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Monday, November 2, 2026

La Trampa: o vinho chileno que vai se tornar um dos grandes ícones do país

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O Chile construiu uma reputação internacional com vinhos como Almaviva, Seña, Don Melchor e Viñedo Chadwick. São rótulos que, ao longo de décadas, conquistaram reconhecimento, valor de mercado e espaço entre os grandes vinhos do mundo.

Mas acredito que um novo nome vai entrar nessa lista nos próximos anos. Ainda pouco conhecido e, na minha opinião, subestimado, o La Trampa, da Casas del Bosque, tem qualidade e identidade para se tornar um dos grandes ícones do país.

Estive recentemente na vinícola, no Vale de Casablanca, para uma degustação vertical com o enólogo Alberto Guolo. Provamos as safras 2022, 2023 e 2024, esta última recém-lançada no Chile e com chegada prevista ao Brasil. Foi uma das experiências mais interessantes da viagem. Não apenas pela qualidade dos vinhos, mas pela evolução impressionante entre as três safras, algo que nem sempre é possível observar com tanta clareza em um intervalo tão curto.

A história começa em 2018, quando Guolo decidiu transformar o antigo Grand Estate Selection, um vinho baseado em Syrah, em um projeto mais ambicioso. O objetivo era mostrar que Casablanca, região conhecida principalmente por seus Sauvignon Blancs e Chardonnays, também poderia produzir tintos de alto nível, com personalidade e capacidade de envelhecimento. Uma aposta importante para uma vinícola que construiu boa parte de sua reputação com vinhos brancos de clima frio.

A origem do nome e a combinação inusitada

O nome La Trampa, que significa "a armadilha", surgiu de uma característica do próprio vinhedo. Em uma pequena área da propriedade, protegida pelas encostas, a neblina que chega do Oceano Pacífico demora mais para desaparecer. Os trabalhadores já chamavam aquele lugar de La Trampa porque a névoa parecia ficar presa ali. Curiosamente, é também um setor relativamente protegido dos ventos mais fortes, criando condições particulares para o amadurecimento das uvas tintas.

Foi nesse local que a equipe encontrou uma combinação pouco convencional: Syrah, Malbec e Pinot Noir. O Syrah fornece a estrutura, o Malbec contribui com aromas florais e frescor, enquanto o Pinot Noir ajuda a trazer equilíbrio e delicadeza. A proposta de Guolo é produzir um vinho com profundidade, mas sem o peso e a concentração excessiva que muitas vezes associamos aos grandes tintos sul-americanos.

Ele resume essa filosofia em uma expressão que considero perfeita: "estrutura sem peso". O La Trampa busca preservar a tensão, a acidez e a pureza da fruta, características que refletem a influência do Pacífico sobre Casablanca. É um estilo que também ajuda a ampliar a imagem da região, mostrando que seu potencial vai muito além das variedades pelas quais ficou conhecida.

Evolução e aprendizado nas safras

Mas construir um vinho ícone exige tempo, investimento e, principalmente, disposição para aprender. As primeiras safras, de 2018 a 2020, foram marcadas por experimentações. Em 2021, as condições climáticas levaram Guolo a não produzir o La Trampa. A pausa serviu para repensar o projeto e aprofundar o entendimento sobre o comportamento das variedades, especialmente o Malbec, plantado na propriedade em 2014.

Essa uva vem ganhando importância no corte. Em 2023, representava 32% da composição e, em 2024, chegou a 40%. Guolo acredita no potencial de um Malbec de clima frio, muito diferente daquele que encontramos habitualmente em Mendoza, com mais notas florais, frescor e menor sensação de peso. A vinícola já planeja ampliar os vinhedos dessa variedade, que hoje ocupa uma área bastante limitada da propriedade.

Na degustação, a evolução foi evidente. O 2022 mostrou um vinho mais maduro, com boa estrutura e seus elementos integrados. O 2023 apresentou um salto importante, com mais tensão, personalidade e frescor. Mas foi o 2024 que realmente me impressionou. Mesmo muito jovem, apresentou uma qualidade de fruta superior, taninos mais bem trabalhados e um equilíbrio notável. É um vinho que tem concentração, mas permanece fresco, elegante e com uma textura que convida à próxima taça.

Uma nova aposta no cenário chileno

Existe também uma decisão comercial interessante por trás desse projeto. Enquanto boa parte dos grandes ícones chilenos construiu sua reputação a partir de Cabernet Sauvignon e cortes de inspiração bordalesa, a Casas del Bosque está apostando em um vinho de clima frio, com variedades e estilo pouco convencionais. É uma forma de buscar diferenciação em um segmento no qual reputação, origem e capacidade de envelhecimento são fundamentais para construir valor ao longo do tempo.

O La Trampa ainda não tem a longa história, os preços ou o reconhecimento internacional dos grandes nomes do Chile. Mas vejo justamente aí uma oportunidade para quem gosta de descobrir vinhos antes de se tornarem amplamente conhecidos. A qualidade já está presente, a identidade está cada vez mais clara e a evolução das últimas safras mostra que a equipe está encontrando o caminho que procurava desde 2018.

Saí da Casas del Bosque convencido de que estamos acompanhando a construção de um novo grande vinho chileno. E acredito que, nos próximos anos, o La Trampa vai ocupar seu lugar entre os ícones do país. Não pela tentativa de reproduzir o estilo de outros produtores, mas justamente por apresentar algo diferente.

Para quem gosta de acompanhar a evolução de grandes vinhos e pensar também em seu potencial de valorização, minha sugestão é prestar atenção ao La Trampa agora. A safra 2024, que chegará em breve ao Brasil, é um excelente exemplo do que esse projeto está se tornando. E tenho a impressão de que, daqui a dez ou quinze anos, vamos olhar para essas primeiras safras como o início de uma história importante para o vinho chileno.

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