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Thursday, September 17, 2026

Trump e Netanyahu transformam urnas em um jogo decisivo para a democracia

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Vinte e sete de outubro e 3 de novembro de 2026 estão se configurando como duas das datas mais importantes da história de duas das mais importantes democracias —Israel e Estados Unidos. Esses países realizarão, nessas datas, eleições de consequências enormes, com apenas uma semana de intervalo.

Por que tão decisivas? Porque o que estará em jogo nas urnas nos dois lugares não será apenas o futuro político do presidente Donald Trump e do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Será o futuro da democracia em ambos os países.

Comecemos pela eleição de Israel, que ocorrerá primeiro. Netanyahu integra uma coalizão com supremacistas judeus que um ex-chefe do Mossad israelense certa vez descrito como pior do que a Ku Klux Klan.

Se forem reeleitos, é muito provável que concluam seu projeto de minar a procuradora-geral independente e a Suprema Corte do país. Em seguida virão a anexação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza e a limpeza étnica dos palestinos nos dois territórios. E Israel deixará de ser uma democracia.

Há vários anos, Moshe Ya’alon, um ponderado ex-ministro da Defesa de centro-direita que serviu sob Netanyahu, vem manifestando preocupação com os rumos do governo israelense.

Como relataram meus colegas do The New York Times em Tel Aviv, Ya’alon elevou seus alertas a um novo e impressionante patamar, comparando, em declarações à imprensa local, a ideologia dos colonos extremistas israelenses na Cisjordânia à da Alemanha nazista.

"O que é a supremacia judaica?", perguntou Ya’alon recentemente ao site de notícias israelense Ynet. "Oitenta anos depois do Holocausto, é o ‘Mein Kampf’ às avessas. A raça superior somos nós."

Esse é um estridente sinal de alarme. A sociedade israelense ainda está traumatizada demais pela guerra em Gaza para mergulhar diretamente em novas negociações de paz com os palestinos.

Lá Fora

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Mas não tenho dúvida de que, se a oposição a Netanyahu —agora liderada com maior destaque por Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, um homem muito digno e com muito em comum com Yitzhak Rabin— conseguir vencer em 27 de outubro, pelo menos o vergonhoso pogrom que Netanyahu viabilizou que colonos judeus cometessem na Cisjordânia será interrompido.

Dessa forma, Trump terá um parceiro israelense disposto a fazer um esforço de boa-fé para implementar seu plano de paz para Gaza.

O presidente seria um completo tolo se apoiasse Bibi, que fez tudo ao seu alcance para frustrar sua iniciativa para Gaza.

Para manter seus parceiros de coalizão, permanecer no poder e protelar seu julgamento por várias acusações de corrupção, Netanyahu tem se mostrado disposto a trair qualquer valor fundamental de Tel Aviv e a sabotar qualquer plano de paz de Washington.

Mais recentemente, empenhou-se para isentar milhares de jovens ultraortodoxos do serviço militar e destinou milhões de shekels às escolas deles, que não ensinam conteúdos necessários à vida moderna nem competências profissionais —tudo isso em um momento em que o Exército israelense enfrenta falta de soldados.

Embora eu me importe com as eleições em Israel, importo-me muito mais com as do meu próprio país. Trump é o presidente mais antiamericano que vi em toda a minha vida. Nenhum presidente fez mais —e continua fazendo mais— para desmantelar as instituições e alianças do pós-Segunda Guerra Mundial, construídas e sustentadas por seus antecessores.

Estamos falando da Otan, da ONU, da OMS, da OMC, do FMI, do Banco Mundial, da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, do NAFTA, de nossas relações estreitas com Canadá e México e de nossas alianças militares com Coreia do Sul e Japão —para citar apenas algumas.

Juntas, essas relações e instituições produziram prosperidade mundial e americana e preservaram a paz entre as grandes potências por gerações.

Ainda assim, Trump e seus cúmplices as vêm desmantelando sistematicamente em nome do "EUA em primeiro lugar", mas o resultado é a Casa Branca isolada e, por fim, em declínio.

O que considero particularmente repugnante, porém, é a bajulação de Trump ao ditador russo Vladimir Putin, que não só vem tentando destruir a Ucrânia como Estado soberano, como também tem sabotado a Otan e a União Europeia, dois pilares vitais da segurança e da prosperidade ocidentais.

Recentemente, Putin vangloriou-se de ajudar o Irã em sua guerra contra os EUA no Golfo Pérsico, fornecendo ativamente a Teerã equipamentos "necessários" e bens essenciais. Putin não para de cuspir na Casa Branca, e Trump continua dizendo aos americanos: "Ei, pessoal, é só chuva".

Trump nunca apresentou a guerra na Ucrânia com honestidade. Estamos testemunhando a tentativa de Putin de destruir uma democracia europeia vital. Por quê? O que explica o inabalável chamego de Trump com Putin?

A verdade sempre esteve à vista de todos: O presidente, ao contrário de todos os seus antecessores, não considera a democracia um valor fundamental. Ele prefere a companhia de gente como Putin e Kim Jong-Un.

É fácil entender por quê. Segundo uma reportagem recente do meu colega Eric Lipton, "nunca antes na história dos EUA houve algo parecido com Donald J. Trump, um presidente que, em seu primeiro ano de volta ao cargo, obteve cerca de US$ 1,4 bilhão (R$ 7,14 bilhões) em novas receitas de negócios com criptomoedas que se beneficiaram diretamente de suas ações como presidente", de acordo com uma declaração financeira divulgada em 30 de junho.

Se o Partido Republicano prevalecer em novembro, seu esforço em várias frentes para enfraquecer as instituições democráticas americanas e o Estado de Direito quase certamente entrará em uma marcha inteiramente nova.

"Neste momento, Trump é impopular e, portanto, está enfraquecido", disse Ian Bassin, diretor-executivo da Protect Democracy, organização sem fins lucrativos que luta pela integridade eleitoral. "Parte-se do pressuposto de que seu projeto fracassou politicamente —de que ele é notícia velha."

Mas, se os republicanos vencerem, "isso mudará a estrutura de incentivos para todos", disse Bassin, dos parlamentares republicanos a patotinha do Vale do Silício. Todos se mostrarão ainda mais submissos, permitindo que o presidente aja com ainda menos limites. "Para mim, esse é o perigo mais grave."

Em outras palavras, com uma vitória nas eleições de meio de mandato, Trump se sentirá mais encorajado e fortalecido do que nunca —justamente quando está em claro declínio mental e físico. Isso enqunato estamos em meio àquela que talvez seja a maior transformação tecnológica da história humana— o nascimento de agentes e robôs dotados de inteligência artificial capazes de se aperfeiçoar sozinhos.

Quando a mudança climática, que ele nega, está evidentemente tornando nosso clima mais quente e instável. Quando se tornar antagônico a todos os aliados de Washington no mundo, até mesmo o Canadá.

Quando está atolado em uma guerra que esgota nossos recursos militares e é comandada por um palhaço, Pete Hegseth, que talvez tenha demitido ou impedido a promoção de mais generais americanos do que matou generais iranianos. e quando a China está dominando o mercado mundial de veículos elétricos enquanto o presidente tenta abocanhar o petróleo da Venezuela.

Há um ano, ouvi em caráter reservado um de nossos ex-presidentes observar que poderíamos sobreviver ao segundo mandato de Trump desde que nossas instituições permanecessem intactas. Bem, infelizmente, elas não permaneceram.

Quem defenderia hoje que o Departamento de Justiça, transformado em arma jurídica pessoal do presidente, está intacto? Que o Departamento de Saúde e Serviços Humanos está intacto? Que o Pentágono está intacto?

Ou que a Comissão Federal de Comunicações, agora dirigida por um incompetente que atua ao mesmo tempo como censor governamental e ministro da Propaganda, está intacta?

Recuperar essas instituições e devolver-lhes algum grau de independência, para que sejam administradas por verdadeiros especialistas, será mais difícil do que as pessoas imaginam. O mesmo vale para Tel Aviv, onde Netanyahu nomeou seus colegas e capachos para postos em todos os níveis da burocracia israelense e até mesmo em instituições de segurança nacional.

Todos os americanos e israelenses precisam refletir sobre essas questões ao entrar na cabine de votação. Nenhum inimigo estrangeiro é poderoso o bastante para destruir qualquer uma dessas duas democracias —nem Teerã, nem Moscou, nem ninguém. Somente forças internas podem fazer isso.

Somente a autodestruição pode fazer isso. E não tenham dúvida: a autodestruição estará em jogo nas urnas dos dois países.

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