Cidade bolsonarista de PE relata vendas para fora canceladas após eleição

A cidade de Santa Cruz tem a economia e seus empregos dependentes das vendas dessas fábricas. O município foi o único de Pernambuco em que Flávio Bolsonaro (PL) venceu as eleições —e nos dois turnos.
Resultado do segundo tuno na cidade:
- Flávio - 53,6% dos votos válidos (30.519 votos)
- Lula - 46,4% dos votos válidos (26.421 votos)
Com 14 mil empreendimentos, o polo de confecções do Agreste é o segundo maior de produção de roupas do país (atrás apenas de São Paulo) e emprega, direta e indiretamente, cerca de 200 mil pessoas no estado.
O centro desse polo tem três cidades, que comandam a cadeia: Santa Cruz, Toritama e Caruaru. A produção, porém, se irradia por pelo menos 62 municípios do estado. Somente em 2025, o polo registrou movimentação de R$ 18,6 bilhões, 19,2% a mais em relação ao ano anterior.

Empresários receosos
A coluna fez contato, entre a quinta e a sexta-feira, com donos de fábricas que vendem suas mercadorias para fora do Nordeste. Muitos preferiram não falar, outros negaram cancelamentos e tentaram minimizar os impactos.
Sobre os casos confirmados, a principal questão alegada é que empresários de fora estariam temendo uma queda da atividade econômica por conta da vitória de Lula.
Um deles conversou com a coluna, sob condição de anonimato. "Eu tive cancelamentos de 6.000 peças, que vão de volta para estoque", diz o fabricante, que alega ter 95% de sua produção vendida para outras regiões do país.
Ele cita que foram 14 cancelamentos: 11 de estados do Sul, um do Amazonas e dois de Mato Grosso do Sul. "Isso vai implicar uma perda de R$ 120 mil em vendas", completa ele, que conversou com a coluna na quinta-feira.
"Isso é o medo de o comércio não reagir, o mesmo que tiveram os investidores da Bolsa de Valores", compara.
"Ficou uma incerteza dos impostos que vão ser implementados em janeiro, e os clientes estão com medo de o comércio dar uma paralisada. Eu mesmo vou comprar matéria-prima com cautela e diminuir a produção", completa.

Revolta com votação pesou, diz
Segundo Roniere Gomes, advogado e consultor de vendas para atacadistas de todo o Brasil, o impacto dos cancelamentos para empresas pode ser grande.
"A cidade depende das vendas das roupas para movimentar a economia, diferentemente de cidades maiores, que têm estrutura e não dependem de um segmento exclusivo. Em Santa Cruz, se parar as vendas, tudo para: delivery, salão de beleza, pintor, encanador, escolas, agências de viagens."
Ele afirmou ao UOL que somente uma das representações onde atuou afirmou que teve mais de R$ 2 milhões em pedidos cancelados entre segunda e terça-feira.
Ele explica que os motivos informados para os cancelamentos foram dois:
- A revolta pela vitória do PT, associada à elevada expressão de votos que ele teve no Nordeste;
- O medo do futuro, por não confiar nas promessas do governo.
"Até entendo cancelar o pedido pela incerteza do futuro; é melhor cancelar do que comprar e não pagar. Mas, se a justificativa for a simples vitória do PT, não se sustenta porque Santa Cruz sempre deu vitória à direita", diz.
Para tentar amenizar a situação, ele gravou vídeos no seu perfil para explicar que a cidade não votou majoritariamente em Lula e que os cancelamentos, por esse motivo, seriam injustos.
"Vai melhorar", diz líder
Antonio Gomes Ribeiro Filho, coordenador da Câmara Setorial dos Representantes Comerciais de Santa Cruz do Capibaribe, também diz acreditar que os cancelamentos, em regra, não ocorreram por retaliação à votação de Lula no Nordeste.
"A gente consultou os nossos colegas representantes e conseguimos observar que, de fato, houve alguns pedidos cancelados. Foram poucos, mas ocorreu. Esses pedidos foram cancelados em virtude do momento econômico do país", argumenta.
Ele explica que a Câmara presta um serviço a representantes comerciais, oferecendo assessoria e logística para clientes das cinco regiões do país que querem comprar em Santa Cruz do Capibaribe. "Essas empresas buscam clientes, que são os lojistas e atacadistas que trabalham com confecções, calçados e acessórios."
Por fim, Ribeiro Filho diz acreditar que os impactos desses cancelamentos serão contornados em breve, e as vendas voltarão ao patamar normal.
"A gente continua trabalhando firme, montando as estratégias em busca do crescimento das nossas empresas e do comércio. Inclusive, nós, representantes, já estamos concluindo o nosso calendário de 2027, com as melhores expectativas", finaliza.

Reportagem
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.