ITUB4), Milton Maluhy Filho, afirmou nesta quarta-feira, 4, que as discussões sobre possíveis mudanças na condução da política fiscal e monetária ainda estão no campo da "especulação".
Em meio à repercussão das ideias do economista André Lara Resende para reduzir os juros e alterar a coordenação entre as políticas fiscal e monetária, o executivo disse que o mercado deve aguardar propostas concretas antes de avaliar eventuais mudanças.
"Não tem ainda uma discussão, acho que tem especulação", afirmou Maluhy durante coletiva de imprensa sobre os resultados financeiros do banco no 3° trimestre deste ano. "Quando surgem especulações, ideias, sugestões ou recomendações, procuramos manter a serenidade e avaliar apenas propostas concretas", acrescentou.
A declaração ocorre em um momento de maior sensibilidade dos investidores à condução da política econômica após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo, 25.
A possibilidade de uma reunião entre o presidente e Lara Resende para discutir alternativas de ajuste fiscal trouxe de volta ao debate a proposta do economista de reduzir a Selic de forma acelerada, dos atuais 13,75% para cerca de 7,5% em 12 meses, além de criar um conselho fiscal e monetário para coordenar as políticas econômica e monetária.
Ontem, 3, porém, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que o governo esteja avaliando a proposta. Segundo o titular da pasta, as ideias apresentadas por Lara Resende ainda são incipientes e têm "várias deficiências". Durigan também afirmou que não há nenhuma proposta sobre o tema na mesa do presidente Lula.
Para Maluhy, o mercado aguarda justamente definições sobre os rumos da política econômica e, em particular, sobre quem comandará o Ministério da Fazenda e como será sua atuação. "O mercado, por definição, não tem partido, não é? O mercado olha para propostas concretas", disse.
O executivo também defendeu que o Brasil volte a perseguir o grau de investimento, o chamado selo "Investment grade", classificação de baixo risco de crédito concedida pelas agências de classificação de risco. Segundo o CEO do banco, recuperar esse selo pode ampliar a capacidade de financiamento do país, tanto em volume de recursos quanto em condições de preço.
"Eu acho que esse é um bom objetivo para o país: voltar a ter o selo de grau de investimento. Quando a gente olha na região, boa parte dos países da América do Sul tem o selo de investimento. Isso afeta a capacidade de financiamento do país, seja do ponto de vista de volume de recursos, seja do ponto de vista de preço e capacidade de financiamento", afirmou.
Inflação e juros prolongados preocupam CEO
Na avaliação de Maluhy, a discussão sobre os juros não pode ser dissociada do comportamento da inflação e da situação fiscal. O CEO afirmou que as políticas sociais e fiscais precisam caminhar juntas e alertou para os efeitos de uma eventual deterioração das expectativas inflacionárias.
Segundo o executivo, o mercado já revisa suas projeções para a inflação, com estimativas próximas de 6%, distantes do centro da meta. Entre os fatores de pressão, citou combustíveis, desvalorização cambial, efeitos da reforma tributária e mudanças na jornada de trabalho.
"Quando a inflação piora, a ação e reação do Banco Central são os juros", afirmou. Maluhy acrescentou que mais de 70% das instituições consultadas pelo mercado já esperavam uma pausa no ciclo de redução da Selic na decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta.
Na visão do CEO, os juros devem permanecer em patamar restritivo por um período prolongado, possivelmente durante todo o próximo ano, a depender das condições econômicas.
O executivo também fez um alerta sobre tentativas de acelerar a redução dos juros sem que existam condições econômicas para isso. Segundo Maluhy, uma queda forçada da taxa básica poderia produzir o efeito contrário no custo de financiamento de longo prazo.
"O risco que corremos ao imaginar que a queda de juros de curto prazo pode ser feita na força bruta é o efeito que isso gera na sequência: a curva de juros de longo prazo, onde todas as empresas se financiam e as pessoas físicas também, vai aumentar de forma importante, porque o risco aumentou", disse.
Para o CEO, a redução estrutural dos juros depende de ganhos de produtividade e crescimento econômico sem pressão inflacionária. "É do interesse de todos trabalhar com juros estruturalmente mais baixos. Mas, para isso, a gente precisa criar as condições", afirmou.
Itaú vê mercado de capitais com pouca perspectiva de retomada
Além das discussões sobre a política econômica, Maluhy demonstrou cautela em relação às perspectivas para o mercado de capitais brasileiro. Durante a coletiva, o CEO apontou que a combinação de incertezas macroeconômicas e maior seletividade dos investidores deve manter as emissões em ritmo reduzido nos próximos meses.
O executivo afirmou que o mercado de debêntures já registra uma retração próxima de 25% nos volumes neste ano. No segmento de ações, a situação é ainda mais prolongada: as operações de abertura de capital (IPOs, na sigla em inglês) e ofertas subsequentes (follow-ons) estão praticamente paralisadas há anos.
"Esse é um mercado que vem parado já há muito tempo. Foram feitas transações muito pontuais, uma abertura de capital, uma outra transação de follow. Mas o resultado desse negócio já há alguns anos tem sido muito baixo", afirmou.
A desaceleração também aparece nos números do próprio Itaú. O segmento de Negócios de Atacado, que reúne as atividades do Itaú BBA, incluindo banco de investimento, operações com grandes empresas e clientes institucionais, registrou receita gerencial de R$ 15,24 bilhões no terceiro trimestre, queda de 2,67% em relação ao mesmo período de 2025.
As receitas de serviços e tarifas do segmento recuaram 7,36% na comparação anual, para R$ 3,94 bilhões. Já a margem financeira caiu 1,03%, para R$ 11,10 bilhões.
Maluhy atribuiu parte da retração à menor atividade no mercado de capitais, com menos espaço para novas emissões, redução das receitas com distribuição de dívida e operações de repricing, quando as empresas renegociam as condições de financiamento.
O executivo afirmou que o banco já percebe uma desaceleração tanto na originação quanto na distribuição de títulos de dívida. Embora ainda existam oportunidades para empresas com bom perfil de crédito, a tendência é de operações em volumes menores.
"Eu acho que essa janela está distante agora. Para dívida sempre vai ter oportunidade, especialmente para bons nomes que querem acessar o mercado. Vai depender muito da dinâmica de mercado daqui para frente", afirmou.
Na avaliação do CEO, a incerteza é um dos principais obstáculos à retomada das emissões. Com maior imprevisibilidade, investidores tendem a adotar uma postura mais cautelosa na alocação de recursos, enquanto empresas adiam decisões de investimento e captação.
"Ainda tem muita incerteza, e incerteza não combina com o mercado de capitais. Os investidores tendem a ser mais cautelosos na alocação dos seus portfólios", disse o executivo do Itaú, que vê chance de uma retomada a depender, principalmente, de maior clareza sobre o cenário macroeconômico. "Quanto mais definições e previsibilidade, maior a chance do mercado retomar ou ficar fechado por um prazo mais longo", concluiu.
'Perguntas frequentes'
O que Milton Maluhy Filho disse sobre uma possível redução acelerada da Selic? +
Milton Maluhy Filho afirmou que as discussões ainda estão no campo da especulação e que o mercado deve avaliar apenas propostas concretas. O CEO do Itaú Unibanco comentava as ideias de André Lara Resende para reduzir a Selic de 13,75% para cerca de 7,5% em 12 meses e criar um conselho fiscal e monetário.
Por que os juros podem permanecer altos por mais tempo? +
Segundo Milton Maluhy Filho, os juros devem permanecer em patamar restritivo possivelmente durante todo o próximo ano, a depender das condições econômicas. O executivo afirmou que o mercado projeta inflação próxima de 6% em 2026, pressionada por fatores como combustíveis, câmbio, reforma tributária e mudanças na jornada de trabalho.
Qual é o risco de forçar uma queda da taxa Selic? +
Segundo Milton Maluhy Filho, uma redução forçada da Selic pode elevar a curva de juros de longo prazo porque aumenta a percepção de risco. Esse movimento encareceria o financiamento de empresas e pessoas físicas.
Por que o CEO do Itaú defende que o Brasil recupere o grau de investimento? +
Milton Maluhy Filho defende a recuperação do grau de investimento porque o selo pode ampliar a capacidade de financiamento do Brasil. Segundo o executivo, a classificação de baixo risco influencia tanto o volume de recursos disponível quanto os preços e as condições de crédito.
Como está o mercado de capitais brasileiro? +
Segundo Milton Maluhy Filho, o mercado de debêntures registra retração próxima de 25% nos volumes neste ano, enquanto IPOs e ofertas subsequentes permanecem praticamente paralisados. O CEO do Itaú atribui a baixa atividade às incertezas macroeconômicas e à maior cautela dos investidores.
Como a desaceleração do mercado de capitais afetou o Itaú? +
O segmento de Negócios de Atacado do Itaú registrou receita gerencial de R$ 15,24 bilhões no terceiro trimestre, queda de 2,67% ante o mesmo período de 2025. Milton Maluhy Filho atribuiu parte da retração à menor atividade em emissões, distribuição de dívida e operações de renegociação das condições de financiamento.
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