Silêncio de Toffoli desperta desprezo de Lula e fortalece Mendonça

Declarada sua suspeição "por foro íntimo", Toffoli não profere decisão sobre nada relacionado ao Master desde fevereiro. Mas, na histórica sessão do dia 15 de setembro, se quisesse, poderia ter reivindicado direito a voto.
No entendimento de assessores do Supremo diretamente ligados ao caso, a questão de ordem levantada por Gilmar Mendes sobre analisar a situação de Moraes e Mendonça conjuntamente comportava uma exceção.
A objeção de Gilmar não atingia o mérito da sessão, que era abrir ou não uma investigação sobre Moraes.
Tanto assim que o próprio Moraes votou —sem ser contestado —, assim como Mendonça.
Toffoli tinha motivos para se juntar ao bloco dele. Os dois foram os primeiros a ser citados em investigações com familiares envolvidos em relações comerciais com o Master e agora estão sob intenso escrutínio.
Mas o ministro preferiu o silêncio. E deixou, assim, de dar maioria a Moraes, seu amigo desde os tempos da Faculdade de Direito da USP no final dos anos 1980 em São Paulo.
Relação de "carinho"
Naquela sessão histórica em que o plenário deveria decidir se Alexandre de Moraes seria ou não investigado, uma cena silenciosa e fora das câmeras remeteu à relação discreta que já dura 20 anos entre Toffoli e Mendonça.
Nos primeiros minutos de sessão, Toffoli pronunciou as poucas palavras que emitiria no dia para anunciar que, mais uma vez, estava fora do julgamento.
"Por suspeição de foro íntimo, para preservação da Corte, do ponto de vista de eventuais especulações, eu declaro a minha suspeição para participar desse julgamento, mas não me retirarei", disse Toffoli.
Ao contrário do ministro Nunes Marques, que se declarou impedido e deixou o plenário, Toffoli lá ficou.
De toga, em sua cadeira de ministro, em silêncio.
Um capinha, como são chamados os assessores dos ministros, pegou um bilhete escrito à mão por Mendonça, contornou Moraes na cadeira ao lado, e o entregou a Toffoli.
O ministro desdobrou o papel, leu e olhou para o remetente. Fez um joinha com o polegar e voltou as atenções ao plenário.
Toffoli abriu portas fundamentais para Mendonça

Lá se vão quase duas décadas desde que Toffoli abriu portas a Mendonça pela primeira vez.
Em 2007, aos 40 anos de idade, Toffoli, um advogado talentoso do PT, assumiu a Advocacia-Geral da União (AGU), no segundo governo Lula.
Sentou na cadeira e, num dos primeiros atos no cargo, baixou uma portaria que remodelou a carreira no órgão, o que lhe conferiria popularidade e reconhecimento internos.
A medida criava três níveis na carreira da AGU, e permitiu a promoção de mais de 500 advogados da União à categoria "especial". Entre eles estava André Luiz de Almeida Mendonça.
Então aos 35 anos, Mendonça atuou como subcorregedor disciplinar e diretor do departamento de patrimônio e probidade da AGU.
Chamou atenção do chefe pela diligência com que conduziu a negociação para recuperar dinheiro público de um escândalo para lá de rumoroso.
Mendonça costurou um acordo para que ninguém menos que Lalau, o famigerado juiz Nicolau dos Santos Neto, e o empresário Luiz Estêvão devolvessem pelo menos parte dos R$ 170 milhões (em valores da época) desviados num esquema no Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo nos anos 1990.
Depois de dois anos à frente da AGU, Toffoli foi escalado para alçar voos mais altos. Mas não se esqueceria dos serviços prestados por aquele calouro prodigioso.
Em 2009, o presidente Lula o indicou para uma vaga no Supremo e dez anos se passaram até que o caminho dos dois se cruzasse novamente.
Quis o destino que Jair Bolsonaro assumisse a Presidência no mesmo ano em que Toffoli se tornasse presidente do Supremo.
Bolsonaro procurou Toffoli e ouviu dele entusiasmo sobre um nome para ocupar a AGU no novo governo: André Mendonça.
Como demonstração da gratidão, Mendonça organizou, ainda em 2019, um livro em homenagem a Toffoli. E numa dessas ironias da história, seu colaborador foi justamente Alexandre de Moraes, com quem hoje vive em pé de guerra.

Na publicação, a dupla elogiou "a profunda capacidade de diálogo" de Toffoli, o ministro ora silenciado pelas relações suspeitas com Vorcaro no grande escândalo nacional.
Em 2021, uma vaga no STF se abriu, e Bolsonaro outra vez recorreu ao veterano e interlocutor no tribunal. Toffoli, de novo, avalizou o nome do calouro.
O "terrivelmente evangélico" chegava ao Supremo.
Na crise, as posições se invertem
Mendonça e Toffoli se tornaram colegas de toga num dos momentos mais turbulentos da história republicana do Brasil. A relação passou a ser horizontal, de igual para igual.
Mas Mendonça não esqueceria das portas abertas pelo veterano quando chegasse a sua vez de ser o protagonista da política nacional. Em conversas reservadas, faz até hoje menções à gratidão que nutre por Toffoli, mesmo em momento de suspeitas e indignação.
Em fevereiro de 2026, Toffoli foi enquadrado pela Polícia Federal e ficou encurralado no Supremo. Um relatório da PF indicou negócios do ministro com a teia financeira do Master em torno do resort Tayayá, no Paraná.
Sua permanência à frente do inquérito que investiga o banco ficou insustentável. Uma reunião a portas fechadas dos dez ministros encaminhou a questão. A investigação seria arquivada, mas Toffoli deixaria a relatoria.
E as ironias da histórias, de novo elas, aprontaram mais uma: o substituto sorteado foi André Mendonça.
Quando o resultado do encontro foi noticiado, Lula estava em seu gabinete no Palácio do Planalto e recebeu um telefonema do ministro do STF Cristiano Zanin. Comentaram o desfecho. "Pelo menos caiu com alguém sério", disse o presidente, numa comparação óbvia com Toffoli.
Lula estava desgostoso do ministro que ele mesmo indicara desde quando Toffoli o impediu de ir ao enterro de Vavá, seu irmão, por estar preso em Curitiba pela Operação Lava Jato.
Depois dos anos de bolsonarismo, Toffoli ensaiou uma reaproximação no terceiro mandato do petista, mas Lula, se não o rejeitou prontamente, tampouco o recebeu de braços abertos.
Messias recomendou Mendonça a Lula

Já Mendonça, Lula conhecia pelos olhos do seu AGU, Jorge Messias.
Mendonça e Messias estavam mais próximos do que nunca, com o ministro do Supremo fazendo pelo AGU o mesmo que Toffoli fizera por ele: campanha para que ocupasse a vaga aberta no STF.
Irmãos de fé, evangélicos ambos, identificaram-se em meio a um ambiente de intrigas e disputas de poder. Mais importante de tudo: encontraram adversários em comum.
Messias deu boas recomendações de Mendonça a Lula, que procurava motivos para se aproximar do novo relator do Master e do inquérito do INSS, que tinha seu filho Fábio Luis, o Lulinha, entre os nomes citados.
Mas as expectativas não durariam muito. Nem Messias se tornou ministro do Supremo, nem Mendonça se provou da confiança de Lula.
No meio do caminho, havia Toffoli.
Sob silêncio de Toffoli, Mendonça tratora na Segunda Turma
A reunião fechada de fevereiro, que selou a escolha de Mendonça como relator do Master, vazou.
Um relato com riqueza de detalhes saiu no site Poder360 e a desconfiança se instalou entre os ministros. Apontado reservadamente como o responsável por grampear o encontro e vazá-lo, Toffoli se viu na incômoda posição de isolamento.
Decidiu adotar um silêncio eloquente de suspeição.
A Segunda Turma do STF passou a aprovar tudo o que Mendonça propunha no inquérito do Master.
Formada por Mendonça, Toffoli, Fux, Nunes Marques e Gilmar, a turma aprovou por unanimidade a manutenção da prisão de Daniel Vorcaro, em março.
Gilmar fez ressalvas, mas votou junto. Placar: 4 a 0.
Em junho, Mendonça determinou a renovação da prisão do pai e primo de Vorcaro.
Desta vez Gilmar votou contra, mas Fux e Nunes Marques concordaram. Placar: 3 a 1.
Em agosto, Mendonça se aproximava cada vez mais de tentar incluir Alexandre de Moraes na investigação.
Pediu que a PF identificasse o interlocutor de Vorcaro em mensagens explosivas atribuídas a Moraes.
A postura de Toffoli, sempre calado, não passou despercebida por Lula.
Ao lançar sua campanha à reeleição em agosto, em São Bernardo do Campo, o presidente percorreu sua trajetória em um discurso que se pretendia histórico. Mesmo assim Lula encontrou tempo para mencionar a decepção com o ex-advogado do PT.
"No tempo da ditadura militar, um delegado de polícia permitiu que eu saísse da cadeia pra ir no enterro da minha mãe [Dona Lindu, em 1980] . Agora, no regime democrático, um juiz, um ministro que eu indiquei não permitiu que eu saísse da cadeia para ir no enterro do meu irmão Vavá", comparou.
"Os homens não são medidos por épocas, são medidos pelo caráter, pela dignidade, pela criação que ele teve de berço."
O UOL fez um pedido de entrevista a Toffoli, que não respondeu.
Paciência de Lula se esgota
A temperatura subiu no Supremo. A campanha de Lula passou a reclamar da condução de Mendonça, por considerá-lo mais ágil para encaminhar medidas contra o entorno petista do que o bolsonarista.
Preocupado, Lula passou a cobrar de Messias uma solução mediada com Mendonça.
Uma reunião entre eles e o ministro da Justiça, Wellington Cesar, foi anunciada como pacificadora da crise.
O problema, porém, é que faltava alguém.
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, estava em pé de guerra com Mendonça, não falava com Messias e passava por cima de Wellington, seu superior hierárquico, para tratar diretamente com Lula.
Sob pressão, Messias correu para costurar um outro encontro com Mendonça, agora com Andrei Rodrigues.
Fecharam data, comunicaram Lula. Mas Andrei não apareceu: estava a caminho da paradisíaca ilha de Fernando de Noronha para desfrutar de férias com a esposa.
O diretor da PF alegou que todos sabiam de sua ausência e que o encontro era uma arapuca para que ele fosse "bypassado" pelo ministro da Justiça. Messias contestou a versão.
O estrago estava feito.
Mendonça determinou o afastamento de Andrei da PF. Dino cassou a liminar do colega. Fachin reagia a seu tempo e modo. O Brasil ficou boquiaberto.
A paciência de Lula se esgotou.
O presidente acusou Mendonça de fazer "vazamento seletivo" por ter "viés político" na condução do caso. Em entrevista ao SBT, mandou recado para Messias dizendo que o AGU fazia o que ele, presidente, mandasse. E elogiou fartamente Andrei.
Estava claro que o governo de Messias que tentava compor com Mendonça não era o mesmo governo de Andrei, que o enfrentava numa disputa da qual só sairia um vitorioso.
Foram dias e noites intermináveis em Brasília. Jantares à base de bisnaguinha e bolacha recheada. Dores nas costas, vontade de desistir. Ministros de pé, andando de um lado para o outro.
A ansiedade nos gabinetes era tão densa que quase se podia tocá-la.
Messias e Mendonça se afastaram circunstancial e estrategicamente.
Quem conhece bem André Mendonça vê sua relação com Toffoli como "mais carinhosa" até do que com Messias.
Isso não significa, é claro, alinhamento político automático.
Significa sim que o silêncio de um e os incontáveis e insistentes telefonemas de outro são dois lados da mesma moeda.
A batalha que se trava no STF fez uma pausa enquanto brasileiros decidem seus votos no dia 4 de outubro.
E é essa decisão soberana nacional que vai definir o destino de cada soldado e cada general na batalha de Brasília.
Reportagem
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