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Wednesday, October 28, 2026

Uma canção de embalar

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Na biologia da reprodução designa-se cissiparidade a reprodução assexuada de um organismo que se divide em dois seres geneticamente idênticos. Em grande medida, poder-se-á passar o mesmo com o islão. Ao islão radical opõe-se um islão moderado. Acolhe-se este islão moderado, fomenta-se a sua difusão, testemunha-se e afiança-se a sua boa vontade. No entanto, esta divisão, nos seus efeitos, é menos clara do que parece.

É necessário indagar em primeiro lugar o que esconde o adjectivo radical. A religião apresenta exigências radicais. Cumprir um código de regras, de deveres ou mandamentos é uma tarefa de superação de si, de abnegação em prol dos outros, segundo a vontade de Deus. É radical vender os seus bens e distribuir a receita pelos pobres; é radical partir em missionação para terras inóspitas e entre povos hostis; é radical por vezes, em formas menos canónicas que podem inquietar boas almas quietadas, beber uma taça de pus. Que em tudo isso possa haver sede de poder, indulgência e autocomiseração, ou exibicionismo histriónico não é uma surpresa – pode haver aí como pode haver em todas as coisas humanas, religiosas ou não. Onde a exigência é maior, é também maior a ocasião de queda. Neste sentido, radical é a própria religião na sua plenitude; e a moderação, tão-somente a forma desvitalizada da religião. A dicotomia islão radical/islão moderado tem em vista outra coisa. O truque é hábil e serve dois propósitos conexos. Por um lado, dissimula o elemento específico do islão radical, a apologia da violência e a glorificação do actos de violência do islamismo – ou seja, dos atentados terroristas – por detrás de uma cobertura geral religiosa, como se fosse apenas uma variante da religiosidade radical, a par de um cristianismo ou budismo radicais. A equiparação é falsa. Nada há de remotamente semelhante nas outras religiões. Por outro lado, remeter a radicalidade ou a moderação – esta última, sublinhe-se, só surge quando é necessária para contrabalançar aquela radicalidade e nunca com conteúdo específico – para a religião significa acantonar nela a violência, fazendo variar o grau. Despolitiza-se assim o problema político do islão – tanto em países onde é maioritário e religião de Estado (basta ver como as acusações de racismo, intolerância, machismo, ou mesmo de violência repressiva, terrorismo de Estado, etc., são muito mais suaves quando se dirigem a esses países), como nos países de imigração (onde as acusações ali formuladas sotto voce escaldam o debate público) – e , ao mesmo tempo, desfigura-se a religião com base no argumentário mais calhorda do progressismo ingénuo do iluminismo, pondo a política a salvo como acção racional e não violenta. Como o mal, uma ilusão nunca vem só.

Em segundo lugar, o islamismo moderado é acolhido nos países ocidentais da imigração com base em premissas político-jurídicas pluralistas e não discriminatórias. Mas também o é como forma de prevenir o aparecimento de formas ditas radicais, como modo de integração e como sinal de benevolência. Esse processo, no entanto, padeceu de uma hybris europeia. Julgando-se pacificada para sempre e, pior, pacificadora no plano internacional, ébria de softpower como nova fonte da glória histórica, acreditou, descristianizada na dimensão pública, que o mesmo se passaria com o islão. E como uma loucura leva a outra, acreditou ainda que o consumo generalizado e o Estado social constituiriam um suborno suficiente, que lhe permitiria fagocitar as sobras político-religiosas do islão. Enganou-se. Além de ter subestimado os ressentimentos nacionais e religiosos, subestimou também, com a ajuda de um anti-americanismo sobranceiro, a cesura que o 11 de Setembro constituiu. Se a história estacou intra muros, lá fora continuou a ser o que sempre foi. E nem essa bofetada interrompeu o sono suave e sossegado da Bela Adormecida. Aliás, uns meses antes do ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque, o geopolitólogo francês Pascal Boniface, numa nota interna dirigida a François Hollande, preconizava que, dada a dimensão demográfica islâmica, o Partido Socialista, de que era à época militante, deveria captar esse eleitorado para assegurar a vitória eleitoral. Boniface acabou por sair do partido, mas teve um herdeiro em Jean-Luc Mélenchon e na La France Insoumise. A votação de Mélenchon não deixa margem para dúvidas. Um grande número de islamitas moderados vota num partido que tem como objectivo uma revolução da extrema-esquerda e, portanto, a destruição da sociedade que escolheram como destino. Significa isso que nos momentos decisivos, quando há lugar a uma escolha existencial, se verifica uma ampla dessolidarização relativamente às sociedades onde vivem e muitos se dizem integrados. Nas eleições presidenciais de 2022, foram 69 % dos eleitores muçulmanos a votar em Mélenchon; ou bem que se aceita que grande parte, provavelmente a maioria, se enquadra na designação de moderados, ou o caso muda de figura e o perigo do radicalismo islâmico é de longe maior do que se diz. Claro que existe uma dimensão de classe nas barganhas eleitorais, mas é pouco pertinente porquanto a ordem de chegada aos países de acolhimento se faz naturalmente por baixo e a ascensão social é mais lenta que a dos autóctones. A par disso, o enraizamento nos países de acolhimento revela um saldo negativo. O «entrismo» islâmico prossegue ininterruptamente. A presença de eleitos, da segunda e terceira geração de imigrantes, em muito órgão municipais leva à islamização progressiva de todo um conjunto de regras de comportamento a um nível discreto e anódino, que, pela sua generalização, permanência e renovação incontestadas leva depois à ratificação oficial do novo estado de coisas. O facto cria o direito, em nome do respeito do pluralismo religioso e da não discriminação. Como sempre, a vantagem está do lado que ataca, por mais discreto que seja esse ataque. Nessas condições, a reacção torna-se desde logo uma violência. O mesmo sucede no próprio espaço público (nomes de ruas, de edifícios, consumos de álcool, halal, etc.) mediante a invocação de putativas provocações ou ofensas, tendo em vista homogeneizar as referências visíveis. A abdicação quase imperceptível, mas atoucinhada por um medo surdo – quando não a subida da parada em matéria de desocidentalização para fazer prova de boa consciência moral perante si mesmo, mas de submissão aos olhos alheios, que elevam consciente ou inconsciente os requisitos de plausibilidade axiológica – faz do islão moderado o critério de aceitabilidade pública. As consequências são inevitáveis. É no interior de uma islamização geral, a fusão celular, que se passará a traçar os contornos da organização social, do permitido e do proibido, dos orçamentos, das políticas patrimoniais, etc. – naturalmente cada vez mais segundo critérios internos, teológico-políticos. A ramificação, que deveria opor duas versões senão opostas pelo menos com um certo grau de incompatibilidade, ameaça redundar numa unificação islâmica, que acompanhará à porta os infiéis. Pese embora o aspecto privado, as boas intenções de pouco servirão no plano político. No fim de contas, talvez a cegarrega do islão moderado se revele como não tendo sido mais que uma canção de embalar.

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