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Friday, October 16, 2026

Como uma festa de coquetel em 1972 nos deu o melhor documentário de 2026

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‘Once Upon a Time in Harlem’ revisita um reencontro único de artistas, músicos e intelectuais que fizeram história — e mudaram o mundo

Rolling Stone

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Once Upon a Time in Harlem
Once Upon a Time in Harlem (Foto: Divulgação/Neon)

Os nomes surgem diante de você em uma enxurrada: Eubie Blake, Richard Bruce Nugent, Gerri Major, Leigh Whipper, Regina Andrews, Romare Bearden, Aaron Douglas, James Van Der Zee. São poetas e pianistas, pintores e fotógrafos, jornalistas e anfitriões de salões culturais, figuras influentes que ajudaram a moldar uma época. Todos estão tomando coquetéis e conversando sobre os velhos tempos. Estamos em 1972. Depois de conseguir emprestado o apartamento de Duke Ellington no Harlem, o cineasta William Greaves (Symbiopsychotaxiplasm: Take One) convidou os expoentes remanescentes do movimento artístico conhecido como Renascimento do Harlem para uma espécie de reencontro. Alguns são velhos amigos. Outros não se veem há décadas. Todos fizeram história ao norte da Rua 110, com repercussões que ecoaram pelo mundo.

Greaves manteve as câmeras ligadas, registrando lendas que relembravam o passado com carinho, expunham antigas mágoas, reclamavam da geração seguinte e, ocasionalmente, exigiam o devido reconhecimento. Arna Bontemps declara que o movimento começou oficialmente quando seu colega poeta, o falecido Countee Cullen, publicou o poema “Heritage”. Ida Mae Cullen, viúva de Countee, pergunta repetidamente por que ninguém naquela festa trata seu marido como a figura importante que ele foi. Tapinhas nas costas e ânimos exaltados se alternam. A conversa esquenta. Alguns dizem que o auge aconteceu em 1921. Outros afirmam que o movimento nunca terminou. Aquele período fértil de efervescência criativa e intelectual nem sequer foi um renascimento, declara um dos convidados. Foi “um despertar”.

Se Once Upon a Time in Harlem fosse apenas um registro daquele encontro único na vida — se permitisse que você fosse apenas uma mosquinha bisbilhoteira em uma parede primorosamente decorada, diante de uma festa extraordinária —, o documentário ainda assim entraria na categoria de “imperdível, para assistir o quanto antes”. A história por trás do filme é quase tão fascinante quanto as conversas registradas: Greaves filmou a festa acreditando que ela faria parte de uma obra muito maior sobre o Renascimento do Harlem, com trechos de arquivo e depoimentos de entrevistados diante das câmeras, mas acabou engavetando o projeto. (O material de arquivo deu origem ao curta-metragem From These Roots, de 1974.) Durante décadas, o cineasta e sua esposa, Louise Archambault Greaves, tentaram desenvolver projetos a partir das imagens, mas nunca encontraram o formato ideal. Greaves morreu em 2014; antes de morrer, em 2023, sua viúva conseguiu um financiamento para restaurar os rolos de filme de 16 mm. David Greaves, filho de William — e um dos cinegrafistas que registraram a festa em 1972 —, e sua filha, Liani Greaves, decidiram concluir o trabalho iniciado pelo patriarca.

O que eles agora nos oferecem, porém, é mais do que um simples documento histórico. É o retrato de um movimento cultural como um organismo vivo, pulsante, formado por pessoas com opiniões divergentes sobre suas conquistas e sobre quem, exatamente, foi responsável por cada uma delas. Naturalmente, os gigantes têm seu momento de glória. Mas também discutem entre si, debatem detalhes e questionam as lembranças uns dos outros. Trechos de músicas, poemas, fotografias — a montagem com as extraordinárias imagens de época de Van Der Zee vai deixar você com água na boca — e reportagens daquele período são incorporados para lembrar ao público o quanto aquelas obras eram, e continuam sendo, emocionantes e arrebatadoras. Na maior parte do tempo, você está na sala onde tudo aconteceu, ouvindo os representantes da comunidade negra norte-americana do início do século 20 conversarem sobre como transformaram os Estados Unidos.

A maneira como David Greaves e seus colaboradores — um destaque para os montadores Lynn True e Anne De Mare — organizam o material para reproduzir o fluxo e o ritmo de uma festa de verdade, ao mesmo tempo que oferecem uma história oral que funciona como cápsula do tempo de um bairro no início dos anos 1970, transforma o próprio documentário em uma grande celebração. Once Upon a Time in Harlem faz jus à grandiosidade e ao caráter épico sugeridos por seu título. O legado do que aconteceu em dose dupla — quando a arte foi criada, recebeu a devida atenção e teve sua importância debatida retrospectivamente em conversas francas — não é apenas preservado para a posteridade. Ele é reivindicado e reafirmado como uma declaração de princípios, especialmente em um momento em que forças poderosas agem de má-fé para tentar apagar sistematicamente histórias como essa. Tudo isso aconteceu era uma vez. Mas também é urgente, contemporâneo e atemporal.

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