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Saturday, October 3, 2026

"O Caminho de Santiago dá-me energia"

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos. O viajante desta semana vai no oitavo Caminho de Santiago. Percorreu três vezes o Caminho Central Português, uma vez o Caminho da Costa, o Caminho Português do Interior, o Caminho da Geira e Arrieiros e o Caminho do Norte. O último foi o Caminho Francês, que percorreu de bicicleta durante nove dias. É aquele caminho que começa em Saint-Jean-Pied-de-Port e segue pelo norte de Espanha até à cidade galega. Que grande aventura e que vai sair brevemente em livro. Miguel Costa, bem-vindo às "Conversas do Fim do Mundo".

Muito obrigado, João.

Ora essa.

Obrigado por estar aqui.

Miguel, já fizeste oito vezes o Caminho de Santiago. Que fascínio tens tu com o caminho?

João, eu nem sei explicar bem isso.

Então.

É o caminho que nos chama e que me chama particularmente. Nos últimos 10 anos fiz oito vezes, dois dos anos não o fiz por causa do Covid. Nós passámos pelo Covid, infelizmente.

Sim.

E não pude percorrer o caminho. O caminho para mim tem um grande significado.

Desculpa interromper. Tu és uma pessoa religiosa?

Não.

Ou nem por isso?

Não, nada religioso.

Nada religioso.

Nada.

Ou seja, fazes o caminho por motivos de aventura, é isso?

Também, mas principalmente pela boa energia que o caminho me dá. E a bateria. Digamos que eu sou um carro elétrico, carrego para o ano todo no caminho. Agora que estamos com problemas de energia.

Sim. Tu vais fazer o caminho.

Preciso mesmo.

Vais-te energizar a gastar energias.

Exatamente.

Porque se gasta muita energia no caminho, não é?

Gasta-se. Neste aqui, particularmente no último, gastei muitas calorias.

Sim, no Caminho Francês, tu fizeste de bicicleta. O Caminho Francês são, grosso modo, 800 km, não é?

São 800 km, foram 13 mil acumulado positivo. Para quem não conhece, 13 mil é subir 13 mil metros em altitude. E foi uma grande aventura e a grande aventura deste ano em termos de viagem.

Muito bem. É muito difícil, Miguel? Ou seja, exige muito sofrimento fazer o Caminho Francês de bicicleta?

Exige algum sacrifício físico, exigência física. Sim, exige. Mas é tão compensador e é tão positivo o que nós vivemos no caminho. E pode ser o francês, poderá ser outro qualquer, até pode ser algum que não tenha nada a ver com Santiago. É tão positivo o que nós vivemos, a experiência que nós vivemos. E do tão pouco que temos, porque basicamente nós somos uma mochila, no meu caso, uma bicicleta, os caminhantes é só uma mochila.

Pois.

Portanto, somos reduzidos àquele dia a dia que é o nosso dia a dia tarefado. Reduzimos a uma mochila, meia dúzia de roupa, alguma alimentação e no meu caso uma bicicleta, que também tenho que a carregar e ela carregar-me a mim, naturalmente.

Muito bem. O Caminho Francês são então 800 km, começa na vila de Saint-Jean-Pied-de-Port, no coração dos Pirenéus. É uma vila um bocadinho engraçada, não é? Atravessada por um riozinho, parece um postal.

É verdade. Eu não a conhecia, não conhecia a vila, mas fiquei encantado. Não pude visitá-la como deveria, porque estava a chover, não podia andar muito na rua, mas andei um pouco na rua. Mas tem uma energia muito própria, uma cultura muito própria, muito virada para os peregrinos que vêm de todo o mundo. E que todos iniciam ali com os Pirenéus logo ali a 200 metros.

Muito bem. A primeira etapa é a mais difícil deste Caminho Francês, Miguel?

Eu diria que há três grandes etapas.

Ok. Eu pergunto isto por causa dos Pirenéus.

Sim, os Pirenéus sim, é duro e aparece-nos e não nos diz bom dia, nem boa tarde, não diz nada. Olha, faça favor, vamos subir. Nem um olá, nem um cafezinho. Não, é faça favor.

Toma lá.

Eu digo isto de brincadeira, porque realmente mostram-nos logo ali para o que vamos.

Ok.

Mas a paisagem tão verde, tão verdejante, tão bonita. Eu já conhecia os Pirenéus da parte de Andorra, que também são muito diferentes, são fantásticos, são fabulosos, mas a dureza é muito grande. Portanto, em termos de dias mais difíceis, há três subidas, há três grandes subidas.

Três grandes subidas, sim.

Há três grandes, que é a dos Pirenéus, que é a da Cruz de Ferro, que é Foncebad. Vamos aos 1600 metros de altitude e a de O Cebreiro, que é uma aldeia também a 1400 de altitude. Ambas as subidas são 12 km ou 13 a subir sempre.

Cruzaste com muitos caminhantes ou com outros viajantes no Caminho Francês, Miguel?

Cruzei-me com centenas deles. Isto é uma das coisas mais positivas do caminho, é nós podermos falarmos com pessoas dos cinco continentes. Desde asiáticos, australianos, sul-americanos, americanos, muitos europeus, naturalmente. Todos os países. Eu consegui, não propositadamente, mas tive excelentes conversas que se calhar nunca teria no meu dia a dia, mas que as tive de uma forma tão despegada, tão simples e que aprendi tanto. E isso também é o caminho.

Pois.

Isto também é o caminho, é nós falarmos com um casal 70 muitos anos a fazer bicicleta elétrica, 20 km por dia, alugada, nos Estados Unidos, na Califórnia, por exemplo. Isto eu não vou fazer spoiler, porque isto está no meu livro também.

Exato, no teu livro que vai sair recentemente, que é o "Quando menos é mais".

"Quando menos é mais", retrata exatamente o que eu vivi, o que senti, durante esses 10 dias com a viagem de autocarro. E que esse casal 70 anos, depois de ela estar muito a reclamar e dizer: "Mas como é que você faz 800 bicicleta, tantos quilómetros por dia?" No final, diz assim: "Mas sabe o que é importante? Nós estamos vivos".

É isso.

E esta frase tão simples, mas tão poderosa, marca-nos, como marcou muitas outras situações durante o caminho e que estão retratadas no meu livro.

No teu livro, que retrata o teu último Caminho de Santiago, o oitavo. Tu já fizeste os outros todos. São muito diferentes os caminhos, Miguel?

São diferentes. Em termos de dureza, o Caminho Francês sendo o mais longo, eu senti, porque lá está a energia, o caminho estava dividido em três fases. Os três primeiros dias muito físicos, os três dias seguintes muito de interiorização, de introspeção, porque a meseta são muitos quilómetros, tipo a nossa Alentejo, planícies, pouco acumulado, mas muitos quilómetros.

O corpo e a cabeça não são convocados para grandes desafios, não é?

Não.

Vais ali a moer e a cabeça vai em permanente-

Vai quase em modo piloto automático.

Isso.

Vai quase em modo piloto automático.

O corpo, mas depois a cabeça leva-te para sítios ou não?

Leva-nos completamente para sítios, e para recordações, e para estar com pessoas que já não estão fisicamente conosco e que eu dou muito valor, porque estão comigo sempre, comigo e com a minha família, e isso valorizo muito. E levam para esses sítios. Os cheiros, os próprios cheiros da terra. Há vários estímulos que o caminho nos dá. E estava a dizer que é dividido em três fases. Para mim, foi dividido em três fases. E a segunda fase é essa, da interiorização, introspeção, etc. E os três últimos dias foi da contemplação, ou seja, os últimos três dias entramos na Galiza, muito verde, subidas exigentes, mas muito verde, muito natural ainda, que é quase uma contemplação.

Ok. Tu já fizeste oito vezes o caminho. Chegar a Santiago a oitava vez é como chegar da primeira?

É sempre a primeira vez, João.

É?

É sempre a primeira vez. Mas sabes que para mim chegar a Santiago tem uma carga emotiva muito elevada. Acho que toda a gente ou quase toda a gente vive isso. Para mim tem uma carga emotiva muito alta, mas o caminho em si tem uma carga mais elevada.

Ok.

E que o próprio dia a dia, a própria conversa na beira da estrada, o parar e beber água de uma fonte, o conversar com uma pessoa, que nós não sabemos extratos sociais, que é uma das coisas também muito importantes para mim. Eu vou no caminho e não há extratos sociais. E isto não tem nada a ver com políticas ou extrato, não. Tem a ver com o ser humano. Somos o que somos e todos nós temos valor.

São todos peregrinos, independentemente da condição, do rendimento e da classe.

Exatamente. E eu optei este caminho, fazer este caminho a dormir mesmo em albergues.

Ah, ok.

Foi uma opção mesmo de ir quando menos é mais, precisamente. Isso não me vem para aí no quinto dia.

Ok.

Que também eu explico porque é que vem. Depois eu explico no livro.

Vamos deixar a pílula atrás. Que é para as pessoas também irem atrás do livro, Miguel. Desta vez tu escolheste mesmo dormir em albergues, por quê? Porque assim tu achavas que irias sentir o caminho de outra maneira? Das outras vezes dormiste onde, já agora?

Era apartamentos.

Portanto tinhas o teu quartinho, aqui não, ias para a camarat com o resto da marabunta, é isso?

E vou-te dizer uma coisa. Já tinha dormido uma vez ou duas no caminho em albergues, nomeadamente no caminho da costa, mas não vou voltar a dormir em hotéis ou em apartamentos.

A sério?

Nos próximos caminhos, não.

Ah, portanto estás-

É uma vivência espetacular. É o que eu posso dizer. Onde eu estive, onde tinha menos condições, porque havia limpeza, é a única exigência que eu tenho, é limpeza. Mas era tudo muito simples. Foi onde eu tive os melhores momentos, os melhores jantares, com uma cerveja ou com um copo de vinho, a conversar e a comer. Há várias histórias, tenho várias histórias com um final de uma tarde a beber uma cerveja. E este caminho eu tive um dia que eu dormi num hostel e deram-me um quarto individual. Um quarto individual, com casa de banho privativa, com tudo. Foi a pior noite. Em Lyon. Foi a pior noite.

Então.

Porque as outras pessoas do hotel ou do hostel, dos outros quartos estavam um bocado agitadas, muito barulho durante a noite toda. E principalmente, eu senti-me sozinho. Senti-me sozinho quando eu estava habituado a que aos fins de tarde, eu tentava chegar sempre entre as 16h e 17h para dar 22h ou 23h para descansar as pernas e para no outro dia estar mais fresco. E estava sempre um fim de tarde ali num bar ou num café, ou mesmo no albergue, na conversa, numa cerveja, nuns petiscos, umas tapas, como os espanhóis fazem tão bem. E naquele dia não Por incrível que pareça, senti-me só. Nos outros nunca me senti só. Nunca estive só. Foi engraçado esse sentimento, quando eu tinha as melhores condições para dormir, para descansar, uma cama própria, uma casa de banho.

Faltou-te a companhia.

Faltou a companhia. É estranho. Não diria estranho, a palavra melhor não é estranho, mas é interessante. É interessante esta dicotomia, esta diferença.

Muito bem. Este caminho francês ensinou-te algo que os outros caminhos ainda não te tinham ensinado, Miguel Costa?

Todos os caminhos me ensinaram algo. Ensinam-me todos os dias. Este caminho ensinou-me ou reforçou, não poderia dizer que me ensinou, porque nos outros também tinha sentido. Reforçou-me que realmente, como eu disse há pouco, somos todos iguais. Somos todos iguais, somos todos irmãos, temos sentimentos, temos dores, temos alegrias. E se nós partilhamos a nossa experiência, como eu estou fazendo neste momento, por exemplo, partilhando a experiência no meio de uma planície, estar num cafezinho a comer um pouco de presunto, beber um sumo, depois aparecer uma pessoa não sei bem de onde, meter conversa, porque nós estamos com mochila, estamos ali uma hora a conversar. Isso é uma simplicidade, mas que nos torna tão enriquecedores, tão ricos. Que não consigo encontrar isso no dia a dia.

É verdade. A vida é feita de coisas simples, não é?

Já dizia a música.

Exato. Nós é que passamos a maior parte do tempo a complicar, não é?

Completamente, mas atenção, eu também estou nesse grupo.

Pois, claro.

Eu também estou nesse grupo.

Exato. Ou complicam por nós.

Também.

Ou obrigam-nos a complicar. Isto agora era uma conversa filosófica para muitas horas.

Verdade.

Muito bem. Tu já fizeste três vezes o Caminho Central, o Caminho da Costa, o Caminho Português do Interior, o Caminho da Geira e Arrieiros e o Caminho do Norte. Qual é o mais bonito, Miguel?

Todos têm o seu encanto.

Não vales nada.

Mas eu vou te responder.

Diz.

Eu tenho uma paixão muito grande pelo a Geira e Arrieiros, que começa em Braga. Nós passamos pelo nosso Gerês, passamos por Lóbios, passamos em Castro Laboreiro. A beleza natural é tão envolvente, que não consigo explicar. Ainda é um caminho pouco explorado, tem os problemas, porque os apoios durante o caminho não são tantos, tem que ser bem planeado para dormir e para comer, mas é uma beleza que não encontrei em mais nenhum.

Boa. Portanto, o caminho da Geira e Arrieiros.

Geira e Arrieiros. É pouco conhecido. Já começa a haver mais pessoas a percorrê-lo, mas o facto de começarmos em Braga, passarmos pelo Gerês. Duas vezes fiz sozinho, o resto fiz sempre com amigos.

Tu fizeste todos de bicicleta ou também a pé?

Todos de bicicleta.

Todos de bicicleta. Ok.

Sim. Porque o ciclismo é a minha paixão, é o meu desporto, é o que eu pratico. Outra questão também é o tempo que nós temos profissionalmente e familiar, que não podemos estar, ou eu não consigo estar tantos dias afastado. A bicicleta ajuda-nos a encurtar um bocadinho esse tempo que temos.

Faz de forma mais rápida, não é?

Sim. Mas acho que a caminhar deve ser mais intenso, mas isso é um feeling que eu tenho. Deve ser mais vivido, penso eu.

Tens que experimentar.

E vai ser experimentado.

É mais tempo. É como de bicicleta, só que com mais constróides. Estamos a chegar ao final da primeira parte, Miguel, vamos abrir o Almôndegaviagem. Miguel, tens contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial?

Tenho as oito vieiras que me percorrem sempre o caminho.

Ah, ok.

Tenho as oito vieiras de cada caminho.

Portanto, usas tu uma vieira para cada caminho de Santiago.

Cada um teve a sua vieira, o seu significado e o seu passaporte. Todos. Religiosamente, tenho em minha casa, no meu escritório, todos penduradinhos, organizadinhos, para me recordar que o caminho da vida também se faz.

Tens o teu pequenino santuário com todas as vieiras e todas as Compostelas, é isso?

Vamos chamar assim. Podemos chamar assim.

Deixa-me adivinhar, de vez em quando olhas para eles e pensas: "Está na hora de ir". É isso?

Está. Já me aconteceu. Tive essa história porque houve um ano que eu tinha decidido não fazer, em 2024, porque tinha ido a Andorra fazer também de bicicleta, quatro, cinco ou seis dias lá numa aventura também. E aquele ano eu tinha decidido não, com a minha família, este ano não vou fazer o caminho. Mas cheguei a agosto e falei pra minha esposa: "Olha, tem paciência, mas eu vou ter que ir". E fui fazê-lo sozinho, o Caminho Central. E foi em Taóra que eu fiz nesse ano.

É como tu dizes, o caminho que chama, não é?

Chama, sem dúvida.

Muito bem. Miguel, vamos fazer aqui uma curta pausa na conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Fazemos aqui uma curta pausa, então, e já regressamos. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana estamos à conversa com o Miguel Costa. O Miguel já percorreu oito vezes o Caminho de Santiago, em múltiplas versões: o Caminho Central Português, o Caminho da Costa, o Caminho Português do Interior, o Caminho da Geira e Arrieiros, o Caminho do Norte e acaba há uns meses de fazer o Caminho Francês. Escreveu um livro precisamente sobre este Caminho Francês, que vai sair em breve. O título é "Quando Menos é Mais". Há uma justificação para o título deste livro ser assim. Vão ouvir a primeira parte porque está lá explicado. Mas tu, Miguel, já tinhas dito na primeira parte, és um grande entusiasta da bicicleta. Não fizeste só o caminho de Santiago de bicicleta, tens feito por aí também algumas aventuras. Por que gostas de mergulhar por aí, longe de tudo, na tua bicicleta, Miguel?

Eu pessoalmente gosto muito deste tipo de viagens.

Já agora, costumas fazer sozinho ou acompanhado?

Geralmente acompanhado. Tenho um grupo de amigos de longa data que vamos organizando para fazer algumas aventuras, como a GR22, que é a Rota das Aldeias Históricas, que também foi muito giro. A questão cultural que eu estava a dizer, de ligação às pessoas das aldeias, das cidades. Isso encanta-me muito, conhecer rotinas. Há três semanas estive em Montalegre, numa prova, mas as provas de competição, para mim, a única razão é para eu conhecer o sítio, para eu conhecer novos trilhos, novas cidades, novas aldeias, percorrer, falar, conversar. E isto serve mesmo estes meus caminhos, estas minhas aventuras serem para termos culturais, aliando também ao facto da bicicleta, ao facto do desporto também desta ligação.

Interativo, não é?

Sempre.

E gostas de fazer mergulhos no país com a tua bicicleta. GR22 é a grande rota das aldeias históricas.

Exatamente.

Deve ser 500 km, não é?

São 500 e poucos quilómetros. Eu só fiz cinco. Em bicicleta eu fiz cinco aldeias, em dois dias.

Essa foi a tua versão da GR22.

Foi.

Deixa-me adivinhar, não tinhas tempo para mais.

Exatamente. O mal é esse.

Caramba, o tempo.

Mas eu fiz tudo depois. Eu fiz a rota toda restante com a minha família e toda a rota.

Ah, que bem!

Mas aí já foi de carro. Fomos dormir e fomos bebendo em cada um dos locais das aldeias que eu achei, muito sinceramente, maravilhoso. Monsanto, Marialva, Almeida. Não quero dizer todas, porque senão vou falhar alguma, mas pronto, são muitas e é muito bom, muito giro, muito enriquecedor novamente.

Tem um grave problema, que é ser muito giro. Certo?

Tem algumas, tem.

Para nós da cidade, tu estás aí no Porto, eu estou aqui em Lisboa.

Estou em Ovar.

Em Ovar, peço desculpa. Para nós que estamos aqui na costa, que é, na verdade, onde está a maior parte do país.

Claro.

Não temos noção do que é viver o dia a dia num território de baixa densidade.

É, mas as pessoas que vivem nessas aldeias e vilas são mais felizes.

Achas?

Acho que são mais felizes no sentido de quando menos é mais. Com menos vivem melhor.

Mas eles vêm todos para aqui.

Vêm por causa do emprego. Eu tenho essa teoria por causa do trabalho, por causa do emprego, as pessoas têm que ter condições de vida. Mas neste caso é muito giro passear nas aldeias. Eu também acho que falo assim porque estou habituado à cidade, tenho tudo ao pé de casa. Chegamos lá e estamos sempre felizes, comemos, conversamos, as pessoas servem-nos a comida.

Ser turista não é a mesma coisa que ser...

Habitante.

Habitante.

É verdade.

Mas não é incompatível.

Não, de maneira alguma.

Digo eu, podemos ser turistas ou visitantes e compreender e empatizar.

É verdade. E sabes que eu tento não ser aquele turista. Não tenho nada contra o turismo, aliás, pelo contrário, nosso país vive do turismo. Mas chegar lá e "sou turista". Não, eu gosto de estar ali naquele meio, ir à tasquinha até tomar um café, beber uma cerveja. Acontece-me algumas vezes. É aquela tasquinha mesmo mais simples possível, que eu vou ali tomar um café, buscar uma água, beber uma cerveja, o que seja. E depois temos ali uma conversa superinteressante, às vezes aqui para o norte, com um bocado de calão no meio e que não é ofensivo. Mas é aquele calão e que as pessoas são tão genuínas. E é muito bom.

Muito bem, GR22 então, na versão Miguel Costa. E que mais aventuras tens tu feito, Miguel, de bicicleta por aí?

Eu já quase que fiz aventuras em toda a parte do país. O Alentejo não está tão explorado por mim ainda. Fiz ali a zona de Campo Maior e por aí. O Algarve também, já pedalei por lá. O Norte, desde Montalegre, Viana, no centro a Guarda Zona do Porto, toda a zona do Porto, a Régua, toda a zona do Alto Douro, a costa toda, daqui de Ovar até Viana e até Caminha. Muitas aventuras.

Muitas aventuras, mas nenhuma delas se compara ao caminho francês, ao caminho de Santiago, certo?

Certíssimo. Sem dúvida.

Li que o caminho português do interior é o mais solitário. É?

É o mais solitário, sim.

Por quê?

Concordo. Como é que eu posso explicar? O caminho da Geira também é um pouquinho solitário, mas o caminho do interior é mais solitário, precisamente pela população e pelo espaçamento entre as localidades. Ou seja, fazemos muitos quilômetros sem ver quase ninguém. Não sei explicar bem. Torna-o especialmente diferente.

O caminho do interior é o que começa em Viseu, não é?

Farmilhão, Viseu. Exatamente. Começa ali em Farmilhão, na zona de Viseu, e acaba em Santiago.

Depois vai por aí acima.

Sim, faz ali depois a Régua, a Régua faz a linha do comboio, a antiga linha do comboio até Chaves. Depois de Chaves vai até Estrada, que é uma localidade. Estrada é um bocado antes, ainda vai antes a umas cidades espanholas, depois passa em Estrada, Estrada-Santiago. Estrada que é uma cidade em Espanha, na Galiza.

Sim.

E vai até Santiago.

Ok. Confirmavas que é, de facto, o mais solitário, não é?

Sim.

Tem a ver com o facto de haver pouco apoio, é isso?

Sim, tem algumas cidades como a Régua, como Viseu. Mas depois da Régua só temos Chaves. São 100 km, não é? Ou 90 km. O que eu quero dizer é que tem muitos quilômetros para andar, para pedalar ou para caminhar. E não é tão, vamos lhe chamar, turístico. Há pessoas a fazê-lo muitas vezes, mas não há massa. O caminho central português há muita gente que vem da América do Sul e de outros locais que aterram no Porto e começam o caminho pelo central ou pela costa, são os dois mais percorridos. Aí sim, temos muita gente. Mas esse aí, não.

Ok. Este aqui, o tal caminho.

O interior.

O caminho português do interior, que é então o mais solitário destes todos que tu já percorreste. Portanto, o caminho da costa e o caminho central português, o que vai de Porto a Santiago, são os que se encontra mais peregrinos, é isso?

Exatamente. O da costa vamos lhe chamar mais massificados, precisamente por causa da facilidade dos estrangeiros aterrarem no Porto e começarem o caminho logo na cidade.

A logística, não é?

Exatamente. Principalmente sul-americanos. Porque da primeira vez que eu fiz o caminho, o central, surpreendeu-me muito. Eu não sabia para o que ia. A verdade é que eu não sabia para o que ia. Eu sabia que tinha muita vontade de fazer o caminho. Isto tem 10 anos. E comecei o caminho, o que me surpreendeu muito foi muitos sul-americanos, brasileiros, Paraguai, Venezuela, por aí fora. E surpreendeu-me muito, porque claro, a pessoa vai estudando, vai percebendo que, de facto, são as rotas de avião que vêm cá e começam logo ali o caminho.

Ok. Portanto, a logística também determina o sucesso do caminho de Santiago.

Claro.

Notaste alguma diferença? Enfim, fizeste percursos diferentes, mas notaste alguma diferença ao longo de 10 anos?

Isto é um bocado até poderá parecer um pouquinho depreciativo. O caminho, como tem uma excelente energia, tem uma energia especial, não é excelente, é muito especial. Eu acho que alguns peregrinos, isto é uma crítica, não há outra forma de dizer, vão passear. Há quem faça por religião, questões religiosas, e claro que sim.

Por devoção ao santo, não é?

E claro que sim.

E é completamente legítimo, claro.

Claro, todas são legítimas.

Todas são legítimas.

Mas há uns que vão para diversão e tem-se sentido há 10 anos esta parte, alguma massificação. Não por: "ok, vou ali, vou me reconstruir ou vou reforçar as minhas energias, vou encher as minhas baterias". Não, outras pessoas não. Parece-me.

Mas é o quê? Depois, durante o caminho, são um bocadinho mais extravagantes e respeitam pouco o espaço dos outros, o caminho dos outros?

É, sim. Algumas pessoas vão porque se calhar não tinham nada que fazer naqueles dias. De outra forma dizendo, por vezes não respeitam tanto. Isto é uma franja muito pequena do que eu estou a dizer. Isto não é geral.

Sim.

Não é toda gente.

Sim.

Mas já alguma parte, eu senti isto pelo menos nos últimos dois caminhos, quase como uma trending, quase pelo Instagram.

Pois, como um produto turístico. E é também.

E é um produto turístico. Mas nós podemos fazer um produto turístico, mas estar a respeitar toda boa energia e todo bom caminho, o "buen caminho" que nós desejamos durante os quilômetros todos que o fazemos.

É verdade. Muito bem. Então, e agora, o que é que se segue, Miguel?

Segue-se aí muitas coisas.

Qual é o próximo caminho que vais fazer? O inglês?

Não, vou fazer o Primitivo.

O Primitivo. Explica lá o que é o Caminho Primitivo.

O Caminho Primitivo é o primeiro caminho que foi feito quando descobriram o túmulo do apóstolo Tiago, em Santiago de Compostela. Século XII. O rei de Aragão, agora não sei qual era o nome, quando soube, fez o caminho desde Oviedo, que é onde começa o caminho, até onde hoje é Santiago de Compostela, onde estava o túmulo do apóstolo Tiago. E por ser chamado de primitivo, foi o primeiro.

Ok.

Foi o primeiro. E é bastante duro fisicamente. Já o estudei um bocadinho e de pessoas que fui lendo e fui percebendo que é bastante duro, mas também é de uma beleza gigante, brutal, enorme.

Ok, portanto começa lá em cima.

E espero que seja mais ou menos excelente. Em Oviedo.

Em Oviedo.

Exatamente.

E vai por ali pelo norte de Espanha. Oviedo é quase uma linha paralela a Santiago de Compostela, não é?

Pode-se dizer, um pouquinho mais paralela.

Um pouquinho mais pra cima.

Sendo que depois o Caminho Primitivo chega a Melide, que é uma localidade antes de Arzúa, em Espanha, que une com o Caminho Francês. O Caminho Francês, em Arzúa, o caminho do norte. Um pouquinho antes, 10 km antes, tem uma localidade que é Melide, aí une o Caminho Primitivo. Portanto, a partir da localidade de Arzúa, a 40 km de Santiago, são muitos peregrinos. Por quê? Porque une três caminhos. É a união de três caminhos. Ok?

Muito bem. Então olha, boa sorte para o Caminho Primitivo.

Obrigado.

Que não te falhem as forças nas pernas. Vais de bicicleta?

Vou de bicicleta. Não posso, a minha agenda não me deixa. A minha agenda não me deixa ter muitos dias.

Muito bem. Tu fazes o quê profissionalmente, Miguel?

Eu sou gestor de empresas.

Gestor de empresas, muito bem. Estás sempre a ser solicitado, não é?

Estou, estou sempre a ser solicitado, naturalmente.

E daí a pressa. Bom, vamos avançar.

Pressa, mas o caminho eu não faço com muita pressa.

Não, vais devagarinho.

Não. O telefone fica sempre um pouquinho mais de lado. À noite, pego um pouquinho o telefone para ver alguma urgência, mas tento não estar muito conectado.

Boa.

Que é sempre difícil não estar conectado.

Muito bem. Miguel, estamos a chegar ao final. Vamos fazer checkout, aliás?

Vamos lá.

Vamos a isso então. Na minha mala vai sempre...

Na minha mala vai sempre os auriculares. Sempre.

Ah, para ouvir música?

Principalmente para ouvir os podcasts. Essencialmente os podcasts. Este podcast eu ouvi, não há nenhum episódio que eu não ouça. Entre outros temas, eu sou um apaixonado por podcast, é uma forma de aprender, enquanto eu vou pedalar, também estou a ouvir. De vez em quando ouço música, claro que sim, que também sou apaixonado por música, mas os meus auriculares vão sempre.

Muito bem. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje?

Olha, tive muitas peripécias no Caminho Francês. Muitas que estão escritas e que me testaram muito.

Furaste muito?

Se?

Furaste muito? Se furaste. Fizeste muitos furos?

Não, furos não tive. Mas tive uma peripécia que está escrita no livro, que podia ter acabado com o caminho.

Então?

Isto pode parecer um bocado de spoiler, mas eu vou contar só muito rapidamente e depois ensino o fundo. Eu faço a primeira etapa, Saint-Jean até Pamplona. Pamplona subo até aquelas imagens do vento ao Alto de Perdon, que é aquela imagem metálica que é muito conhecida dos ciclistas. Aí começa a descer, aquilo tem 1200 de altitude, então começa a descer. Começo a sentir a bicicleta um pouquinho com alguns problemas mecânicos. Depois houve ali muitas peripécias e houve alguém que me deu a mão, pegou em mim e na bicicleta e levou ao mecânico. Sem eu pedir nada, meteu-me numa carrinha, levou-me e foi a um mecânico a um sábado de manhã, que em Espanha geralmente não se trabalha, encontrou um mecânico de bicicletas, uma loja de bicicletas aberta, que me resolveu um problema que poderia acabar ali logo o caminho no segundo dia.

Ok. Qual era o problema? O que tinhas?

Tinha partido o eixo da roda traseira. Não podia andar mais. E eu ainda andei muito. O eixo central tinha partido, portanto, não havia como. Eu aguentei e o senhor que foi, aliás, nem tenho palavras, pegou em mim, fez 20 e tal quilómetros de carrinha para cada lado, foi me procurar um mecânico a uma cidade mais próxima.

Pronto. Compraste uma roda nova, foi?

Comprei uma roda nova.

Isso não tem solução.

Comprei uma roda nova, exatamente. Mas segui o meu caminho.

Boa, isso é que interessa.

E nunca esteve em cima da mesa desistir.

Boa. Ah não, nunca?

Nunca. Eu tinha que arranjar uma forma, nem que fosse com uma bicicleta muito antiga que comprasse no meio do caminho. Tinha que continuar o meu caminho. Nunca esteve em cima da mesa.

Olha, o carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter.

Eu nunca tive problemas com vistos. Eu profissionalmente viajo claramente, mas não posso dizer que tive problemas, profissionalmente e pessoalmente.

E nos caminhos que fizeste, houve assim algum carimbo que tivesse sido especial?

Há muitos. Há um deste caminho, precisamente, está mais fresco na memória também.

O francês.

Que é um carimbo em cera, que no meio de uma reta para aí de oito ou nove quilômetros, estava lá um senhor italiano a carimbar. Punha um pouquinho de cera e carimbava. Não é um carimbo normal de tinta.

Ok. Lacrava à antiga.

Lacrava, exatamente. E ficou um carimbo maravilhoso, lindíssimo.

Cheio de estilo. Uau!

Sim, e nada em troca. Aliás, ele nem aceitava dinheiro. Não aceitava dinheiro. Não, ele estava ali porque queria. E ali também, entretanto, apareceram duas pessoas, dois brasileiros, um casal já Tive uma conversa meia hora. Voltando àquela conversa que nós tivemos inicialmente, estivemos a trocar umas impressões fantásticas.

Boa. A recordação de viagem mais cara?

A roda da bicicleta, acho.

A roda da bicicleta.

A roda da bicicleta foi um bocadinho cara.

Imagino. A refeição mais estranha, qual foi?

Eu já comi coisas que até hoje não sei o que era, João, para ser sincero. Na Ásia, em alguns sítios que eu vou profissionalmente e em passeio com a minha família. Já comi na Ásia coisas que eu não sei o que era e também não quero saber.

É isso. Às vezes é melhor não saber.

Eu não posso dizer que comi isto ou aquilo, não sei, mas comi coisas estranhas. Eu sou muito aventureiro nestas experiências. Nunca me dei mal, não quer dizer que amanhã não me dê.

Então é deixar seguir, não é?

É deixar seguir. Há anos que ando nisto, portanto se nunca deu, algum dia há de ser.

Exato. Olha, gostava de viajar com?

Eu gostava de viajar a pé com a minha esposa, fazer o caminho.

'Bora, vamos embora.

Pois, mas ainda não consegui vender essa ideia à minha esposa. Há anos quando eu tento convencer ela a fazer o caminho a pé comigo. Mas não, ainda não.

Pode ser que depois de ouvir esta conversa, a convenças.

Pode ser que sim.

Vale a pena. Como é que se chama a tua mulher, Miguel?

Ana.

Ana, vale a pena. É uma boa experiência.

Depois de tantos anos que nos conhecemos e que somos casados, acho que seria uma experiência maravilhosa para nós os dois.

Exatamente.

Precisamente porque é quando menos é mais, portanto é uma simplicidade o nosso caminho, que é a nossa vida, no fundo.

Para renovar, não é? Para redescobrir.

Exatamente. Novas experiências, novas sensações, novos conhecimentos.

Exatamente. Muito bem. Miguel, chegámos ao fim. Qual foi a música que escolheste para fechar a nossa conversa?

João, eu escolhi uma música que me diz muito e que, apesar de eu achar que é um clichê neste tipo de podcast, tinha que ser. É a única música que eu podia deixar aqui, que é "A Gente Vai Continuar", de Jorge Palma. Deixou-nos há poucos dias. Mas todo o repertório do Jorge Palma. O Jorge Palma ensinou-me sem saber, mas deixou este legado em muita gente, que é o poder da palavra. O poder, o significado e as letras dele. Ele é um cantautor, como o Sérgio Godinho, por exemplo, que são dois grandes cantautores que eu admiro desde sempre, desde menino. E quero deixar aqui também, "A Gente Vai Continuar", porque tem muito a ver com tudo o que eu aprendi, o que eu aprendo no caminho, o que eu aprendo nas minhas aventuras e na vida.

Muito bem. Boa escolha, Miguel. Olha, foi um gosto. Muito obrigado pela partilha e boa sorte para o teu livro, "Quando Menos é Mais".

Sim.

E até uma próxima.

Obrigado pelo convite.

Um dia destes cruzamo-nos de bicicleta.

Esperemos que sim.

Claro que sim. Esperemos que sim. Miguel, foi um gosto. Muito obrigado.

Muito obrigado, João. Tudo de bom.

Jorge Palma a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Estamos de regresso daqui a oito dias. Sejam bons e boas viagens.

Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar. Enquanto houver estrada para andar. Enquanto houver ventos e mar, a gente não vai parar. Enquanto houver ventos e mar. Todos nós pagamos por tudo o que usamos. O sistema é antigo e não poupa ninguém, não. Somos todos escravos do que precisamos. Reduz as necessidades se queres passar bem. Que a dependência é uma besta que dá cabo do desejo. E a liberdade é uma maluca que sabe quanto vale um beijo. Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar. Enquanto houver estrada para andar. Enquanto houver ventos e mar, a gente não vai parar. Enquanto houver ventos e mar. Enquanto houver ventos e mar, a gente não vai parar. Enquanto houver ventos e mar.

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