O que muda na vida de um vencedor do Nobel

Voltando a Thomas Cech, que descreve a Universidade do Colorado como “muito boa”, dá o exemplo de Berkeley, de Stanford, de Harvard ou MIT, “que quase todos os anos recebem um ou dois Nobel”. É um valor exagerado, mas demonstra a ideia de que “o sucesso atrai sucesso” e que o prestígio do Nobel gera uma espécie de bola de neve que acaba por atrair mais financiamento para a instituição e mais investigadores e projetos promissores. “No nosso país [EUA] há muitas doações filantrópicas para as universidades, e as pessoas ricas tendem a pensar nestas mais reconhecidas como os lugares que devem apoiar”, completa.
Na Europa, os exemplos são Cambridge e Oxford, no Reino Unido, ou o Instituto Max Planck, na Alemanha, bem como o próprio Instituto Karolinska, na Suécia. “Em Portugal, estão numa situação semelhante à do Colorado. Têm excelentes universidades, mas, por alguma razão, não têm sido vistas como as do topo na Europa”, considera. Thomas Cech acredita que a ausência de prémios Nobel nos corredores das universidades não deve ser interpretada como um sinal de pouca qualidade — e vice-versa. “Não significa que todos se devam mudar para as outras. Tive as minhas propostas, considerei-as e decidi que posso tanto fazer o meu melhor trabalho como viver a minha melhor vida num local rodeado pela natureza e numa comunidade menor”, conta.
O “processo humano” e os eventos que “mantêm um estilo” há mais de um século
Nunca há mais do que três laureados por prémio, por ano. Podem ser menos, mas nunca mais. Isto leva a que, em alguns anos, haja pessoas que “injustamente” são excluídas do anúncio em outubro. “É bom ter um limite, caso contrário haveria pressão para ter um número enorme de pessoas a ganhar todos os anos”, confessa Thomas Cech. Contudo, o investigador que se formou em Boulder, no estado norte-americano do Colorado, admite que, depois de ter começado a participar no processo de votação, começou a aperceber-se desta exclusão.
“Muitas vezes, confrontamo-nos com dilemas: como é que podemos deixar esta pessoa de fora se foi a verdadeira pioneira? De facto, os outros três fizeram um trabalho fantástico mais tarde, mas esquece-se de quem foi pioneiro”, desabafa. Neste momento, Thomas Cech está em Vancouver há um ano como “visiting professor“. Na Simon Fraser University, aos 78 anos, dá aulas a estudantes de licenciatura na casa dos 20. “Continuo a apreciar a interação humana. As novas gerações vivem nas redes sociais, mas considero esse formato demasiado distante do contacto humano. Não utilizo redes sociais”, diz ao Observador.
E é nesta valorização pelo “humanismo” no processo de seleção de laureados que Thomas Cech encontra o prestígio das instituições. “Por ser um processo humano, não se espera perfeição”, defende. O interesse nos anúncios que costumam ser transmitidos ora na Academia Real de Ciências da Suécia (no caso da Física e da Química) ora no Instituto Karolinska (para a Fisiologia ou Medicina) aumentou particularmente no final da década passada.
“Estava convicto de que a descoberta da edição genética com o CRISPR ia vencer o Nobel. Mas, ano após ano, o prémio não saía”, descreve. Jennifer Doudna era uma das principais cabeças à frente do projeto inovador que hoje em dia é o “gold standard” para a manipulação de genes. A bioquímica foi, também, bolseira de pós-doutoramento no laboratório coordenado por Cech em Boulder. “Acompanhei o processo com entusiasmo, todos os anos, até que finalmente aconteceu em 2020”, lembra com um grande sorriso no rosto.
Ao seguir este processo novamente três décadas após ter sido o premiado, Thomas Cech teve a oportunidade de comparar a sua experiência à da vencedora no ano da pandemia. “Em 1989, não tínhamos internet nem redes sociais, escrevíamos cartas em papel”, começa o investigador. “No entanto, os eventos em Estocolmo mantêm um estilo muito consistente, com mais de um século e, de alguma maneira, nunca passam de moda”, acrescenta, referindo que ambos tiveram experiências “muito semelhantes” na cerimónia de entrega do prémio.
Mas com a entrada numa nova era digital, onde já existem redes sociais e a internet, os laureados enfrentam uma “realidade nova”. “Os pedidos para falar são mais frequentes e agora até recebo solicitações geradas por bots de inteligência artificial, que apago logo”, descreve. E, tal como Richard Henderson, a resposta aos pedidos verdadeiros costuma ser negativa.
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