Preto no branco

1. Senhor, perdoa-me porque pequei. Perdoa-me porque sou “racista”. Sou “racista” à minha maneira. Sou “racista” à minha maneira, porque este racismo, pelo menos, não o fui buscar aos Avós, à cor da pele, aos mapas do império, às teorias da pureza do sangue ou a qualquer dessas velhas imbecilidades com que os homens tantas vezes procuraram encontrar na biologia a superioridade que não conseguiam demonstrar pela vida. O meu “racismo” é de outra raça. Divido os homens, como os bons racistas. Julgo-os. Faço distinções entre eles e, pior ainda para os novos confessores da virtude pública, não tenho intenção de deixar de as fazer.
Reconheço duas grandes “raças” de homens: a dos homens decentes e a dos homens indecentes. Dos primeiros, gosto. Dos outros, se me permitirem, guardo as devidas distâncias. Tenho medo do contágio. E, agora que o disse, apercebo-me: já pequei outra vez. Senhor, perdoa-me novamente.
2. A cor da pele interessa-me pouquíssimo. Quase nada. Que pode ela dizer-me acerca de um homem? Que é branco? Que é negro? Que nasceu deste lado do mundo ou daquele? Muito bem. E depois? Quero saber outra coisa. Quero saber se cumpre a palavra dada quando já não lhe convém. Se trata decentemente aquele de quem nada precisa. Se consegue ter poder sem se embriagar com ele. Quero saber se mente, se trai, se humilha, se procura sempre alguém mais fraco onde descarregar a pequena miséria que transporta consigo. A melanina diz-me muito menos do que isto.
Curiosamente, quando julgávamos ter aprendido esta lição bastante simples, começaram a aparecer novos escrivães da condição humana, muito atarefados a separar-nos outra vez por raças, origens, identidades, pertenças, privilégios herdados, culpas também herdadas e sofrimentos distribuídos por cadastro. Mudou o formulário: a mania classificatória ficou.
3. Durante décadas disseram-nos, e bem, que não devíamos olhar para um homem e começar pela cor. Pois parece que agora devemos. Primeiro pergunta-se quem fala, depois de onde fala e ainda com que pele fala. O valor da palavra, atualmente, depende disso. Seguem-se a pertença, a “experiência”, o privilégio, a representatividade e todo esse tabelionato moral que pretende saber, antes mesmo de ouvir uma frase, quanto dela estamos autorizados a escutar. Confesso que não acompanho (será, seguramente, defeito meu).
Talvez me falte essa finíssima sensibilidade que consegue combater a obsessão pela raça pensando permanentemente em raça. Que extraordinária terapêutica! Passámos do velho racista, convencido de que a cor explicava o homem, para uma nova espécie de catalogador, também ele fascinado pela ideia de que a cor explica qualquer coisa de essencial acerca de quem a traz. Não é exatamente a mesma coisa, bem sei. Mas também não é uma coisa tão diferente que dispense a pergunta: quando foi que voltámos a acreditar que a cor da pele traz consigo qualidades morais.
4. Aristóteles, felizmente, não conheceu estes congressos identitários. Conhecia homens e sabia que o carácter se faz pelo hábito. A justiça pratica-se. A coragem pratica-se. A lealdade pratica-se. A vileza também. Ninguém se torna patife numa manhã de terça-feira: vai-se fazendo patife, devagarinho, quase sem dar por isso. Uma mentira porque dava jeito, uma palavra não honrada porque afinal as circunstâncias mudaram, uma cobardia batizada de prudência, uma humilhação sobre quem não podia responder. E outra. E mais outra. Até que já não dói. Também a decência, permitam-me este lamarckismo moral, quando não é exercitada acaba por atrofiar. A consciência habitua-se a quase tudo: até a nós. É esta a diferença entre homens que me interessa porque, ao contrário da cor, esta depende, em boa parte, deles.
5. Temos hoje, porém, uma relação curiosa com o julgamento. Julgar alguém pela categoria a que pertence pode ser apresentado como elevadíssima consciência social, mas julgá-lo pelo carácter já parece uma violência. Chamemos os “bois” pelos nomes. O homem que mente habitualmente é mentiroso, quem trai por conveniência é desleal, quem só é corajoso quando leva uma multidão atrás não é corajoso coisa nenhuma, e aquele que precisa de alguém mais fraco para se sentir grande é apenas pequeno (muito pequeno). Não preciso de um seminário numa qualquer faculdade de sociologia para chegar até aqui.
6. Evidentemente, não tenho qualquer procuração divina para distribuir certidões de virtude. Desconfio dos que se consideram moralmente puros (confesso-me, novamente: tenho telhados de vidro). Sempre desconfiei, aliás. O homem que nunca duvida da sua própria bondade está perigosamente perto de começar a praticar a maldade em seu nome.
O decente pode cair e o indecente pode levantar-se. E talvez muitos dos nossos santos de algibeira sejam apenas homens a quem nunca apareceu a tentação certa, dinheiro bastante, medo suficiente ou aquela maravilhosa garantia de que ninguém ficaria a saber. Por isso julgo com cuidado. Mas julgo. E julgo-me, sobretudo, a mim.
7. Senhor, perdoa-me, então, este meu “racismo”. Continuarei, apesar disso, a preferir a raça de homens que cumpre à raça de homens que trai; a raça de homens que protege à raça de homens que humilha; a raça de homens que deixa confiança por onde passa à raça de homens que deixa atrás de si a porta fechada, o alívio e, às vezes, devido ao cheiro apodrecido que ficou, a necessidade de abrir uma janela.
Quanto às outras raças, deixem-me em paz. Já tivemos séculos de gente obcecada com elas. Não precisamos de novos racialistas, muito satisfeitos com a sua “melhor” consciência a explicar-nos outra vez quanto devemos saber de um homem antes mesmo de o conhecer. A minha “raça” não se recebe. Faz-se. Chama-se carácter. O resto é pele e, demasiadas vezes, conversa fiada.
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