A subversão da ordem no futebol
Raphinha vive seu melhor momento no Barcelona e no futebol, atuando na posição de centroavante, o que nunca tinha ocorrido, pois sempre foi um atacante pelas pontas ou um meia ofensivo centralizado e próximo à área.
Além de dar excelentes passes para gols, Raphinha marcou 14 vezes em oito jogos na atual temporada. Diferentemente dos clássicos centroavantes que atuam centralizados, fixos, Raphinha se movimenta por todo o ataque e aproveita muito bem suas excepcionais qualidades: a velocidade para receber a bola entre os zagueiros e as precisas finalizações. Ele subverte a ordem, o previsível.
Muitos perguntam por que Raphinha não brilha na seleção. Entre vários motivos, o mais lógico é porque no Barcelona ele atua próximo a Lamine Yamal e à frente de um excepcional meio-campo, formado por Rodri, um pouco mais recuado, e dois meio-campistas (Pedri e Olmo ou Fermin), todos da seleção da Espanha. Os dois estão, com frequência, próximos a Raphinha e à área.
Ancelotti convocou o meio-campista Martinelli para o lugar do centroavante João Pedro, cortado por contusão, por que vai escalar Raphinha de centroavante nos amistosos contra Austrália e Índia?
Na história do futebol, vários jogadores se destacaram muito em seus clubes e não brilharam na seleção, enquanto outros menos elogiados jogaram na seleção melhor que em seus times. Há muitos motivos para isso; técnicos, físicos e emocionais. Outra razão é o precoce endeusamento da mídia a alguns jogadores que atuam bem em seus clubes, ainda mais se forem artilheiros. Basta fazerem alguns gols para pedirem suas convocações.
No auge de Pelé, a cada semana pediam um novo artilheiro para atuar ao seu lado na seleção. Eram convocados, não jogavam bem, em parte pela dificuldade de acompanhar o talento do Rei, e depois não voltavam à seleção.
Perto da Copa de 1970, o técnico Zagallo, depois de convocar e experimentar os artilheiros Dario e Roberto, me chamou e disse que ia me escalar desde que eu não recuasse tanto para receber a bola, que atuasse à frente de Pelé e Jairzinho. Respondi a ele que não haveria problemas, que eu jogaria como fazia o centroavante Evaldo no Cruzeiro. Eu, que no Cruzeiro era um protagonista ao lado de Dirceu Lopes, fui na seleção um facilitador, um coadjuvante. E tenho muito orgulho disso.
Antes de a bola chegar, Pelé me dizia, com os movimentos do corpo e com o olhar, o que faria. Tentava acompanhá-lo. A comunicação analógica é menos exata, porém mais inventiva. Assim como os grandes escritores, em um estalo, acham a palavra certa, os craques no gramado descobrem novos caminhos.
A diminuição progressiva de contratação de jogadores de outros países, medida adotada pela CBF e pelos clubes, deve pressionar a formação de melhores jogadores, desde que se mudem os conceitos e a maneira de ensinar. As outras equipes precisam aprender com o Palmeiras. Espanha, França e Inglaterra formam os melhores jogadores do mundo e não têm limites na contratação de estrangeiros.
Escuto dezenas de vezes que o problema da seleção é a falta de um clássico camisa 10, seguindo a ideia ultrapassada de que o meio-campo é dividido entre os dois volantes em linha que marcam e um camisa 10, responsável por toda a armação de jogadas. O futebol mudou.
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