Poder de barganha dos emergentes cresceu, e isso é um desafio para a OMC, diz economista-chefe
Há um paradoxo no comércio global: as nações em desenvolvimento como o Brasil dobraram seu peso comercial nas últimas três décadas, mas ainda se beneficiam do tratamento diferenciado e preferencial previsto em regras de 1995, quando a OMC (Organização Mundial do Comércio) foi criada, que lhes permite manter tarifas mais altas.
Essa é a avaliação do economista-chefe da entidade, Robert Staiger, que em entrevista à Folha afirmou que esse descompasso cria assimetrias tarifárias que refreiam negociações com os países desenvolvidos e precisa ser endereçado no âmbito da reforma da entidade.
"Chega-se a um ponto em que os países em desenvolvimento têm muito a dar e pouco a receber em uma barganha recíproca", disse ele, que apontou a necessidade de adequação dos compromissos dos países em desenvolvimento à sua força econômica atual.
Na prática, afirmou o economista, os países ricos já reduziram suas tarifas e têm pouco a oferecer em troca de novas aberturas, enquanto os emergentes, com tarifas ainda altas, têm mais a conceder, mas pouco a ganhar com isso.
Autor de extensa pesquisa em comércio exterior e doutor em Economia pela Universidade de Michigan, ele admitiu que a tarefa não é simples. "A questão é como você faz essa negociação de uma maneira que seja mutuamente benéfica para todos os membros."
O problema, segundo Staiger, está nas assimetrias tarifárias entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. "Os países que fazem barganhas recíprocas acabaram ficando com tarifas muito baixas, porque foram abrindo seus mercados e reduzindo tarifas. Já os membros com tratamento diferenciado mantiveram tarifas mais altas."
Staiger listou a assimetria tarifária como um dos quatro grandes desafios estruturais da OMC atualmente, ao lado da intervenção estatal na economia, da mudança na natureza do comércio, com a ascensão dos serviços, e da fragmentação geopolítica.
Em setembro, relatório da OMC apontou que, sem uma reforma em suas regras, a entidade perderá a capacidade de conter a fragmentação comercial já em curso, a um custo elevado: nesse cenário, o PIB (Produto Interno Bruto) global cairia cerca de 5% e as exportações tombariam quase 20% até 2050.
Apesar da necessidade de reformas, Staiger rebateu as críticas de que a OMC se tornou irrelevante após o unilateralismo tarifário recente protagonizado pelos Estados Unidos.
"Cerca de 72% de todo o comércio mundial cruza fronteiras sob os termos de nação mais favorecida [mecanismo da OMC que prevê que vantagens comerciais devem ser estendidas aos demais parceiros], mesmo após todas as rupturas tarifárias."
Os problemas da OMC, defendeu o economista, decorrem de transformações históricas no mundo, que vão além do peso crescente dos países em desenvolvimento e da assimetria tarifária com os desenvolvidos.
Um desses desafios, segundo ele, é o fato de que a composição da OMC mudou desde 1995, com a entrada de países de forte tradição intervencionista, como a China, e ex-integrantes do bloco soviético, como a Rússia.
Houve ainda um certo abandono do Consenso de Washington (conjunto de ideias que defendia abertura comercial, disciplina fiscal e privatizações, difundido a partir dos anos 1990) pelos próprios países industrializados, acrescentou.
Outra mudança diz respeito à natureza do comércio. As cadeias globais de valor, disse Staiger, só se tornaram possíveis porque as regras multilaterais derrubaram os custos comerciais, o que levou à explosão dos serviços.
"Só que liberalizar comércio de serviços é infinitamente mais difícil do que liberalizar comércio de bens", afirmou, se referindo ao fato de que os bens são protegidos por tarifas, enquanto que em serviços o que barra o avanço são normas domésticas de segurança, saúde, proteção de dados e estabilidade financeira.
Outra dificuldade enfrentada pela entidade, na visão do economista, são as mudanças geopolíticas. "Houve a transição de um mundo unipolar para uma ordem multipolar fragmentada, o que cria obstáculos severos de coordenação."
Para o economista, o caminho para a OMC não é aprovar um pacote fechado de reforma com prazos rígidos, e sim criar um processo institucional que ganhe ritmo e entregue reformas incrementais ao longo do tempo. "Se o processo voltar a se mover, isso devolve a confiança aos membros", disse ele.
Folha Mercado
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RESILIÊNCIA DO COMÉRCIO GLOBAL
Staiger apontou ainda que o comércio global mostrou resiliência mesmo após as tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele atribui isso em primeiro lugar à inteligência artificial, que mascarou parte do impacto através do aumento do comércio de chips e equipamentos de data center.
Essa resiliência, porém, é concentrada em poucos países. "Isso sustenta os números globais agregados, mas acaba maquiando dinâmicas regionais e impactos específicos em certos países."
Há outro ponto que sustenta o comércio exterior, que é a adaptação das empresas, que redirecionam seus suprimentos para atender aos mercados consumidores, muitas vezes rumo a mercados onde ainda vigoram as tarifas de nação mais favorecida, e não as novas tarifas bilaterais.
"As empresas encontram formas de redirecionar seus suprimentos para continuar atendendo os mercados de consumo. As tarifas alteraram as rotas."
Sobre os efeitos das tarifas americanas em emergentes como o Brasil, o economista afirmou que as tensões são mais amplas e profundas do que casos específicos, e que o país, ao lado de outras nações em desenvolvimento, possui oportunidades à frente.
"Pela primeira vez, o Brasil e outras economias em desenvolvimento e emergentes têm um poder real nas negociações na OMC", afirmou. "Esses países têm algo que muitos outros membros querem, que é o acesso aos seus mercados muito importantes."
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