Rick: do menino que vendia picolés ao ícone sertanejo
Mas, para contar a história de Rick, é preciso começar pelo Geraldo Antônio de Carvalho.
“Eu nasci em Monte do Carmo, interior do Tocantins, mas quando eu nasci ainda era Goiás”, lembrou o cantor em arquivo do programa Bem Sertanejo, do Fantástico. O trabalho começou cedo. “Quando criança, já vendia picolé, vendia jornal, vendia um bocado de coisa”, recordou em participação no Domingão do Faustão. A música também começou cedo, primeiro em família. “A minha irmã, nós fizemos inclusive a dupla chamada Sereno e Serenata, né?”. Faustão questionou se ele era o Sereno. Depois veio Brasília. “Tanto eu quanto o Renner, a gente cantava na noite. Eu tinha outra dupla, Rick e Rei, e eu cantava numa casa bem pertinho. O que dividia as duas casas era uma parede. No intervalo eu ia ouvir o Renner e ele vinha me ouvir. Começou o namoro ali”, relatou.
O sucesso levou mais tempo. “Chegou uma época que eu e a minha mulher, a gente ficava sem almoçar pras crianças poderem comer. Que é uma situação realmente complicada”, desabafou sobre o início nos anos 1980. Eles insistiram e o jogo virou.
No DFTV de 1997, o público ouvia o hit: "Tira a roupa, tira a roupa / Que eu vou ajudar você / Tira a roupa, tira a roupa / Do varal que vai chover". No Altas Horas de 2000, Serginho Groisman apresentava a dupla cantando: "Nosso amor tem momentos ruins mas é cara de pau... cara de pau, esse amor cara de pau, mas é gostoso, esse amor é bom demais...".
No Domingão, Faustão profetizava: “Essa dupla ia atingir a elite da música sertaneja”.
A trajetória seguiu com canções marcantes, como os versos de "Muleca". Uma coleção de músicas que fez de Rick & Renner referência para quem ainda tentava chegar lá.
Em depoimento, a dupla César Menotti & Fabiano recordou o início da carreira e o apoio recebido: “A única dupla que falou assim: ‘Não, os meninos que cantam a música, chama que eu quero conhecer eles’, foi o Rick & Renner, lá na cidade de Betim. Abriu os palcos pra gente”. “E a gente não esquece disso não, viu?”.
Na última sexta-feira, 25 de setembro, no Villa Country em São Paulo, César Menotti e Fabiano homenagearam a dupla que lhes estendeu a mão. No palco, César declarou emocionado: “Há 15 dias, ele tava cantando aqui, onde eu estou. Mas só morremos quando somos esquecidos. E o Rick vai viver pra sempre. Através das canções, do legado que ele deixou”.
No camarim, Fabiano ressaltou a relação com o ídolo: “Fãs do cara, nos tornamos amigos do cara, conseguimos ir de palco com o cara, gravamos música dele, né? Então, um pleno prazer que a gente teve na vida foi chamar o nosso ícone musical de amigo”.
Rick era um compositor incansável. “Eu não paro não, Fausto. Eu componho direto, o tempo todo tô sempre fazendo música. Eu sou aquele cara que gosta muito de fuçar a questão da música”, afirmou. No Ecad, escritório responsável por arrecadar e distribuir direitos autorais, constam 661 obras cadastradas em seu nome. “Não existe um repertório no Brasil hoje sendo tocado que não tenha a caneta do Rick”, apontou César.
Entre suas criações gravadas por outros artistas estão clássicos como "Página de Amigos", com Chitãozinho & Xororó ("Como é que eu posso ser amigo de alguém que eu tanto amei"), e "Só Dá Você na Minha Vida", interpretada por Rick, Michel Teló e Daniel ("Eu tentei, eu lutei, fiz o possível / Mas viver sem você é impossível").
“Eu acho que uma das músicas em que eu mais gosto do Rick é a Poeira da Estrada, que era do saudoso João Paulo e hoje do saudoso Rick”, citou Fabiano, lembrando a letra: "Estrada que era vermelha de terra... que o progresso trouxe o asfalto encobriu".
E não importava o tamanho da plateia. “O Rick não brincava com a música. O cantar, a interpretação dele, o carinho dele ali com meia dúzia de pessoas que estavam nos assistindo, era a intensidade que você tivesse em um palco como nós vimos com 30 mil pessoas assistindo”, destacou César. Fabiano completou: "A música vinha muito antes da fama, muito antes do dinheiro”.
Com Renner, formou uma parceria marcante. “Eram dois caras diferentes demais um do outro. O Rick um pouco mais cowboy assim, o Renner um pouco mais playboy assim. Que dupla diferente!”, observou César. Ao longo dos anos, vieram rupturas e recomeços, celebrados em retornos aos palcos:
Fora do palco, sua companheira de vida esteve sempre presente: Geralda. “ A Gê foi uma parceirona, amiga, parceira, esposa dele da vida toda, né? Eu acho bonita a história deles como casal", recordou César. Rick deixa dois filhos, Mônica e Victor, e quatro netos — família que inspirou suas obras. Para Mônica, compôs "Filha", clássico das festas de 15 anos. E foi justamente para a debutante Maria Clara, em 19 de setembro, na cidade de Sorriso, em Mato Grosso, que Rick realizou a última apresentação de sua vida, ao lado de Renner: "Não é que eu vá te vigiar / Não é que eu queira ser seu dono / Isso é só um cuidado de pai / Filha, eu te amo".
A rotina de shows permanecia intensa após quatro décadas de carreira, e Rick já considerava desacelerar. “Pô, chegou a hora de desacelerar, né? ... Não deu tempo”, emocionou-se César.
Na segunda-feira seguinte, dois dias após a última apresentação, o helicóptero em que Rick viajava caiu na Serra Catarinense. Entre as cinco vítimas estava o empresário Bruno Avelar, amigo de longa data de Rick e da dupla César Menotti & Fabiano.
Ao serem questionados sobre o amigo Bruno, César desabafou entre lágrimas: “Eu queria que você me perdoasse. Seguramente vai ter um tempo em que a gente vai conseguir falar com naturalidade, lembrando certos momentos de alegria [...] mas hoje ainda não consigo. Perdoa”. Fabiano completou: “Foram muitos anos de amizade, quase 30 anos. "
Rick havia cantado seu maior hit no casamento de Bruno, em agosto deste ano. A canção entoada foi "Ela É Demais": "
Em mensagem aos fãs pelas redes sociais, Renner declarou: “A saudade vai ficar”. E concluiu: “Então, é isso. Eu passei aqui pra dizer que amo vocês, que o show não pode parar, né? A gente vai continuar cantando e é isso”. Como traduzem os versos: "Sei, não me questão de aceitar / Se não há nada que eu possa fazer / A gente não pode impedir / Se a vida cansou de ensinar / Sei que o amor nos dá asa, mas volta pra casa / Mas volta pra casa".
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