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Saturday, August 15, 2026

Clubes de leitura: para que servem e como funcionam?

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Foi há nove anos, em março de 2017, que Sónia Morais Santos concretizou finalmente uma ideia com que sonhava há algum tempo: criar um clube de leitura. Por essa altura já tinha um blogue de enorme sucesso, Cocó na Fralda, mas, ainda assim, receava que não houvesse interessados. “Apareceram oito [pessoas] e, dessas oito, há quatro que se mantêm”, conta ao Observador. Desde então, criaram-se grupos em Lisboa e no Porto que se reúnem pontualmente, mas durante largas horas. “Começamos às 19h e nunca termina antes das 23h ou meia-noite. Ali estamos a falar de livros e, por arrasto, de vida. E há partilhas, e há emoção, e há amizade.”

Entre as sessões presenciais — que são anunciadas nas redes sociais e estão sempre abertas a novos membros —, o debate nunca pára. O grupo de WhatsApp de Lisboa tem 79 membros, enquanto o do Porto tem perto de 50. As mulheres estão em maior número, mas há duas exceções que raramente falham. “Temos um homem em Lisboa, o Paulo, que é escritor e que se considera ‘uma de nós’. No Porto temos um homem, curiosamente também Paulo, que é um poeta e um intelectual e que pensei que iria uma única vez e, afinal, já vai há anos.”

Quanto a livros, não há regras ou imposições. Cada um lê o que quer e a quantidade que quer, há obras mais consensuais e outras que desencadeiam conversas mais intensas. “O Crime e Castigo [de Fyodor Dostoevsky] provocou um debate intenso, e mais recentemente o livro Ernestina, de José Rentes de Carvalho, por ter havido quem tenha gostado muito e por ter havido quem tenha achado uma chatice”, Sónia Morais Santos.

Entre uma rubrica diária na rádio, um projeto de entrevistas de vida (A Voz), as redes sociais e muitos de outros afazeres, Sónia Morais Santos mantém o clube de leitura por “carolice”, mas sobretudo porque lhe dá muito prazer. “Tudo o que possa promover a leitura e os encontros entre as pessoas, cara a cara, para refletirem juntas, é uma maravilha.”

Da biblioteca da escola para um podcast

Quando era miúda, a primeira escolha de Rita da Nova era quase sempre ler. Na biblioteca da escola participava num clube de leitura e não se importava minimamente por só haver três membros no grupo: uma professora, ela e um amigo. “Éramos os únicos que preferiam ler a ir lá para fora fazer outras coisas”, conta ao Observador.

Ao longo dos anos, foi participando noutros clubes de forma esporádica e, antes da pandemia, criou Uma Dúzia de Livros, onde havia um tema mensal e cada participante levava um livro que se encaixasse na temática. Depois surgiu um podcast, Livra-te, e as duas coisas acabaram por juntar-se. “Aí, o clube passou a chamar-se Clube do Livra-te, a ter duas escolhas mensais (as pessoas podem ler um, os dois ou nenhum) e a ter canais de discussão num servidor do Discord”, explica a responsável pelos podcasts Livra-te e Terapia de Casal (que faz parte dos podcasts Observador) e autora de vários livros (Apesar do Sangue, Quando os Rios se Cruzam e As Coisas que Faltam). Desde setembro de 2025, Rita passou a ter um convidado mensal, que traz “livros, géneros e ideias diferentes para a discussão”. A partir daí, o debate está sempre aberto no Discord. “Desta maneira, pessoas de qualquer parte podem juntar-se para ir conversando sobre as leituras ao seu ritmo.”

Seja nas plataformas online ou presencialmente, Rita da Nova garante que “a criança que antes estava só com um amigo na biblioteca da escola a falar sobre livros, fica muito contente com a realidade atual”. “Cada vez mais é necessário que fomentemos o nosso espírito crítico e os livros, sobretudo os de ficção, são uma ferramenta poderosa para trabalharmos o raciocínio e a empatia”, defende.

Um piquenique, um livro e uma conversa

Depois da faculdade e da entrada no mercado de trabalho, Cristiana Rodrigues queria recuperar algo que tinha perdido nesses anos: a vontade de ler avidamente como quando era miúda. Experimentou alguns clubes do livro no Porto, outros online, até descobrir o clube de leitura do Batalha (no conhecido cinema). Problema: “Esse clube funciona por temporada e quando acabou senti um certo vazio”. Virou-se então para as redes sociais e, sem grande confiança, fez um vídeo no TikTok a 10 de junho de 2024 à procura de pessoas — no final desse mês nascia o Picnic Book Club. Aqui, os livros respeitam dois critérios: são feministas e políticos. “O leque de géneros é abrangente — desde os romances à teoria —, mas os livros escolhidos têm sempre questões sociais, culturais ou políticas associadas”, explica ao Observador. Para Cristiana, “no estado atual do mundo e na conjuntura política que vivemos, é cada vez mais importante lermos de forma política, alargando os nossos horizontes e vivendo com espírito crítico”.

A História de Uma Serva, de Margaret Atwood, foi possivelmente o encontro mais concorrido. “Todos os dias vemos o aumento do discurso de ódio na internet e a proliferação de ideologias misóginas protagonizadas por figuras como Andrew Tate. É algo assustador e serve para nos relembrar que nenhum direito é garantido e que devemos continuar a lutar por eles.”

O grupo conta atualmente com quase 200 membros — maioritariamente mulheres na casa entre os 20 e os 35 anos e residentes nos distritos de Porto e Aveiro, embora também haja quem viaje desde Viana do Castelo. Tal como o nome indica, a ideia é que cada um leve um snack para um piquenique partilhado. Nos meses de bom tempo, os encontros acontecem nos jardins do Palácio de Cristal ou no Parque do Covelo, enquanto no inverno a discussão passa para o interior de cafés ou livrarias. No Instagram, além das informações práticas sobre os encontros presenciais, há sempre sugestões, além de livros e autores do mês.

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