O amigo precisa de monstros

Passemos a parte em que dizemos o óbvio: que a causa é justa e os preços da habitação em Portugal obscenos. Não é o entendimento sobre isto que nos separa. Como seguramente não estão dum lado os bons e do outro os maus; as vítimas acampadas na praça e os monstros especuladores a assistir, esborrachadamente, em casa. O que separa quem hoje se manifesta nas praças das principais cidades portuguesas pelo direito à habitação de quem não o faz não é a pureza moral, nem a percepção de uma realidade por demais evidente, nem sequer o património imobiliário; são visões de mundo, convicções e, nalguns casos, a vergonha na cara.
Nas manifestações, estará muita gente. Muita gente com dificuldades em pagar uma casa, por mais que trabalhe. Gente preocupada com o futuro dos filhos, dos netos, dos vizinhos, dos amigos ou, simplesmente, do próximo. Gente segundo a qual os responsáveis políticos não estão a encontrar as soluções certas e que outras são necessárias e urgentes. Gente que entende como funcionam a democracia, a economia, o Estado de Direito, o respeito pela ordem pública. Gente que, mais do que provavelmente, é a maioria.
Mas também está gente genuinamente convicta de ser vítima de um sistema que não consegue ou não quer compreender que ela mesma alimenta. Gente que tem casa, segunda casa e até um alojamento local (a preço justo, para equilibrar as contas, que isto não está fácil – não é como esses especuladores). Gente para quem o turismo só é mau quando praticado pelos outros. Gente que, quando viaja, adora ficar num AL, porque é mais barato e permite uma “experiência” muito mais “local”. Gente que venera a tecnologia que lhe permite trabalhar a partir de qualquer lado e abomina a mesma tecnologia que permite que outro, com mais poder de compra, venha trabalhar para o lado dele. Gente que quer comer o bolo e ter o bolo. Que defende – e bem – a imigração, mas não percebe – menos bem – porque é que o imigrante tem o mesmo direito do que ela à habitação. Gente que não percebe, ou não quer perceber, que foram as pessoas que venderam ou arrendam as casas, não o Estado, que, até para mal dos nossos pecados, não tem casas. E que as pessoas ganharam ou continuam a ganhar dinheiro com isso, pelo menos tanto como os fundos especuladores que imaginam atrás de cada prédio antes devoluto e agora renovado.
Mas há mais gente nestas manifestações. Gente dos partidos que sustentaram o governo minoritário que reinou durante os anos em que se cavou a crise. Em que, apesar do ciclo económico altamente favorável, não se construiu, em que o investimento público foi reduzido a mínimos, em que se optou por manter os Vistos Gold e os benefícios fiscais para residentes não-habituais, apesar de já não estarmos em emergência financeira. Em que, durante 14 anos à frente da capital do país, permitiram e incentivaram a abertura de alojamentos locais e hotéis sem qualquer pudor, antes com orgulhoso entusiasmo cosmopolita. Gente de partidos com enorme património imobiliário. Gente que já não lidera esses mesmos partidos, mas continua a ter os seus próprios empreendimentos turísticos e de alojamento local. Gente de partidos que veem nesta crise, enfim, uma oportunidade de sobrevivência. De se reencontrarem com as preocupações do povo trabalhador. Gente que, para fingir que tem soluções, agita soluções que finge não saber já que não funcionam: acabar com regimes excepcionais que já acabaram, criar benefícios que já existem, impor tectos às rendas que falharam onde quer que tenham sido tentados.
E entre uma e outra, ainda uma outra gente vai mostrando a face. A que diz, abertamente, que a sua vontade é que representa a vontade popular, e não a que foi expressa nas urnas. A que entende que as decisões das “assembleias populares” se sobrepõem às do município eleito por todos, à lei, às forças da autoridade. Que ameaça, com todas as letras, desrespeitar a “integridade física e moral” de quem não respeitar o seu “direito à habitação”. A que acha que uma amostra de democracia directa se impõe à democracia representativa. A que se orgulha de não ter hierarquias nem representantes e que, portanto, não se responsabiliza pelo que possa correr mal. A que nunca se excede e, se acaso se exceder, é porque foi a extrema-direita.
Nisto, os músicos já lá vão tocar, organizadamente, mostrando a sua solidariedade. Os influenciadores vão fazer o seu story. Todos querem que todos saibam que estão com a revolução – e, depois, voltam para a casa. A praça é da cooperativa, pelo menos enquanto não perceberem que ceder à rua é a definição de populismo, coisa que se deveria tornar evidente à medida que vemos o grande partido populista ceder nas intenções sobre uma nova lei do arrendamento, mas que, mesmo assim, tantos vão continuar sem perceber. No fim, das duas, uma: ou toda esta gente, a sincera e a hipócrita, consegue, com a sua pressão, fazer acelerar a procura de soluções para uma crise que é real e cruel, ou acabamos bloqueados, como de costume ou ainda pior, pelo medo de, num país sem dinheiro, continuarmos a ver monstros capitalistas por toda a parte.
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