Bíblia é instrumentalizada para justificar opressão feita por Israel, diz pastor palestino
Nas diferentes edições da Marcha para Jesus realizadas todos os anos em cidades brasileiras, principal manifestação pública do calendário evangélico no país, é comum ver participantes enrolados na bandeira de Israel. Para o pastor Munther Isaac, esse apoio a Tel Aviv presente em setores do evangelicalismo mostra como a Bíblia tem sido instrumentalizada para justificar o que ele descreve como um processo de apagamento da população palestina na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.
"É claro que não negamos a ligação dos judeus com a terra. O que questionamos é transformar isso em uma ideologia e em um direito político que também implica expulsar os palestinos dela. Por isso, conclamamos os cristãos a se afastarem dessa visão", afirma à Folha Isaac, ele próprio palestino, em referência às políticas e à campanha militar lideradas pelo premiê israelense, Binyamin Netanyahu.
Morador de Ramallah, na Cisjordânia ocupada, o pastor fez um giro pelo Brasil, neste mês, para o lançamento de seu livro "Cristo nos Escombros: A presença de Deus em Meio ao Sofrimento em Gaza".
O religioso, também diretor do Instituto Belém para a Paz e a Justiça, organização evangélica, usou a visita para criticar a violência sistemática que estaria sendo cometida contra os palestinos. A viagem foi organizada com o apoio de grupos religiosos e da editora Thomas Nelson Brasil, responsável pela publicação da obra.
Há aproximadamente 45 mil cristãos palestinos vivendo na Cisjordânia, em Jerusalém e na Faixa de Gaza, segundo Isaac. Ele afirma que, além de estarem sujeitos a ataques das forças israelenses e às mesmas restrições impostas à população palestina em geral, inclusive relacionadas à circulação, os cristãos lidam com discriminação e violência por motivos religiosos.
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Foram registrados 83 atos de assédio contra cristãos na região, a maioria em Jerusalém, de abril a junho deste ano, de acordo com o Centro de Dados para a Liberdade Religiosa, um centro independente criado por cidadãos israelenses. A maior parte dos episódios envolveu cuspidas contra religiosos, como freiras e fiéis. Também foram contabilizados casos de ofensas verbais, comportamento ameaçador, arremesso de lixo, vandalismo contra símbolos religiosos e violência física.
Os números, aponta Isaac, vêm crescendo. No mesmo período do ano passado, o instituto registrou 69 atos de assédio. De abril a junho de 2024, foram 34 casos.
É nesse contexto que o pastor palestino critica o que chama de "sionismo cristão", uma corrente influente em setores evangélicos que entende a criação e a manutenção do Estado de Israel, bem como suas ações militares, como parte do cumprimento de profecias bíblicas.
"O sionismo cristão instrumentalizou a Bíblia, usando-a para justificar e normalizar a opressão dos palestinos", afirma.
Segundo ele, interpretações bíblicas têm sido usadas para minimizar o sofrimento dos palestinos e, em alguns casos, também para dar respaldo jurídico à ocupação de terras.
"Hoje, um judeu de Nova York pode viajar à Palestina, expulsar palestinos, tomar suas terras e até mesmo suas casas. E alguns justificam isso como sendo o cumprimento de uma profecia ou o retorno dos judeus à sua terra. Muitos cristãos acreditam nisso", diz, em referência à instalação de judeus em assentamentos na Cisjordânia.
No Brasil, um dos principais pilares de apoio à política de Israel em relação aos territórios palestinos é estruturado em torno do sionismo cristão, diz Isaac. Na edição do ano passado da Marcha para Jesus em São Paulo, o pastor americano Larry Huch, autor de obras como "A Bênção da Torá", foi um dos convidados. No palco, afirmou que "quem abençoa Israel é abençoado".
Essa visão encontra eco na política, sobretudo em grupos conservadores. Antes de chegar à Presidência, por exemplo, Jair Bolsonaro (PL) manifestou a intenção de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo o exemplo dos Estados Unidos de Donald Trump, em proposta que não chegou a ser concretizada. Seu filho Flávio Bolsonaro (PL), na corrida presidencial deste ano, também defende aproximação do Brasil com Israel.
Isaac é categórico ao dizer que grupos cristãos que apoiam Israel contribuem para a catástrofe vivida pelos palestinos em geral.
"Estamos sendo apagados, estamos sendo expulsos, e esses grupos [cristãos], com seu apoio incondicional a Israel, estão contribuindo para a nossa crise", diz. "Muitas vezes há ignorância. Existe a presunção de que a terra estava vazia, como se Israel tivesse sido criado em uma terra vazia."
A Bíblia, reitera ele, rejeita a violência. É por isso que lideranças religiosas, incluindo o papa Leão 14, deveriam ter um posicionamento mais enfático contra as ações militares israelenses na região, afirma.
De acordo com autoridades palestinas, mais de 70 mil pessoas foram mortas durante o conflito em Gaza, iniciado em outubro de 2023 como resposta a um mega-atentado terrorista feito pelo Hamas.
Isaac condena os ataques feitos pelo Hamas em outubro de 2023. Ao mesmo tempo, afirma que são raros os ataques ou ameaças de grupos islâmicos e extremistas à comunidade cristã palestina em Gaza e na Cisjordânia. "Isso não significa que apoiamos o Hamas. Os cristãos palestinos não acreditam em um Estado religioso. Por isso, não apoiam o Hamas", diz.
A violência atinge também cidadãos de Israel e judeus. Neste domingo (20), um atirador palestino matou um israelense perto do assentamento de Neve Tzuf, ao norte de Ramallah, em um ataque ocorrido horas antes do Yom Kippur, feriado judaico, segundo autoridades de Tel Aviv. O Hamas elogiou a ação, mas não reivindicou a autoria.
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